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Raymundo Silveira A Patativa da Fortaleza
“O que pesa mais, um quilo de
chumbo ou um quilo de algodão?” Seu Zeca Moreira costumava indagar a
todo mundo. Como não tinha muito o que fazer vivia a aprontar
perguntas deste tipo, a contar piadas, a construir trovas e a
relatar as suas próprias histórias (ou estórias, para quem prefere
anglicismos). Gabava-se, inclusive, quando eventualmente engabelava
alguém. Tinha mais de setenta, todos o tratavam por Moreira e se
comportava como um adolescente, ou pelo menos assim deixava
transparecer. Era meu amigo, apesar da diferença de idade
cronológica, embora sua idade mental fosse semelhante à minha.
“Moreira, eu soube que tens muito feijão para vender, é verdade?”
“É!” “E que tal o produto, é bom mesmo?” “É semelhante a ovos”. O
freguês comprou tudo. Alguns dias depois: “Moreira, tu me enganaste.
Disseste que o feijão era bom. A mulher lá em casa diz que aquilo
não vale nada; que quanto mais cozinha, mais duro fica.” “Eu não lhe
enganei; eu não o enganei; só disse a verdade, ou seja, que o feijão
era semelhante a ovos!” Seu Moreira tocava gaita de beiço muito bem,
era ótimo violeiro e vidrado numa seresta e em cantigas de desafio.
Sua terceira esposa tinha menos de um terço da idade dele. Quando
eram noivos as serestas eram tantas que os vizinhos já se sentiam
incomodados. Sua nora – mulher do filho mais velho – chamou-o
delicadamente a atenção: “Seu Moreira, o senhor está caindo no
ridículo! Não há quem suporte seresta todos os dias!” “Todos os dias
não senhora, alto lá” “Desculpe, seu Moreira, como nora achei que
era meu dever alertá-lo” “Mas é mentiroso quem disse à senhora que
faço serestas todos os dias. Não nego que as faça, sim, mas todas as
noites!” De outra feita estava em plena paquera com a futura noiva e
esposa, na época uma mulher bem esbelta e charmosa. Um estranho
observando e achando aquilo muito curioso, tentou aproximação:
“Desculpe, o senhor se chama Moreira, não? E pelo que tenho
observado, parece adorar mulheres franzinas!”
“Todos me chamam Moreira Mas o meu nome é Miguel, Gosto de mulher franzina: Faz parte do meu batel; Não franzina tão profunda, Não tendo carne na bunda Que dê pra encher um pastel”. Lembro que certa noite entendeu de dar um “concerto”, como ele chamava os seus desafios a outros violeiros do lugar. Não apareceu nenhum competidor. Meu instinto moleque me levou a pedalar uma bicicleta percorrendo três quilômetros a fim de trazer o Chico da Maricota, outro violeiro, mas que tinha mais medo do seu Moreira do que o diabo da cruz. Bebi com ele meia garrafa de cachaça e, depois de muito insistir, levei-o comigo. Se Moreira já estava de viola afinada. Esperando!” “Te pegaram pra besta, Chico, pois sai desta: “Andei procurando um besta Um besta que fosse capaz, Como não acharam tal besta Me trouxeram este rapaz, Que nem serve pra ser besta, Pois já é besta demais!” O coitado do Chico da Maricota não falou (nem cantou) nada; saiu dali quase a chorar. De ódio e de humilhação. Numa outra ocasião chegou no vilarejo uma mulher cujo nome era Zefinha. E tinha fama de violeira! E das mais petulantes! “Quero ver se tem “home” nesta terra é agora” E pôs-se a desafiar o seu Moreira. Encontraram-se na feira. Era um Sábado pela manhã. Quando me aproximei já havia perdido parte daquele espetáculo, mas testemunhei o final. Dizia a Zefinha: “Sete vezes me casei Sete maridos possuí Mas inda hoje sou “virge” E moça ‘cuma’ nasci” Pensei comigo mesmo: “desta vez seu Moreira está perdido. Só quero vê-lo sair desta”. Mas o diabo do velho dedilhou um pouco a viola e soltou: “Zefinha esta tua história Para mim não justifica: Ou você não tem b....., Ou eles não tinham p...!”
"A literatura é uma das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz
quando escrevo e penso que posso dar um pouco de felicidade aos
leitores. E quando digo felicidade, não estou me referindo a uma
felicidade beata: felicidade pode ser exaltação, amor, cólera..." |