Raymundo Silveira

16 De Julho de 2014

 O Maracanã não é o mesmo. E é. Depois da reforma, voltou a ser o maior e o mais moderno do mundo. Final da Copa de 2014. O Governo, a iniciativa privada e a FIFA gastaram muito dinheiro e energia para prevenir a violência anunciada: torcedores estrangeiros ameaçam terrorismo. Há rumores de concentração de tropas, brasileiras e uruguaias, na fronteira. Nas grandes metrópoles, segurança reforçada. Venda de ingressos controlada com rigor. Ainda assim, lotação esgotada: perto de trezentos mil espectadores. Um emaranhado de muitas léguas de fibras nervosas a conduzir impulsos elétricos de alta voltagem.

 Nos dois países o clima é tenso. No Rio de Janeiro, está longe de competir com a atmosfera festiva que costumava predominar em dias de finalíssima. A canção de Miguel Gustavo, agora, faz muito mais sentido. Os milhões se encontram mesmo em ação. Antes, ninguém agia. Sonhava-se, apenas. Agir é a condenação iníqua dos sonhos. Alterar coisas, interferir nos acontecimentos, influir nas pessoas, obscurece mais a mente do que ter devaneios. O Rio inteiro parece mobilizado para uma guerra. Só não há muita gente armada porque os policiais passaram pentes finos. Revistaram todos os suspeitos. Homens e mulheres. Proibida a venda de bebidas alcoólicas. Nos prontos-socorros o movimento é dez vezes maior do que durante o carnaval. Ataques (ou falsos alarmes) do coração, em mais de cinqüenta por cento dos casos. Agressões? Assaltos? Tiros? Facadas? Praticamente zero. Se todos os dias houvesse aqui um jogo igual a esse, esta cidade seria mesmo maravilhosa. E o país, um reino de amor e de concórdia. Pelo menos para consumo interno.

Vai começar a partida. A nação parou. Desde o mais remoto vilarejo, à grande São Paulo. Há um suspense hitchcockiano se estendendo da cidade de Oiapoque, no extremo Norte, ao Arroio Chuí, confinando-se com o inimigo. Se alguém se atrevesse a andar pelas ruas, não veria vivalma. Se não existisse o som dos televisores – cujo número simula ser maior do que o de habitantes - o país seria uma câmara ardente. De oito milhões e quinhentos mil quilômetros quadrados.

 Dentro do estádio, o panorama é outro. O exército ajuda a controlar torcedores.  Mas não se vê a menor manifestação de torcida adversária. O próprio azul da abóbada celeste se encontra obscurecido pelas nuvens e pela fumaça dos fogos de artifício. O mundo é verde e amarelo. A entrada em campo, um misto de apoteose e bombardeio. Os adversários são vaiados até enquanto cantam o hino da sua pátria. As olas não cessam. São movimentos rítmicos da multidão, configurando imensas ondas humanas. Como numa mesa de bilhar, o toque da primeira “bola”, desencadeia uma espécie de efeito dominó, determinando o êxito da coreografia. Um bailado dançado por três centenas de milhares de bailarinos numa gigantesca ribalta.

 Durante o primeiro tempo, a seleção confirma o favoritismo pressionando o Uruguai. Mas desperdiça várias chances. No intervalo, o placar assinala zero a zero. Aos dois minutos do segundo tempo, num contra-ataque fulminante, Fumaça dribla o zagueiro e chuta forte, em diagonal, da linha direita da grande área. O estádio explode. Aliás, a nação explode. Ninguém duvida mais. A grande vingança se aproxima. As arquibancadas são mares de bandeiras, faixas e cartazes; alguns com dizeres insultuosos. A partir daí, os jogadores se acomodam. E o orgulho ferido dos uruguaios empurra o time pra frente. Os brasileiros atacam sem muito entusiasmo. Aos vinte e um minutos Stefanino está livre de marcação. Um único homem encontra-se recuado e dá condições legais. O uruguaio dispara sozinho em direção à área e chuta por entre as pernas do goleiro. Um a um. A multidão cala, mas não perde a confiança. O Brasil tem a vantagem do empate. Um leão em sua caverna recebendo um cordeiro para disputar um almoço com o prato já pela metade.

Entre os jogadores, o choque emocional é coletivo. Onze Ronaldinhos na França de 1998. Aos trinta e quatro minutos, Giovani avança pela direita e chuta cruzado, quase como se cobrasse um escanteio. O goleiro Rui tenta rebater, mas a bola vai parar no fundo das redes brasileiras. O Maracanã vira um cemitério de vivos. Ainda restam uns fiapos de esperança. Faltam onze minutos para terminar. Sem os ajustes: de tempo e de uma antiga conta. No segundo minuto dos descontos, o artilheiro Valdemir é derrubado dentro da pequena área. Pênalti. Os mortos ressuscitam. O cemitério vira um crematório. Só que não há defuntos pra queimar. Mas muito combustível para arder. E se transforma num vulcão.

O próprio Valdemir se encarrega da cobrança. Depois de autorizado, se afasta da bola andando de costas... Neste instante, surge um Boeing sobrevoando o estádio a baixa altitude. Tumulto. Todos desatam a correr. Um estouro da boiada. Muitos morrem pisoteados e esmagados entre dois calendários de concretos abalos. Um deles assinala dezesseis de Julho de 1950; o outro, onze de Setembro de 2001. O árbitro recebe ordens para interromper imediatamente a partida. E adiar a decisão. O silvo do apito é estridente demais e não pára... Amanhece. Numa suíte de hotel em Copacabana, o juiz inglês James Reed, escalado para o jogo daquela tarde, acorda ansioso. Estende a mão e trava o despertador. Deveria ter ponderado melhor a proposta antes de aceitar. Apesar da pequena fortuna que vai receber, os pesadelos vinham pesando demais...

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  "A literatura é uma das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz quando escrevo e penso que posso dar um pouco de felicidade aos leitores".
(Julio Cortázar)

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