Raymundo Silveira

A Nau Dos Insensatos

Em 1968 minha turma e eu cursávamos o quarto ano de Medicina. Divergências de várias naturezas – parece incrível, mas uma destas sucedeu em 1965 e ainda hoje é motivo de ressentimentos apesar de já se terem passados quase quarenta e dois anos - motivaram a formação de dois grupos antagônicos. Fundaram-se, então, dois clubes - eufemismo para disfarçar duas panelinhas - distintos: “Clube do Esqueleto” e “Clube Christian Barnard”; sim o dos transplantes cardíacos mesmo. Eu fazia parte deste último e era membro da sua diretoria. Naquele mesmo ano nossa “panelinha” foi discriminada. O pessoal do “Esqueleto” cavou e obteve verba e transporte para uma excursão a São Salvador da Bahia. Naquela época vigorava plena ditadura, e os poderosos de plantão resolveram tentar conquistar a rebeldia juvenil através de vários artifícios; entre eles um tal de “Projeto Rondon” que era nada mais do que viagens de recreio a simular estudo e trabalho sério. Pois bem, pretextando discriminação odiosa, fomos reivindicar ao comandante da Base Aérea local aquilo que, ardilosamente, chamáramos “Rondonzinho”. Depois de muitas promessas, circunlóquios, chás-de-cadeira e aporrinhações outras, conseguimos o nosso intento. Jogaram-nos num avião de carregar pára-quedistas sem o menor conforto, alimentação ou quaisquer outras benesses, que não as “passagens”, as quais, segundo nos informaram seriam de ida e volta. Talvez os vagões de deportar judeus na era nazista, dessem uma idéia, mais ou menos aproximada, do que fora aquele vôo. Além disto, todo o meu dinheiro se resumia a uma quantia equivalente a uns dois ou três salários mínimos da época e que levantei no Setor de Penhores da Caixa Econômica graças a um relógio antigo que meu pai me havia doado.

Ó, juventude sonhadora, como és fácil de ser lograda! O poeta estava certo quando disse de ti: “as esperanças vão conosco à frente”; todavia, tenho minhas dúvidas que tenha sido tão sábio ao completar: “e vão ficando atrás os desenganos.” O nosso grande desengano deu-se, não com a decepção das condições subumanas da viagem, mas no preciso instante em que pusemos os pés no aeroporto de Manaus. O sargento encarregado de programar o transporte de civis, era uma alimária. Recebeu-nos com um semblante de Sanson – o famigerado operador da máquina do Dr. Guilhotin, durante a Revolução Francesa. “Vieram pela FAB? Não entendo como conseguiram! Tudo bem! Mas vão voltar de quê?” "Ué, pela mesma, logicamente”. A fisionomia de “Sanson” simulou um sorriso. E era mesmo; só que de puro escárnio: “Vão mofar aqui!” Isto sucedeu em Dezembro de 1968; dois dias antes da promulgação do AI5, de cujos preparatórios estávamos absolutamente alheios. Aliás, mesmo no dia da malfadada promulgação, só tivemos conhecimento do monstrengo jurídico discricionário, através das ondas curtas de emissões radiofônicas do Peru, da Bolívia e da Venezuela. Paradoxalmente, contudo, ficamos alojados no “paraíso”. Tratava-se de maravilhosa propriedade rural através da qual fluía um Igarapé que foi aproveitado para a construção de uma piscina de água corrente. As acomodações eram principescas, se levasse em consideração o tugúrio que eu habitava em Fortaleza. Isto só foi possível graças aos laços de parentescos e de outros mais apertados de uma das nossas colegas com o chefe de gabinete do Secretário de Turismo do Estado do Amazonas. Mas as mordomias paravam por aí. Com muita economia, comendo “PF”, andando de ônibus – e muitas vezes em carrocerias de caminhões -, o meu dinheiro seria suficiente para, no máximo, uma semana. Como os latidos de “Sanson” sugeriam permanência para muito além do dia de Ano Novo, aquilo que a princípio era encarado com espírito esportivo e aventureiro, transformou-se num terrível pesadelo. Passei o meu primeiro Natal longe de casa. Mas a juventude detém, entre outras, uma característica que escasseia aos velhos: ousadia. Solicitamos e obtivemos uma audiência com o Reitor da Universidade local e – literalmente – arrancamos deste, as passagens até Belém do Pará num navio gaiola. A bordo aconteceu de tudo, inclusive prisões. Não do nosso grupo, mas de um arruaceiro que se excedera no rum. Para resumir, em Belém “extraímos a fórceps” de um laboratório farmacêutico, os bilhetes de uma companhia de aviação comercial . A “Nau dos Insensatos” aterrissou no aeroporto de Fortaleza às dezoito horas do dia 31 de Dezembro. Não dispunha de dinheiro nem para pagar o táxi. Peguei minha mala e o meu “P2”. Cheguei em casa por volta das dez da noite.

Em Dezembro de 2001 comemorávamos o nosso trigésimo primeiro aniversário de formatura na fazenda de um colega. Havia pessoas que não via desde o dia da colação de grau. Entre estas estavam duas colegas que haviam sido, além de muito amigas, companheiras daquela aventura. Rememoramos quase tudo. A minha memória singular insistia em me escancarar o pretérito e eu via tudo como se tivesse acontecido há poucas horas. Contudo, as marcas que os anos imprimiram na face das minhas colegas gargalhavam de mim, com sarcasmo, a cada instante. Era uma estranha mistura desordenada de passado e de presente. Parecia que um cineasta surrealista ou maluco insistia em me exibir simultaneamente cenas atuais de permeio com as antigas, em “flash back”. Passei, então, a chorar com saudades de mim mesmo.

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"A literatura é uma das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz quando escrevo e penso que posso dar um pouco de felicidade aos leitores. E quando digo felicidade, não estou me referindo a uma felicidade beata: felicidade pode ser exaltação, amor, cólera..." 
(Julio Cortázar

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