Raymundo Silveira

A Choupana

 Chovia. Os fios de água açoitados pelos ventos, que sopravam fortes em várias direções, executavam uma estranha coreografia, como se uma legião de dançarinos, de repente tivesse enlouquecido e bailasse num hospício. Era noite. E o diabólico bailado só podia ser vislumbrado enquanto o clarão dos relâmpagos alumiasse o espaço, despedaçando as trevas durante alguns segundos. Os trovões raivavam na terra, sugerindo que um monstro buscava devorá-la com tudo o que havia em cima.

 Mesmo assim, caminhava firme, sem hesitação. Ora o caminho era plano e largo, conquanto lamacento. Ora, acidentado e tão estreito que só permitia passar ranhando o corpo nas pedras, nos troncos das árvores e nas pontas dos espinhos à margem das veredas. Mas não havia ferimento algum. Nem cansaço. Caminhava com suavidade como se pairasse alguns palmos acima do chão. Parecia impelido por uma força maior que as próprias forças. E que o corpo, imponderável, se deslocava tangido pela ventania.

A chuva cessou tão de repente como começou e os cúmulos-nimbos se desfizeram com igual presteza. O zimbório continuava escuro, mas agora se deixava atravessar por um clarão que passava através de um círculo perfeito e iluminava um abismo à margem direita da vereda. Ao fundo, um minúsculo abrigo que mais sugeria um cubículo isolado de qualquer outra obra de humana origem.

 A descida foi tão suave quanto o trajeto percorrido sob o aguaceiro. Sempre em frente, sem parar. Apesar da inclinação íngreme da encosta e das condições úmidas do terreno não havia o menor deslize. Uma vez ou outra, um vulto humano caminhava também alguns passos adiante e, de repente, se punha a esperar. Depois sumia sem deixar vestígios.

O abrigo ia crescendo aos poucos, como uma ilha deserta que se avista do mar à medida que a embarcação se aproxima. Daquela distância parecia uma cabana de acabamento tosco, feita de troncos e palhas de carnaubeiras. O vulto humano agora era par e demorava cada vez mais a desaparecer. Não sentia medo algum. Se fosse formado de matéria, não haveria como atacar. Se se tratasse de algo incorpóreo, não havia o que temer.

 A choupana se encontrava a menos da metade da distância percorrida desde a descida do abismo. Já se podia notar que a porta estava aberta e a casa, abandonada ou esperando por alguém. Não existia o menor sinal de vida. Apenas aqueles vultos insistentes que também cresciam em número, paravam e esperavam, para subitamente sumir em intervalos cada vez mais curtos.

 A choça, agora, podia ser percebida em detalhes. Só existia uma porta. Não tinha chaminés nem outros sinais de que ali morasse qualquer pessoa. A sensação era a de que, de fato, aguardava a chegada de alguém.

 Aproximei-me com cautela. Antes de entrar dei uma volta completa em torno da tosca habitação. Nada. Decidi entrar de uma vez. Sentado, de frente para a entrada, numa cadeira toda feita de pau, estava um homem. Era eu.

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"A literatura é uma das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz quando escrevo e penso que posso dar um pouco de felicidade aos leitores".
(Julio Cortázar)

 

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