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Raymundo Silveira
A Valsa
Mais de uma hora à espera. À frente, uma parede. O monstrengo
estacionado atrás. Dentro, uma velha gravemente enferma defecando
deitada. O motorista se recusa a retirá-lo. Você pensa em agredir,
apanhar as chaves e dar marcha à ré. Mas teme as conseqüências: e se a
velha morrer? O automóvel não tem como sair. Não há outro transporte.
Mesmo sendo o último ato da minha vida, mato este cachorro. Misturação
de ódio, frustração e desesperação. Explosiva salada. Você é médico e
saiu do baile dos quinze anos da filha única, para vir assistir um parto
salta-caroço. Voltaria para a valsa, à meia-noite. O hospital – de porte
médio - fica na zona rural. Não passam automóveis. Não passam carroças.
Não passam animais. Não passa nada. Não há passado, nem futuro. Só
agoridade. Vontade de voar. Penso em ir a pé. O clube é distante. Mesmo
correndo, não haveria como chegar atempado. Os telefones não fazem
chamadas; só aceitam. Subo ao primeiro pavimento. Deve haver uma saída;
tem de haver. Cascatas de suor despencam pelo muro abstrato de concreto
do meu corpo. Doem as batatas de ferro das minhas pernas. Pensa na
filha, desde quando nasceu. O começo de uma época menos desinfeliz.
Aquele baile, especialmente aquela valsa, seria o apogeu. Telefone para
o senhor. Não há como sair. Se não estiver aí à meia-noite, mate todo
mundo, mas postergue a valsa. Chame ela. Você tem de vir, pai. Há mais
de um ano sonho com isso... Hei, peraí! Desligam. Desligo também o
controle remoto do meu agitado coração... Não lembrei de pedir para
mandarem um táxi. Tenho de voltar no tempo. Continuar na ligação. Como,
não é possível? Caminho sem destino pelas enfermarias. Subo e desço
escadarias. Se ficasse parado, a sensação de impotência me implodiria.
Caminhando, tem-se a impressão de tudo se resolver espontaneamente.
Entro na geringonça.
Como
supunha, não há chave na ignição. Procuro o motorista. Evadiu-se.
Evaporou. Volto para a cabine e ponho a alavanca em ponto morto. Tento
empurrar sozinho. Há um aclive. A sucata nem se move. O marido reclama,
a neta grita, a velha geme. Volta a pensar na filha. A infância, um
misto de alegrias e tristuras. O primeiro papá. Os aniversários; os
parabéns pra você; os natais; papai-noel; a mãozinha acenando nas horas
de ir para o trabalho. As diarréias, desidratações; as crises de
garganta, as febres... a convulsão. Penso nos pais das outras
debutantes. Gozando a minha aflição. Aquela malícia involuntária e quase
inconsciente quando se assiste à dor ou ao ridículo de outrem. Conversam
baixinho, apenas entre si. Não têm coragem de admitir a felicidade
maliciosa. Não acreditam ser possível acontecer, porque lhes repugna a
consciência. Ponho-me nas suas peles e tento me imaginar em situação
idêntica. Nunca senti qualquer prazer com o sofrimento dos semelhantes.
Não sou melhor. Certamente, há outros defeitos do caráter que eu tenho e
eles não. Mas vesti uma couraça contra opiniões e apreciações de
terceiros. Assim como não me rejubilo diante do infortúnio alheio,
também não dou a mínima para os seus sentimentos a meu respeito. Passa
da meia-noite. Sente e vê a impaciência e a intolerância dos pais das
moças. São legiões de fantasmas caminhando no seu encalço a zombar e a
injuriar: Quem mandou sair? Não podemos esperar o senhor ganhar dinheiro
a essa hora da madrugada e cometer o abuso e o absurdo de nos fazer
esperar. Essa idéia obceca e é mais dolorosa do que a própria angústia
do impasse. A ansiedade da impotência. Escuta vozes: Pai, não vou pedir
para atrasar ainda mais. Há pessoas para substituí-lo. Que valsam muito
bem. Que seriam melhores pais e a quem preferiria a você, ainda que
estivesse aqui. Por favor, mande esperar mais um pouco. Uma hora e
trinta, pai, não dá mesmo... Primeiro dia de aula. Primeiras provas.
Primeiro boletim: Matemática, sete. Português, sete. História, sete.
Geografia, sete... Em cada nota, que depois volta, o sete da infância
que não volta mais. Saio do pátio de estacionamento e caminho à toa no
negrume da noite. Logo, cai uma tempestade. Meu traje a rigor encharcado
de água; e de lágrimas, a minha alma. Vestida de branco, caminhando sob
o aguaceiro, mas sem se molhar, diviso a minha filha vindo ao meu
encontro. Corro para ela e abraço o vazio. Todavia, está ao meu lado.
Veja, pai, a minha roupa como está linda. Meus amigos se cotizaram e me
deram. Veja a grinalda de brilhantes, por mim tão desejada, e você não
quis pagar: Presente do pai do meu namorado. Veja os sapatos de
Cinderela, doados por uma amiga. Veja a filha que não tem mais, pois o
meu último desejo era dançar a valsa dos quinze anos, mas você preferiu
o seu trabalho. E desaparece. As trovoadas são fantasmagorias urrando a
minha dor. Apenas o lampejo dos raios interrompe as trevas, por alguns
segundos. O ar enregelado se move transformado num vento frio soprando e
assobiando sem cessar. Volto para o hospital. Imaginou uma saída
desesperada: tentar passar por cima do veículo de trás custasse o que
custasse. Quem sabe, voando. Essa absurdidade se torna compulsiva. Entra
no próprio automóvel, liga a ignição, acelerando ao máximo o motor e
engrenando a ré. Solta a embreagem. Em vez de voar, o automóvel colide
com o detrás. Gritos. Um esqueleto, recoberto de carnes podres, sai do
veículo e parte na sua direção com uma ceifadeira ao ombro. Vai para o
banco traseiro e se encolhe. Coluna vertebral recurvada; queixo
encostado ao tórax; coxas e pernas fletidas sobre o tronco; braços
abraçando braços. Alfa estreitando ômega...
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"A literatura é uma
das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz quando escrevo e penso
que posso dar um pouco de felicidade aos leitores".
(Julio Cortázar)
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