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Raymundo Silveira Perdera
o das dez por muito pouco. Teria de esperar o das onze. Partiam de hora em
hora. Não havia nada o que pudesse fazer, a não ser esperar. Uma hora.
Quatro mil e oitocentas batidas. Era hábito antigo. Mania de medir o
tempo, enquanto esperava, não somente por ônibus, mas por qualquer
quefazer, contando as batidas do coração. Se não fizesse assim, era
capaz de endoidecer. Ficar uma hora, vazio... Sessenta minutos, no vácuo...
Quatro mil e oitocentos pulsos não contados... Impensável. Quatrocentas.
O calor fazia orvalhar toda a superfície do corpo. Não que a idéia de
orvalhos reais lhe ocorresse. A livre associação corria por conta da
abundância da transpiração. Sentia-se como se tivesse acabado de sair,
vestido, de um banho de mar, sob um sol abrasador. O motor do veículo
ronronava. A carroceria tremelicava. O cheiro de diesel se misturava a hálitos
de alho e a suores de roupas guardadas. Não tinha certeza se lamentava
ter perdido o último coletivo... Teria viajado de pé. Preferia contar
batidas a viajar de pé naquele campo móvel de concentração. Oitocentas
e vinte. A lotação estava quase completa. O lado esquerdo da poltrona
continuava desocupado. Esperava que fosse preenchido logo. Talvez uma
mulher sentasse ao lado. Mulheres costumam cheirar bem. Os últimos
passageiros geralmente eram homens também suados. Talvez estivessem
evitando sentar ali exatamente por causa disso. Mil
e duzentos batimentos. Lamentava que estes obedecessem ao tempo... Seria
capaz de acelerar aquela máquina a qualquer custo, se acontecesse o
inverso. Mil
e quinhentos. Afinal sentou alguém. Uma senhora. Ainda bem. Se esperasse
mais um pouco, não teria sido tão otimista. Era uma velha de
sexta-feira, 13. Sem vassoura e sem dentes. Mascava fumo. E cuspia. E a
cada cusparada, tinha de me afastar e lhe dar passagem para que cuspisse
através da janela. Isso incomodava menos do que aquela manducação
banguela. A concavidade que se abria e fechava, de permeio com uma respiração
ruidosa, dava a impressão de um fole de ferreiro a borrifar enxofre. Duas
mil e quinhentas pulsações. Não há mais assento vago. Sobem as
primeiras pessoas que viajarão de pé. Entre essas, uma senhora de seis
meses. Calculo a idade pelo tamanho da barriga. E se posta ao meu lado.
Subitamente, entro num conflito: levanto? Sim. Infelizmente vou ter de me
levantar. Seria mais desconfortável viajar sentado com aquela proprietária
de cadeira cativa por perto. Não olha para mim. Tem um ar sobranceiro,
como se já contasse como certo o meu lugar. Não me levanto. Embora me
sinta constrangido, prefiro isso a enfrentar, de pé, aquela jornada a
fins-de-mundo. Com uma parada em cada esquina para apanhar mais
passageiros. Que viajarão de pé. As outras pessoas que não estão
sentadas começam a me encarar. Levanto. Não Levanto... Levanto. Não
levanto... Parece que um Cirineu compulsório estava passando pelo mesmo
dilema, embora estivesse mais à frente e fingisse ignorar tudo.
Levantou-se. Três
mil e seiscentas. Neste intervalo, nada aconteceu. Por este motivo o tédio
foi maior. A monotonia da contagem era quase insuportável. Quanto mais se
aproxima, de fato, a hora do fim do expediente, mais o tempo custa a
passar. Três
mil e oitocentos batimentos. Vou parar de computar. Não suporto mais essa
pasmaceira. Quatro
mil. A ansiedade produzida pela expectativa, faz o pulso acelerar. Ele não
percebe. E continua a contar. O coração deve bater agora, 110 vezes por
minuto. Isto dá a falsa impressão de que o tempo passa mais depressa. Só
que, em vez de 4800 pulsações, vai ter de esperar por muito mais. Quatro
mil e quinhentos. Faltam apenas trezentos, engana-se. Passa a se angustiar
ainda mais quando não vê o motorista ocupar o seu lugar. E os batimentos
passaram para 120 por minuto. Terá de contar, a partir de agora, e se
tudo permanecer como está, acima de sete mil e duzentos. Mas ele não
sabe disso... Cinco
mil. Só então percebi o equívoco. Vou desistir da contagem. E ter de
esperar os últimos minutos sem a menor idéia de quantos serão. Passa-se
uma eternidade. Subitamente, entra o chofer. Que alívio, meu Deus! O
movimento do veículo fará entrar alguma ventilação. Basta essa
perspectiva para o meu pulso voltar ao normal. “Atenção! Este carro
está enguiçado e vai para a garagem. Queiram descer, por favor. Dentro
de uma hora virá outro”. http://www.raymundosilveira.net/ "A
literatura é uma das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz
quando escrevo e penso que posso dar um pouco de felicidade aos
leitores". |