Raymundo Silveira

Compulsão 

Produzo textos como um industrial

De fundo de quintal.

Sou um agente inflacionário da escrita,

Um gerador pletórico de letras:

Letras belas, letras feias, letras ilegíveis;

Produzo escritos como o mar, ressacas;

Crio frases como o sol a pino, calor;

Fabrico sentenças aceitáveis,

Algumas até mesmo agradáveis,

Mas também escrevo baboseiras

Como no “estro brutal das bebedeiras”,

Do qual falava em versos memoráveis

O gênio mal lembrado de Bandeira.

 

Às vezes escrevo coercivamente

Sobre a fala <i>non sense</i> dos idiotas

A linguagem ininteligível dos loucos,

A idéia fixa dos obsessivo-compulsivos,

A luxúria promíscua dos lascivos,

As aberrações chocantes dos tarados,

O lugar comum dos imbecis,

E o desespero dos desesperados.

Para mim pouco importa o que ajunto:

Na coerência, na gramática ou no assunto,

Contanto que a fábrica nunca pare

De produzir palavras, letras, frases

Porque sempre  foi este o meu destino

E só me decidi a isto um tanto tarde,

Embora o pressentisse desde menino.

voltar