|
Raymundo Silveira
Abantesma
Não me conhece. Eu o conheço através dos seus textos. Preciso divulgar
alguns acontecimentos para me libertar de uma obsessão. Há duas razões
para que eu próprio me abstenha de narrá-los. Falta-me coragem. Podia
usar um pseudônimo. Seria inútil. Tinha de me identificar para alguém,
pois não creio na eficácia de confissões anônimas. Também não estou
certo se o verbo identificar é adequado. O outro motivo é mais
importante. Decisivo, mesmo. O senhor e os leitores o conhecerão no
devido tempo. Mais precisamente, no final da história. Não imponho
condições. Utilize os dados que aí estão e redija o texto da maneira que
bem entender. Confio na sua fidelidade ao meu pensamento. Só peço que
jamais revele o meu nome a quem quer que seja. Se aceitar, essa história
será sua. Como se tivesse saído da sua imaginação. Peço desculpas, mas
duvido que fosse capaz. "Nada é mais fantástico e extraordinário do que
a vida real". Cedo-lhe também quaisquer direitos autorais que porventura
venha a gerar.
... quando num dia qualquer dum certo mês de um incerto ano,
tomei um rumo para tomar um rum, na taberna de uma ruidosa rua. Só um.
Um rum não inebria. O propósito era simular... Escritores bêbados estão
a meio caminho do sucesso. Naquela data haveria um evento importante,
onde eu com pareceria desimportante. Mas haveria muita gente mais
desimportante do que eu. Tornando-se importante. Queria me destacar pela
embriaguez, sem estar embriagado, porque se supusessem que estava, seria
destaque de escola-de-samba-enredo. Conheço gente famosa que não seria
tão famosa assim se acaso não se embriagasse. Se arriscasse a minha vida
para salvar a de outra pessoa, não me sobressairia tanto. Minha alma se
nutria desse devaneio. Eu precisava criar poder para poder sobreviver.
Não materialmente: era rico. Mas para satisfazer uma necessidade tão
imperiosa quanto respirar. Asmático da escrita, escrever era o meu
viciado ar. O vazio das idéias me esmagava. Então, conheci o êxtase ao
ser entronizado no templo da fantasia. Ecstasiado de sonhos, encontrei a
própria musa. Quando saí, não tinha mais casa: morava escrevendo. Ela
tapava, com inspiração, cada buraco negro da minha mente. Choviam
idéias. Às vezes caíam sob a forma de tempestades. Ou escorriam como
água cristalina de cascata. Mais tarde sumia naquela mesma rumorosa rua
ruim onde eu tomara um rumo para tomar um rum. Depois, retornava. Eram
34 horas do meu meio dia. Durante um ano me alimentei daquela que não
foi. Não tinha nome. Nunca se materializou. Alucinação de névoa,
movia-se tangida pela brisa. Pairava. Às vezes, voava. Não falava, mas
eu escutava tudo o que dizia. Amanhecia amanhando manhãs. Meus olhos
arregalados, inchados de futuro e de Vitórias-Régias. Ignorava quem era.
Talvez, a alma penada de alguma princesa nórdica, ou uma nuvem errante
envultada em sortilégio. Sumindo e ressurgindo, fluindo e refluindo,
como as marés de um oceano grávido de mistérios. Não escrevia: ejaculava
palavras. E a história era esta mesma que está sendo narrada aqui e
agora... Ao terminar, me pediu para ler. Revisou. De repente,
desapareceu de vez. Toda a esterilidade do mundo desabou sobre mim. Era
incapaz de escrever uma frase. Dois anos mais tarde ressurgiu do nada.
Não mudara muito. Apenas precisava fazer um lifting... Oulipo
aspiração... Não envelhecera. Envilecera. Que as trevas, onde acontecem
histórias de terror. Tornara-se mais fluida... Imaterial. E desta vez,
apresentou a conta. Paguei caro com a moeda vil da submissão. Continuei
comprando e pagando adiantado. Foi o começo do fim. Fantasmagoria
mercenária, cobrava alto pelo despacho da macabra necro-mercancia.
Incoerente abantesma a esmo, vagando no espaço. Obsedante e fugidia.
Esbanjava séculos de juventude. Respirava eternidade viva e bebia sangue
de natureza morta. Antes de começar a escrever, eu costumava rezar. Não
suportava assistir. Retirava-se, com ciúmes de Deus. Fingia se comportar
com indiferença. Ambigüidade dos dissimulados. Atraía, enganava e sumia.
Para mais tarde reaparecer. Assombração em formato de mulher. Pouco a
pouco, o granizo enxugou a neve. E o fogo queimou o fogo. Mas não a
extinguiram. Mais fácil extinguir a água. Solidificar a atmosfera. Os
mares virarem areia. Os campos, azuis de primaveras, viam-na passar,
correndo. Maratona de terror por caminhos de terra. Do pescoço pra
baixo, uma deusa grega, vestida de não-vestidos. Tampouco também. Não
tinha a cabeça no lugar. O corpo decapitado conduzia-a pendurada pelos
cabelos. Aproximou-se. Envolveu-me. Consubstanciou-me. Fez-me fantoche.
Pela primeira vez havia recheio de realidade em forma de horror. Acabara
a época da inocência. Agora. Trampolim para o desconhecido. Sanguessuga.
Fagulha de atritos metálicos esvoaçando num paiol. Pólvora em polvorosa.
Pavorosa. Incêndio. Explosão... Restou rescaldo de restinga... Arroio de
lágrimas... Usucapião de ninguém... Acabei descobrindo tudo: não era
para mim que ela aparecia. Era para um velho. Estava confuso... O velho
era eu... Impossível. Aos trinta e seis ninguém envelhece; ninguém vai
morrer. Parecia sonhar. Ou sonhar que sonhava. Se assim fosse, ela era o
meu sonho. Logo, não existia. Do mesmo modo, eu também poderia nunca ter
existido: seria apenas o sonho daquele velho...
http://www.raymundosilveira.net/
"A
literatura é uma das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz
quando escrevo e penso que posso dar um pouco de felicidade aos
leitores".
(Julio Cortázar)
|