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Raymundo Silveira A Confissão Seus
joelhos o martirizavam, como as sagradas chagas do Salvador. Isto se
repetia quase diariamente desde a adolescência. A Fé sempre foi a única
razão da sua vida. Ainda jovem já costumava afastar os maus pensamentos castigando
a carne, que, a despeito de tudo, clamava por prazer. Estava agora com
quarenta e seis anos. “Pai Nosso, que estais nos Céus. Santificado seja
o Vosso nome”. Esquecei, meu Pai, esta soberba; este orgulho funesto que
possui razão alguma para existir. “Venha a nós o Vosso Reino”. E
esquecei também esta avareza que não permitiu sequer uma alimentação
condizente com a dignidade humana. As
crianças esfomeadas, a doença tomando conta. Tudo isto para não gastar
o maldito dinheiro. “Seja
feita a Vossa vontade, assim na Terra como no Céu” a fim de que prevaleça
a paz, em vez da ira. A compaixão, antes da inveja. Não aspirar ao
conhecimento absoluto a fim de obter prestígio e inúteis glórias,
com tantos analfabetos sem ver a luz. Que a fortaleza física e
espiritual sobrepuje a tibieza e a preguiça. Essa preguiça responsável
pelo pecado da omissão. “O pão nosso de cada dia nos dai hoje”, contanto que a frugalidade esmague esta gula insaciável. E que a temperança triunfe sobre todos os vícios. “Perdoai as nossas ofensas”, principalmente por causa desta incontida luxúria. Este comportamento tão libidinoso que enodoa o leito, praticando abomináveis atos solitários a cada noite ou mesmo a cada dia durante o banho. Perdoai as prevaricações; o voyeurismo; as nojentas sodomias de todas as semanas. Enfim, as perversões sexuais de quaisquer espécies. A devassidão. “Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Não é verdade, Senhor! Não há perdão algum. Pelo contrário, o que existe é um desvairado desejo de vingança. E muitas vezes um rancor espontâneo sem nenhuma causa aparente. Perdoai, portanto, este hediondo triplo pecado onde se associam a mentira, o ódio e, muitas vezes, a calúnia ou a infâmia. “Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Amém”. Só
depois destas palavras, Benedito Buschetta se levantou, dando graças a
Deus pelo alívio daquela posição tão incômoda. Teve também um
pensamento para o bendito engenheiro, que construiu aquela igreja.
Excelente acústica. Como sempre, embora muitas apenas sussurrassem, não
perdera uma única palavra das beatas, na confissão de todos aqueles
pecados. Abençoado banco, ali, pegado ao confessionário. Era mesmo
um presente de Deus. “Pai Nosso” providencial, de reza
interrompida tantas vezes, naquela manhã de fartíssima
“colheita”. Pensou em demorar mais um pouco. Apesar dos joelhos
doloridos, aquilo estava tão gostoso! E faltava ainda a desavergonhada
mulher do chefe de polícia. Mas desistiu porque tinha muito
que fazer antes que chegasse a hora da “safra” vespertina. "A literatura é uma das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz quando escrevo e penso que posso dar um pouco de felicidade aos leitores". (Julio Cortázar) |