Raimundo Silveira 

A Perua De Natal

Alto, magro, pele muito branca, cabelo arruivado e uma espécie de sorriso forçado, que mais parecia um esgar. Óculos de aro fino, com lentes claras e redondas. Assim apareceu no primeiro dia de aulas da faculdade. Uma personalidade  singular. A princípio, só tinha  sobrenome, pois até mesmo o nome ele sonegava aos colegas. Chamava-se Hunger. Era uma pessoa arredia, solitária, deslocada de qualquer uma das rodinhas, que costumavam se formar entre companheiros de escola. Durante todo o curso de Informática deve ter trocado  meia dúzia de palavras, se tanto, mas, ainda assim, sua voz  me fascinava e me enchia de curiosidade. Falava  sussurrando, como um espião que escondesse segredos de estado.

  Nunca foi visto com um livro, lendo, ou pelo menos segurando. Nas aulas parecia dormir o tempo inteiro. Numa posição tão insólita, que era impossível definir: alguma coisa entre o sentado e o deitado. Digamos que permanecia enrodilhado sobre o assento. Não fazia anotações, de qualquer espécie. Sequer possuía um caderno ou um simples pedaço de papel. E aquele  sorriso indecifrável poderia ser interpretado como manifestação de ironia,  não  fosse a sua exagerada timidez. Passou a ser ignorado, quando concluíram que seria pura perda de tempo interrogá-lo, ou tentar qualquer tipo de comunicação. Inexplicavelmente, contrariando todas as expectativas, era o primeiro da classe. Isto foi o principal motivo da minha atração por ele. Tinha certeza de que aquela atitude  era apenas a ponta de um iceberg. Havia muito mistério mergulhado naquele oceano de esquisitices.

    De todas as estranhezas, a que mais causava indagação e comentários era a discrepância entre sua magreza e uma voracidade assustadora. Comia com pressa, com avidez, como se, do alimento, lhe viesse alguma coisa mais que a saciedade.  E, no entanto, nem bem terminava de se alimentar, disparava rumo ao toalete. Na certa ia vomitar. Esta era a única explicação plausível para aquele apetite descomunal paradoxalmente associado àquela figura esquálida. Em síntese,  era evidente  que sofria de bulemia. O pobre nunca estava em paz. Essa compulsão  fazia com que delegasse convites e se escondesse pelos cantos,   humilhado. Eu cada vez mais me interessava e desejava entender as razões de seu sofrimento. Mas ele era impenetrável e arredio.

  Depois de  formado,  evitava restaurantes e lanchonetes. Quando raramente o fazia, por absoluta imposição profissional, sua correria  gerava curiosidade. Se  estivesse com alguém,  por constrangimento não disparava para o banheiro. Mas jamais se levantava junto com a pessoa.  “Vou ficar esperando um amigo com quem marquei um encontro”. “Estou adorando estas músicas”. “Sou fã deste conjunto e pretendo permanecer mais um pouco”, disfarçava. E ficava fazendo hora, até que o último cliente saísse. Depois,  chamava um garçom, pedia que um táxi viesse apanhá-lo na calçada do restaurante e saía em desabalada correria. Aos poucos, foi deixando de comer fora, até quase se isolar completamente. Pedia seus alimentos por telefone, fazia supermercado pela Internet.  Nunca saía. Dispensava qualquer trabalho, que não pudesse fazer em casa. Nem sei como se permitia trocar e-mails comigo, e atender algumas de minhas chamadas. Acho que eu era seu único vinculo com a humanidade.

Eu não me conformava com essa situação. Sempre fui uma mulher decidida e pragmática. Por isso resolvi tirar tudo isso a limpo. Numa noite de Natal soube que ele estaria, como sempre, sozinho e decidi ir visitá-lo. Apertei várias vezes a campainha e bati na  porta. Contou-me mais tarde, que quando me viu pelo olho mágico, entrou num terrível conflito. “Abra! Sou sua amiga. Só quero ajudá-lo”. E ele abriu. Conversamos durante várias horas. Com muito tato, levei-o, aos poucos, a  contar toda a verdade.

  Soube que desde criança era tímido. Embora esfomeado, não tinha coragem de pedir comida.  Se não lembrassem dele passava fome, mesmo com todo aquele descomunal apetite. Às vezes roubava algum pedaço de bolo ou fruta, ou o que houvesse mais ao alcance da mão. Isso lhe dava arrepios de excitação, e o início de uma culpa, que carregaria a vida toda.  Culpa sem propósito, talvez em virtude de se achar feio e sem graça. Lembrava-se também da cozinheira, com aquela generosa bunda, fazendo inesquecíveis pastéis de queijo. Ou ainda, de como, eventualmente, a linda professorinha ternamente lhe oferecia um pedaço de goiabada, com aquelas mãos macias, que desenhavam arabescos no quadro negro, mesmo antes de ele aprender o significado deles.

  Pouco mais velho, a prima judiava dele comendo pipocas, como se beijasse cada pedacinho do milho estourado. Então, quando sua sexualidade deveria se definir, desenvolveu  uma alteração mórbida de comportamento.  Um caso raro, já pesquisado inutilmente por médicos e psicólogos. Não sentia necessidade de conhecer mulher.Tanto, que se mantinha virgem. Em vez disso,   padecia  de um  fenômeno bizarro e  prodigioso: o prazer de comer vinha junto com uma intensa, incontrolável,   excitação sexual. Por incrível que pareça, ejaculava abundantemente a cada vez que se alimentava. Não dava para segurar. Era mais forte que ele. Explodia em generosos orgasmos, que inundavam suas roupas onde quer que ele estivesse.

   Essa confissão sofrida, essa entrega da sua fragilidade, quebrou as barreiras entre nós.  No final do relato, ambos choramos copiosamente e nos abraçamos. Eu tinha de ajudá-lo. Pedi que confiasse em mim . Que tentasse ficar sentado em sua poltrona, sem pensar em nada.  E me deixasse tomar umas providências. E fui explorar a casa, remexer em tudo,  conhecer seus livros, seus discos preferidos, reparei nos móveis, na decoração,  visitei o banheiro, a cozinha, a sortida despensa...Inventei. Cerca de três quartos de hora mais tarde chamei-o para o quarto.

  Encontrou-me deitada, completamente despida. No criado mudo, um champanhe para ajudar o clima. A cama, forrada de frescas folhas de alface. Meu corpo completamente lambuzado de maionese, geléias e caramelos. A boca entregava  um figo em calda . Pequenas uvas rodeavam o bico dos seios. No umbigo um requintado patê de foie-gras. Minhas pernas para cima e entreabertas. Uma apetitosa cereja enfeitava-me a vagina. E uma azeitona enorme adornava o meu ânus que, por sua vez, se encontrava recheado de farofa...Eu era própria imagem de uma perua. Só que  uma perua à Califórnia. Uma perua de Natal.

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