A Semana

Tarde de sexta, cedo de sábado. Sabia onde estava, mas não quis acreditar. Ao lado direito, deitado em seu leito, outro paciente perguntou se eu tinha sido internado por causa de bebida, como era o caso dele. Não lembro. Mostrou a caneca de leite e o meio pão sem manteiga. Não vai comer? Não estava habituado à frugalidade daquele café da manhã e estranhei a cobiça no seu olhar. Sentia, porém, uma fome tão intensa que devorei tudo, quase sem mastigar. A engolição fez-me sentir um pouco melhor. O outro já tinha comido e continuava morto de fome... Resultado da insulina da véspera, com certeza. Passou a descrever com minúcias a história dos seus internamentos no final de cada bebedeira, geralmente sob efeito de drogas e, às vezes, à força bruta. Bastava ouvir aquilo para me angustiar cada vez mais. Também continuava sentindo muita fome apesar do desjejum. Estava certo de não ter tomado insulina. Meia hora de conversa deprimente. Veio um enfermeiro dizer que logo mais, às oito, viria um interno tomar a minha história clínica. Eu nunca tinha sido internado. Nem em hospitais convencionais. Os psiquiátricos, só conhecia das aulas práticas, as quais duravam de trinta a quarenta minutos. Levantei-me, e como estava com a mesma roupa de ontem, mal lavei a boca e os olhos. Saí. Cuido que só me deixaram passar por estar vestido de branco. Meu gabinete ficava no pavimento superior. Ao entrar, a secretária me cumprimentou como se não me conhecesse. Eu também não a conhecia. Devia ter sido contratada na véspera. Sentei-me à escrivaninha e pedi todos os documentos para assinar. Às oito e quarenta e cinco tinha audiência marcada com o Secretário de Saúde. Ia ter de sair. Ela estava muito nervosa e ao me trazer os papéis tropeçou na mesinha da máquina de escrever – novinha em folha. Jamais seriam as mesmas. Ambas: a máquina de escrever e a secretária. O Secretário de Saúde telefonou adiando a audiência e me convidou para uma feijoada no sítio dele. Só então pude relaxar e ajudar a relaxar a secretária, mentindo que não foi nada. Inverti mentalmente os papéis (não aqueles que ia assinar: os papéis de diretor e secretária) e duvidei muito de que a atitude dela teria sido igual à minha. O domingo amanheceu chuvoso, então fui à praia. (Adoro praias, mas só quando chove). Conheci uma mulher. Sozinha. Combinamos namorar até o próximo domingo. A despedida seria naquele mesmo horário; no mesmo local. Às dez pras três, um vendedor de gatos recém-nascidos. Ela insistia para comprarmos um. Fiz-lhe ver o descabimento. Só iríamos namorar durante oito dias. Quem ficaria com o animal? Estivemos até o pôr-do-sol. À noite, cinema. Um excelente final de domingo. Raridade, pelo menos no que me dizia respeito. Era madrugada quando soube da ocupação das colinas de Golan pelo exército israelense. Na segunda-feira eu estava lá. Lutei pelos dois lados. Não tinha estado numa guerra antes. Valeria a pena contar. Mas não cabem aqui, os horrores. Assistam a um filme de guerra. Em nenhuma outra situação o dito da imagem valer mil palavras se aplica tão bem. Desde quando cheguei não tive mais notícias da namorada do domingo. Na manhã seguinte, aconteceu outra. Foi um dos dias menos infelizes, se comparado com a segunda-feira. Ficamos juntos durante as vinte e quatro horas. Amamos. Lemos. Viajamos. Escrevemos. A memória da catástrofe da guerra parecia banida para sempre. Compramos um gatinho. Aliás, três. Ainda nesta terça-feira sucederam outras surpresas agradáveis. A universidade de Uppsala, de Estocolmo, me concedeu o título de Professor Honoris Causa. Dois hospitais concorrentes me propuseram o dobro do salário. Poderia acumular os três cargos, se preferisse. Às nove da manhã seguinte, o interno veio colher a minha história. Cuidei não ficar bem fazê-lo no meu gabinete e implorei para sairmos. Como diretor, poderia me desmoralizar Discordou. Tinha de ser ali mesmo. Começou a juntar gente na entrada da sala. Decidiu aceitar, desde que eu concordasse em permanecer na enfermaria, pelo menos até a manhã seguinte. Disse à secretária para aquele assunto não vazar, ou seria demitida por justa causa. Além do interno, somente ela tinha visto e ouvido tudo. Constrangia-me tomar refeições junto com os outros internos. Todos me conheciam. Vestíamos um uniforme ordinário. Sentávamos, lado a lado, em bancos toscos de madeira, a uma mesa cujo tampo era uma longa prancha sustentada por vários cavaletes. Pratos de ágate em mau estado. Comíamos, de colher, uma comida de péssima qualidade. Proibido talheres. Excetuando os dementes, ninguém tirava os olhos de mim. À tarde, a namorada e um grupo de amigas. Estava disposto a não receber visitas. Não pude evitar: entraram na enfermaria sem eu esperar. Conversaram longamente entre si e às vezes riam. Não lembro se falei. Quando saíram, descobri que a calça do meu uniforme estava descosturada. Meus genitais completamente expostos. Sem cigarros e sem dinheiro. Fumei meia dúzia de baganas. Fui dormir cedo. Amanhã o lançamento do meu livro. Quinhentas e sessenta e uma páginas impressas em letrinhas miúdas: “Transtornos Bipolares Em Indivíduos Sadios”. Levantei-me cedo. Às sete, informaram, da recepção: uma Mercedes me esperava à entrada da clínica. Mandei me apanhar duas quadras adiante. Fui andando até lá. A noite de autógrafo seria no auditório da Faculdade. Fui advertido: apesar de se tratar de livro técnico, a freqüência seria inusitada. Conveniente autografar previamente alguns exemplares. Viriam professores de outros estados. Alguns, do exterior. Uma editora norte-americana de livros médicos manifestara interesse em comprar os direitos para a tradução em inglês. O escritório ficava num prédio luxuoso, de nome estrangeiro, em pleno centro comercial. Ocupava todo um pavimento. Minha sala era ampla, revestida de lambris e acarpetada. Diversos exemplares do meu livro sobre a escrivaninha. Todos encadernados em couro com letreiros dourados na capa principal e nas lombadas. Examinei e folheei um deles. Autografei alguns e mandei o motorista seguir para a montanha. A minha “Tormes” não era tão vasta quanto a do “Jacinto”. Mas, desempenhava função idêntica. A casa principal à margem de uma vereda. Desvantagem para alguns. Para mim, em verdade, uma vantagem. Tornava mais efetivo o contacto com a natureza. Vivenda confortável. À frente, nada de excepcional. Uma dessas fachadas de estilo indefinido, não possuindo qualquer recuo, jardim, balcão, alpendre ou sacada. Depois de entrar, podia-se respirar ar puro soprado através da ampla varanda situada na parte posterior. Panorama espetacular. Mangueirais, abacateiros, jaqueiras, cajueiros, ateiras, bananais... O dia inteiro me embalando numa rede, lendo o meu livro e me preparando para a noite de autógrafos. Que se prolongou até a manhã de sexta. Tenho duas notícias para o senhor: uma boa e outra ruim. A boa: um convite de Harvard, para proferir palestra na convenção da Sociedade Mundial de Psiquiatria. Sem ônus. Dez mil dólares em ajuda de custo. Aqui estão os bilhetes. Vôo pela American Airlines, em primeira classe. Saída ao meio-dia. A ruim: quatro funcionários esperam lá fora para levá-lo ao pavilhão dos excitados. Se resistir, usarão camisa-de-força. Tarde de sexta, cedo de sábado. Sabia onde estava, mas não quis acreditar...

 

06/04/2006

http://www.raymundosilveira.net/

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