Alto,
magro, pele muito branca, cabelo arruivado e uma espécie de sorriso forçado,
que mais parecia um esgar. Óculos de aro fino, com lentes claras e
redondas. Assim apareceu no primeiro dia de aulas da faculdade. Uma
personalidade singular. A princípio, só tinha
sobrenome, pois até mesmo o nome ele sonegava aos colegas. Chamava-se
Hunger. Era uma pessoa arredia, solitária, deslocada de qualquer uma
das rodinhas, que costumavam se formar entre companheiros de escola.
Durante todo o curso de Informática deve ter trocado meia dúzia
de palavras, se tanto, mas, ainda assim, sua voz me fascinava e me
enchia de curiosidade. Falava sussurrando, como um espião que
escondesse segredos de estado.
Nunca foi visto com um livro, lendo, ou pelo menos segurando. Nas
aulas parecia dormir o tempo inteiro. Numa posição tão insólita, que
era impossível definir: alguma coisa entre o sentado e o deitado.
Digamos que permanecia enrodilhado sobre o assento. Não fazia anotações,
de qualquer espécie. Sequer possuía um caderno ou um simples pedaço
de papel. E aquele sorriso indecifrável poderia ser interpretado
como manifestação de ironia, não fosse a sua exagerada
timidez. Passou a ser ignorado, quando concluíram que seria pura
perda de tempo interrogá-lo, ou tentar qualquer tipo de comunicação.
Inexplicavelmente, contrariando todas as expectativas, era o
primeiro da classe. Isto foi o principal motivo da minha atração por
ele. Tinha certeza de que aquela atitude era apenas a ponta
de um iceberg. Havia muito mistério mergulhado naquele oceano de
esquisitices.
De todas as estranhezas, a que mais causava indagação e comentários
era a discrepância entre sua magreza e uma voracidade assustadora.
Comia com pressa, com avidez, como se, do alimento, lhe viesse alguma
coisa mais que a saciedade. E, no entanto, nem bem terminava de se
alimentar, disparava rumo ao toalete. Na certa ia vomitar.
Esta era a única explicação plausível para aquele apetite descomunal
paradoxalmente associado àquela figura esquálida. Em síntese, era
evidente que sofria de bulemia. O pobre nunca estava em paz. Essa
compulsão fazia com que delegasse convites e se escondesse pelos
cantos, humilhado. Eu cada vez mais me interessava e
desejava entender as razões de seu sofrimento. Mas ele era impenetrável
e arredio.
Depois de formado, evitava restaurantes e lanchonetes.
Quando raramente o fazia, por absoluta imposição profissional, sua
correria gerava curiosidade. Se estivesse com alguém,
por constrangimento não disparava para o banheiro. Mas jamais
se levantava junto com a pessoa. “Vou
ficar esperando um amigo com quem marquei um encontro”. “Estou
adorando estas músicas”. “Sou fã deste conjunto e pretendo
permanecer mais um pouco”, disfarçava. E ficava fazendo hora, até
que o último cliente saísse. Depois, chamava um garçom, pedia
que um táxi viesse apanhá-lo na calçada do restaurante e saía em
desabalada correria. Aos poucos, foi deixando de comer fora, até quase
se isolar completamente. Pedia seus alimentos por telefone, fazia
supermercado pela Internet. Nunca saía. Dispensava qualquer
trabalho, que não pudesse fazer em casa. Nem sei como se permitia
trocar e-mails comigo, e atender algumas de minhas chamadas. Acho que eu
era seu único vinculo com a humanidade.
Eu
não me conformava com essa situação. Sempre fui uma mulher decidida e
pragmática. Por isso resolvi tirar tudo isso a limpo. Numa
noite de Natal soube que ele estaria, como sempre, sozinho e decidi ir
visitá-lo. Apertei várias vezes a campainha e bati na porta.
Contou-me mais tarde, que quando me viu pelo olho mágico, entrou num
terrível conflito. “Abra! Sou sua amiga. Só quero ajudá-lo”. E
ele abriu. Conversamos durante várias horas. Com muito tato, levei-o,
aos poucos, a contar toda a verdade.
Soube que desde criança era tímido. Embora esfomeado, não tinha
coragem de pedir comida. Se
não lembrassem dele passava fome, mesmo com todo aquele descomunal
apetite. Às vezes roubava algum pedaço de bolo ou fruta, ou o que
houvesse mais ao alcance da mão. Isso lhe dava arrepios de excitação,
e o início de uma culpa, que carregaria a vida toda.
Culpa sem propósito, talvez em virtude de se achar feio e sem
graça. Lembrava-se também da cozinheira, com aquela generosa bunda,
fazendo inesquecíveis pastéis de queijo. Ou ainda, de como,
eventualmente, a linda professorinha ternamente lhe oferecia um pedaço
de goiabada, com aquelas mãos macias, que desenhavam arabescos no
quadro negro, mesmo antes de ele aprender o significado deles.
Pouco mais velho, a prima judiava dele comendo pipocas, como se beijasse
cada pedacinho do milho estourado. Então, quando sua sexualidade
deveria se definir, desenvolveu uma alteração mórbida de
comportamento. Um caso raro, já pesquisado inutilmente por médicos
e psicólogos. Não sentia necessidade de conhecer mulher.Tanto, que se
mantinha virgem. Em vez disso, padecia de um fenômeno
bizarro e prodigioso: o prazer de comer vinha junto com uma
intensa, incontrolável, excitação sexual. Por incrível
que pareça, ejaculava abundantemente a cada vez que se alimentava. Não
dava para segurar. Era mais forte que ele. Explodia em generosos
orgasmos, que inundavam suas roupas onde quer que ele estivesse.
Essa confissão sofrida, essa entrega da sua fragilidade, quebrou
as barreiras entre nós. No final do relato, ambos choramos
copiosamente e nos abraçamos. Eu tinha de ajudá-lo. Pedi que
confiasse em mim . Que tentasse ficar sentado em sua poltrona,
sem pensar em nada. E me deixasse tomar umas providências. E fui
explorar a casa, remexer em tudo, conhecer seus livros, seus
discos preferidos, reparei nos móveis, na decoração, visitei o
banheiro, a cozinha, a sortida despensa...Inventei. Cerca de três
quartos de hora mais tarde chamei-o para o quarto.
Encontrou-me deitada, completamente despida. No criado mudo, um
champanhe para ajudar o clima. A cama, forrada de frescas folhas de
alface. Meu corpo completamente lambuzado de maionese, geléias e
caramelos. A boca entregava um figo em calda . Pequenas
uvas rodeavam o bico dos seios. No umbigo um requintado
patê de foie-gras. Minhas pernas para cima e entreabertas. Uma apetitosa
cereja enfeitava-me a vagina. E uma azeitona enorme adornava o meu ânus
que, por sua vez, se encontrava recheado de farofa...Eu era própria
imagem de uma perua. Só que uma perua à Califórnia.
Uma perua de Natal.
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