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Raymundo Silveira Afinidade Ele
falava sem olhar pro lado, atento ao volante: -
Como dizia, Al, às vezes penso que você não me entende. Em
outras, estou certo de que absorve
o meu pensamento. E interpreta melhor do que eu. Parece coisa meio
esquizofrênica. Sabemos
que
não. É
uma hesitação que não posso evitar. Uma espécie de hiato de
raciocínio. Apenas quando usa este seu potencial de persuasão, que para
mim é irresistível, me deixo convencer... - É...
tento me esforçar pra isso. Mas, confesso que fico preocupado. Essas
suas mudanças bruscas de opinião. Este sobe e desce. Esta bipolaridade,
às vezes me assustam. -
Mas eu já disse que não aceito isso de falta de ética! Estou convencido
de que jamais deixarei de me guiar por estes princípios. Nasci de uma família
humilde, mas meus pais sempre me educaram com este objetivo. Nunca vou me
deixar seduzir pelas coisas materiais em troca das minhas convicções. -
Olha, que mulher gostosa... -
Peraí, cara. Presta atenção ao papo que é sério. Como ia
dizendo: na minha idade, mudar é difícil. -
Deixe de ser tão radical. O mundo agora é outro. Os valores mudam. O
interesse coletivo, muda. O bem comum... A moral... sofreram
transformações. -
Preciso parar naquela farmácia pra comprar pastilhas de hortelã. Tenho
um encontro hoje à noite e... Porra, ia atropelando aquele cara. O fdp
nem olha se vem carro... -
Cuidado! O trânsito aqui é uma loucura. -
Tem cinco mangos aí? O cara não tem troco pra cinqüenta... -
Como estava dizendo: é preciso ser mais flexível. Olhar
a vida a partir de um prisma diverso. De outro ponto de vista filosófico,
entende? -
Sei não. Já pensei até em fazer análise e... -
Olha a faixa de pedestres! Agora tá sem jeito... -
Lá vem um guarda. -
Com licença! Não viu a faixa? -
Vi não seu guarda. Me desculpe. Minha mãe tá passando muito mal no
hospital. Eu estou meio nervoso e ... - Também
com essa discussão ferrada . Não tem como prestar atenção.
Eles proíbem celular, mas não proíbem discussões ao vivo. Pra não
dizer que sou radical, desta vez eu vou fingir que não vi. Mas arruma aí
pelo menos vinte paus pro guarda comprar a carne do almoço do domingo... -
Taqui uma “onça”. Tá
bom? - Tá bom demais.
Mas cuidado! Deixe pra conversar quando chegar. -
Valeu chefia! E
o "chefia” foi embora escondendo a risada e balançando a cabeça. -
Quando eu falo que estes guardas daqui até que não são caros... -
Esquece o guarda. O que acha de eu fazer análise? -
Se é a única maneira de mudar este pensamento retrógrado, não
vejo como evitar. -
Vou fazer mesmo... Ainda bem que o guarda foi na onda da “mãe
doente”. Se não, era multa na certa... -
Que mãe doente, que nada. A “mãe doente” foi os cinqüentinhas que
ele levou. -
Quando chegar na Praça Zé de Alencar paramos. Temos de comprar os
ingressos. -
Vixe, cara. Ali, nem pra moto tem vaga... -
Eu fico no volante. Se aparecer outro guarda eu falo que é só um
pouquinho... -
Não adianta . Sabe muito bem: onde quer que eu vá, você
inventa de me seguir. Não agüenta desgrudar sequer um minuto. -
Pois dessa vez não vou nem que me implore! -
Faça como quiser! Estacionou,
pegou a bolsa que estava no banco ao lado e saiu,
trancando muito bem o carro. Afinal, deixar ali, vazio, era perigoso. http://www.raymundosilveira.net/ "A literatura é uma das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz quando escrevo e penso que posso dar um pouco de felicidade aos leitores". (Julio Cortázar) |