|
Raymundo Silveira
A Pensionista
Tinha
três netos – um deles começando a falar grosso -, várias baterias de
produtos cosméticos, meia dúzia de cicatrizes disfarçadas de cirurgias
plásticas, um amante de trinta e cinco anos e evitava falar em idade do
mesmo modo que se evita falar de corda em casa de enforcados. A melhor
amiga tinha quarenta e dois anos; com ela freqüentava sessões de
hidroginástica, cabeleireiros, festinhas de aniversário e outras
reuniões sociais. Fazia tratamento de reposição hormonal seqüenciada com
o qual as menstruações são normais, mas quando um médico recomendou
mudar para o esquema combinado – aquele que impede menstruar – saiu do
consultório muito ressentida e procurou imediatamente outro
ginecologista ao qual disse horrores acerca do anterior.
— Imagine, doutor,
que chegou a me sugerir o esquema combinado a fim de que eu não
menstruasse mais. O senhor me acha assim tão velha?
— Absolutamente,
não. Ser jovem ou velho é uma questão de como a gente se sente. Conheço
senhoras de sessenta anos ou mais que se comportam e levam uma vida de
quem tem entre trinta e cinco e quarenta, do mesmo modo como também
conheço mulheres mais ou menos jovens que parecem envelhecidas. O grau
de satisfação com o nosso corpo, a auto-estima, o modo como somos amados
ou desamados, enfim, o bem-estar físico, mental e social de uma pessoa
são os melhores indicativos da sua idade.
— Então por que aquele "cavalo batizado" veio me propor
reposição hormonal combinada? Será que ele me acha deprimida e doente a
ponto de me considerar assim tão idosa?
— Não se trata disso. Em medicina as variantes são múltiplas.
Não existe nenhum tratamento padronizado. É um velho chavão, mas nem por
isso deixa de ser verdade: cada caso é um caso. O tratamento que o
colega lhe recomendou, se por um lado evita que a senhora menstrue, por
outro, acarreta menos riscos para a sua saúde. Por outras palavras, o
tratamento seqüencial – aquele que faz menstruar – é mais recomendado
para mulheres que ainda não chegaram ao climatério, ou seja,
encontram-se naquele período em que está preste a atingir a menopausa,
mas esta ainda não ocorreu.
— Então o senhor também está me achando velha?
— Não senhora, pelo contrário. Para os anos que a senhora tem,
parece muito mais moça. Isto se deve a um dos efeitos do tratamento
hormonal a que a senhora vem se submetendo. Contudo, é meu dever lhe
avisar que na sua idade, os riscos de câncer são maiores com o esquema
que a senhora pretende continuar utilizando. Portanto, estou de acordo
com o meu colega.
"Não é possível. Não se encontra mais médico que preste nesta
terra. Todos só pensam em velhice, em doença, em morte. Os homens ainda
me olham como se eu tivesse vinte anos a menos. Não sinto nada
irregular. Pelo contrário, menstruo normalmente, meu peso está abaixo do
desejável, meus exames de sangue são todos normais. E o principal: na
cama sou uma ‘Mae West’."
"Caraca!" Este celular resolve tocar no meio deste trânsito
infernal. Tanto tempo que passei nos consultórios daquelas... Múmias.
Mas tenho de atender; pode ser o Valério pretendendo marcar encontro
para hoje à noite."
— Alô!
— Tudo bem. Ia pra casa.
— Quanto?
— Aqui e em casa estou sem dinheiro. Só tenho cartões e talões
de cheques. Mas hoje é dia de receber a pensão. Já estava disposta a
deixar pra ir só amanhã, mas posso passar agora mesmo no Banco.
— OK. Te vejo mais tarde.
— Outro.
— Diga seu guarda. Poderia falar um pouco mais alto, por
favor? Não sou surda, mas falando assim tão baixo não dá pra ninguém
escutar.
— Madame! Pessoas com mais de sessenta e cinco anos não
precisam pegar fila. Pode se dirigir a este outro guichê.
http://www.raymundosilveira.net/
http://raymundosilveira.zip.net/ |