Raymundo Silveira

A Herança

 Morava sozinho, numa cidade do extremo Norte e era fiscal, aposentado, do Ministério da Fazenda. Quando soube que estava com câncer, agiu conforme gostaria que tudo acontecesse. Era muito mais do que o último desejo: era o último sonho. Foi a São Paulo  contratar uma empresa funerária especializada em cremação. Exigiu, porém, falar apenas com um dos corretores. Obteve também a concessão de que o negócio seria sigiloso e isso constasse numa das cláusulas.

 Temia a intervenção de algum herdeiro. Somente os dois tomariam conhecimento do negócio. Os diretores acharam aquilo muito esquisito, mas diante de tanto dinheiro, não houve como deixar de atender a tão estranho, porém riquíssimo, cliente. Queria tudo de primeira. O procedimento mais caro de que dispunham. Exigiu também que o transporte do corpo fosse feito imediatamente. Nada de embalsamamento. Para isto, as despesas com o fretamento de um jatinho, estavam incluídas no contrato.

 Pagou tudo à vista. Investiu nessa extravagância todo o patrimônio. Não era milionário, mas como quase não tinha despesas, a poupança que acumulara também não era de pouca monta. O suficiente para quatro pessoas de quarenta anos passarem o resto da vida sem precisar trabalhar. Ao indagarem como saberiam o momento de agir, respondeu que isso era com ele. Quando sentisse a morte próxima, encarregaria alguém, de confiança, de comunicar o óbito.

Dois anos e meio depois, morreu dormindo. Como vivera os seus últimos anos: sozinho. Ainda que tivesse tido a oportunidade de falar com alguém sobre o contrato, de nada adiantaria. A empresa havia falido. Os vizinhos tomaram conhecimento quatro dias depois. Por causa do mau cheiro. Um rabecão removeu o cadáver para o IML e, depois da autópsia foi sepultado, como indigente, numa vala comum.

Só então começaram a aparecer os parentes. Tratava-se de uma meia irmã, um irmão, que há muito tempo não via, um casal de filhos dele, ambos já casados, e uma filha dela. Inesperadamente, surgiu um rapaz de vinte e cinco anos alegando ser filho natural do falecido. A princípio, a briga foi feia. Uma exumação e um exame de DNA desmentiram a alegação. A irmã, o irmão e os sobrinhos respiraram aliviados. E começou a busca da herança.

Contrataram um advogado especializado em causas cíveis. Tinha de ser ele ou ninguém. Apesar de recém-chegado, era o único que havia no lugar. Moveram Céus e Terra. Contrataram detetives particulares. Subornaram ex-colegas do morto na Receita Federal. Caçaram botijas por todo lugar onde ele andava. Nada. Pensaram, inclusive, em mandar fazer uma sessão espírita na esperança de que ele baixasse e, arrependido, revelasse onde socou o dinheiro. Nem vestígio da grana.

 - Ah velho filho da puta!

- Ah cabra escroto!

- Ah bandido safado!

- Ah sacana miserável!

 Eram as palavras mais gentis que pronunciavam os irmãos e os filhos destes. Até o advogado praguejou baixinho. Havia momentos de ódio tão intenso que toda noção de realidade ficava obscurecida. “Vamos desenterrar este corno e espalhar os ossos dele para os cachorros roerem”. “Melhor pegar as canela e enfiar no rabo de duas porcas”. “Não! Vamos pegar a caveira e levar prum terreiro de macumba e mandar fazer um despacho pra alma dele queimar pra sempre no Inferno”. “Aquilo lá tem alma... Se tiver o Satanás deve tá é com medo que tome o lugar dele...”

 O único pensamento sensato veio pela voz do advogado. “Vocês estão loucos. Nenhum sabe o que diz. Não se dêem o luxo da emoção e usem a razão. Só existe uma esperança de achar este dinheiro. Anunciar nos maiores jornais do país que estamos para descobrir o seu paradeiro. Quem prestar algumas pequenas informações que faltam ou, se for o caso, devolver logo o montante, será gratificado com a metade...” “Não! Metade não. Trinta por cento”. “Tá louco! Qui trinta por cento! Dez e ameaçar de prisão”. “Vou repetir mais uma vez: Vocês perderam toda a noção da realidade. Vão ter de anunciar nos jornais que “estamos chegando perto de quem se apropriou indebitamente do pequeno legado do nosso saudoso...”

 “Saudoso o quê? Aquele veado?” “... que estamos perto de encontrar quem se apropriou indebitamente do humilde legado do nosso...” O advogado fez outra pausa. Pigarreou um pouco e prosseguiu: “... do nosso saudoso irmão e tio querido. Quem prestar as informações que nos levem a conhecer o destino desta módica quantia, ficará com a metade, a título de gratificação. Estamos também decididos a recompensar o informante com a importância de cem mil reais, mesmo que as indicações não nos permitam recuperar o dinheiro. Contanto que sejam verídicas e...” “Quem deve estar louco é o senhor. Não nós”. “Bem, era tudo o que tinha a declarar. Se ainda quiserem que eu continue aceitando esta causa será à minha maneira. Do contrário, estou fora”. A ambição falou mais alto. Afinal, cem divididos por cinco, tocavam vinte mil pra cada um. Uma mixaria diante da poupança do falecido.

“Bem minha gente, temos uma pista. Mas a pessoa se recusa a negociar através de conta bancária. Seu nome não deve aparecer. Só negocia com valores em espécie. Se quiserem mesmo saber que rumo levou a herança, tenho de exigir que os cem mil me sejam entregues. Em dinheiro vivo. No prazo de vinte e quatro horas”.

 “Até que enfim uma conclusão. Infelizmente, não é a mais satisfatória. Mas, pelo menos, acabará com todas as dúvidas. Está tudo esclarecido. Todo o patrimônio do parente de vocês foi doado por ele a uma obra de caridade através de dois procuradores. Um, da parte dele e o outro da instituição beneficiente. Foram exigidos anonimato e sigilo absolutos. Nem ele mesmo sabia o nome da entidade beneficiária”.

 Quando terminou aquela reunião, o advogado bendisse a hora em que deixou de ser um simples corretor, mal remunerado, de uma empresa funerária e se empenhara em concluir o ano que faltava do curso de Direito.

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"A literatura é uma das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz quando escrevo e penso que posso dar um pouco de felicidade aos leitores".
(Julio Cortázar)

 

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