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Raymundo Silveira
L'art, meilleur moyen que
le concept pour exposer le contenu de la philosophie. Doutor, pelo amor de Deus, faça um “corte deitado”.O filho nasceu roxo, sem fôlego, sem respirar... Ressuscitou. Graças a Deus, segundo a mãe. Graças ao pediatra e a um “corte em pé”, disse o obstetra ateu. Para outro médico, cristão, ambos estavam certos. Mas o problema era outro. Cútis muito tenra, delicada, suave. Tez de cetim. Tonalidade nívea que, nas maçãs do rosto, mudava para o róseo. Fronte ampla, encimada por gracioso bico de viúva antecedendo basta cabeleira loira e sedosa, parcialmente presa na nuca. Olhos esverdeados. Nariz arrebitado. Boca sensual, guarnecida por lábios carnudos de coral e lindos dentes de marfim. Seios firmes, fartos, aréolas rosadas. Túrgidos mamilos. Coxas bem torneadas, lisas, muito brancas e macias. Pernas proporcionalmente grossas. Pequeninos pés. Mimosos dedinhos terminados em pérolas coloridas. Afrodite. Tinha quarenta e trinta anos, dependendo de quem conhecesse ou não a data do seu nascimento. E um medo doentio de ser feia, imperfeita, defeituosa. Um romance mal escrito... Junto com a incisão vertical, uma infecção pós-operatória deixou o abdome marcado para sempre. Enormes reentrâncias enrugadas, saliências, depressões e sinuosidades assimétricas disseminadas por toda a superfície. Meia dúzia de cirurgias plásticas atenuou o aspecto repulsivo. Ainda assim, assustador. Então, vestida, era mesmo uma deusa. Um poema do Alighieri. Despida, uma bruxa repugnante. Ou a emenda do De Oliveira rejeitada. Gritante contraste entre o belo e o grotesco. Sem meio termo. Como tem de acontecer na Poesia. Noites de tempestades. Dias tenebrosos. Existiam piores. Aconteciam no clube, quando as amigas, todas de biquínis, mergulhavam na piscina. Ela também mergulhava, metida no seu maiô de peça única. E não queria mais voltar à tona. E chorava. Tão estranho chorar dentro da água... As lágrimas pareciam escorrer para dentro dos olhos. Doíam. Descasada, tinha de ganhar. Trabalhar, apenas, não adiantava. Era só o que fazia, desde quando verteu os primeiros pingos de mulher. Convidada pelo editor de uma revista masculina para posar nua. Cachê de trinta mil dólares. Naquele mês ainda não sabia como quitar o aluguel. Diante da recusa, uma contraproposta de cinqüenta mil. Desde aquela cesariana sempre foi infeliz. Mas aquele dia foi o mais desgraçado de todos. Entrou em depressão e cogitou de suicídio. Adorava as cores. O branco da sua pele, o verde dos olhos, o ouro dos cabelos. O vermelho do próprio sangue azul fidalgo... Qual seria mesmo a cor da eternidade? Namorou. Casos efêmeros... fugidios. Jamais se apaixonou nem dormiu com alguém. Os relacionamentos não passavam de beijos e amassos. Era o máximo aonde se permitia chegar. Ao abraçar os namorados, cuidava que aquele contacto era ilusório. Como se existisse uma vidraça interposta entre os dois. Tremia de pavor só de imaginar um homem deitado sobre si ou a lhe observar o ventre deformado. Os amantes em potencial, deslumbrados e alucinados de paixão, imploravam. Suprimia abruptamente o relacionamento, quando insistiam. Sentia tanto pavor diante da perspectiva de ir para a cama, que nunca mais queria vê-los. Provava o insosso da vida. Amava tudo pela metade. Tinha, portanto, apenas meio coração. Sinfonia inacabada de um maestro genial. Hoje com cinqüenta anos, vai-se equilibrando entre dois comportamentos que são os reflexos dos dois corpos. Um real e outro virtual. Um para consumo externo e outro para o sofrimento interno. Um para ser exposto na vitrine da vaidade, outro para ficar oculto nos desvãos da loja do destino. Guardado num cofre de ressentimentos. Segredo dentro de outro segredo. Gemidos paradoxais. Ais de mim engolidos sem manducação. Amigas menos dotadas de beleza aparente sentem uma inveja irreprimível, pois ignoram tudo. Como possui apenas uma alma e esta não pode ser dividida em duas como o corpo maniqueísta, vai-se tornando cada vez mais estranha e amarga. Capaz de despertar emoções, mas impotente para dar e receber qualquer tipo de afeição genuína. Como toda obra de arte... 13/12/2005 |