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Angústia Ia dizendo que é um sentimento. Não é! É um estado permanente de medo, desamparo, amargura, tristeza, desesperança e solidão. Parece que a Terra deixou de existir como lugar habitável. Não existe afetividade, motivação, alento, ilusão, vontade, desejo nem qualquer outra emoção reconfortante. Cada ato é um sobressalto; cada passo, uma sobrecarga; cada pensamento, uma aflição. Palavras como amor segurança, paz e esperança não fazem sentido algum. Parece que só conseguirei escrever isto. Uma nuvem escura turva-me as idéias.
Levanto-me e me estendo no leito. Tento ler. Mas cada palavra é um açoite;
cada frase, uma descarga de algo no meu sangue que me resfria as palmas
das mãos e a planta dos pés. Atiro o papel ao chão e tento concentrar
meu pensamento no nada. Estranho! Como é que se pode concentrar o
pensamento em nada? E mesmo assim eu tento. Como não encontrei um nome
para o que estou sentindo, vou chamá-lo simplesmente <i>aquilo</i>. O que faço são tentativas desesperadas a fim de
evitar <i>aquilo</i>.
Voltei para este computador e insisto em escrever. Não há nenhum raciocínio
coerente no que pretendo dizer. Simplesmente vou escrevendo aleatoriamente
tudo o quanto me ocorre. De cada dez palavras que tento digitar apenas uma
delas o processador de texto aceita sem reclamação. Sim, os traços
vermelhos que sublinham as palavras grafadas erroneamente, são gritos de
protesto contra mim por teimar em escrever sentindo <i>aquilo</i>.
Meus dedos não obedecem às ordens confusas emitidas pelo cérebro. Chego
a me irritar com o teclado acreditando que estaria mal configurado. De
fato, existe mesmo uma má configuração irremediável, mas esta ocorre
dentro da minha cabeça. São os bytes dos meus neurônios que estão
afetados. E para este software danificado pelo tempo, pelas amarguras,
pelas decepções, pela dor, não foi inventado ainda nenhum programa
capaz de corrigi-lo. Levanto-me
novamente. Foi necessário escrever três vezes as palavras <i>levanto-me</i>
a fim de que a ortografia pudesse ser obedecida. Vou à janela.
Um desfile de veículos flui incessantemente em ambos os sentidos. Fico a
imaginar o que se passaria pelas cabeças dos seus passageiros. Quantos se
sentirão felizes? Nenhum, por certo! Do contrário não sairiam em busca
de coisa alguma. Quantos estarão serenos? Pouquíssimos; talvez um em
mil, se tanto. Não creio que alguém possa sentir serenidade em meio àquele
tráfego caótico. Quantos estarão na expectativa de alcançar algo que
possa melhorar as suas condições existenciais? Todos, certamente. Mas se
decepcionarão logo. Mesmo aqueles raríssimos que lograrão alcançar
plenamente as suas metas, pouco tempo depois também se frustrarão, pois
descobrirão que nada daquilo fez diferença em suas vidas. Tais qual uma
criança quando recebe um brinquedo pelo Natal ou pelo aniversário. O
primeiro impacto é uma incrível ventura. Parece que todos os ideais
colimados foram, enfim, atingidos. Pouco mais tarde descobrirão que nada
daquilo as satisfez. Alguns chegarão mesmo a cogitar: <i>”como
fui ingênuo por anelar a tão insignificante projeto!”</i>. Mas,
nada disto impede que aquele ideal frustrado seja imediatamente substituído
por outro, e depois por outro mais e mais outro. E assim sucessivamente,
porque aqueles pequenos objetivos e as suas respectivas frustrações
ficaram para trás. Às vezes considero que isto é a única razão para
alguém se apegar à vida. É esta bipolaridade contínua de êxitos e
fracassos – e nada mais – aquilo a que chamam <i>instinto
de vida</i>. Por outro lado, quando este deixa de existir, nada
mais interessa. Este desalento é o verdadeiro castigo da condição
humana e não a própria morte, em si, como muitos apregoam. Neste exato
momento é o que está me acontecendo. Não tenho nenhum ideal. Tanto faz
morrer agora, como amanhã, daqui a um ano, dez, vinte ou quarenta. A
minha caixa de Pandora está absolutamente vazia. Dela escapou tudo,
inclusive a tal esperança de que muitos falam e eu nunca tive o prazer de
conhecer. Nada me interessa. Não procuro nada. Nada me atrai. Não sou
como os passageiros destes veículos que trafegam diante da minha janela
em busca do seu <i>ideal</i>.
Não porque me sinta incapaz de alcançá-lo, mas porque me fartei dele
por antecipação. Sem querer, me lembro da Tabacaria, de Pessoa. Mas não
há Tabacaria e nem nada defronte da minha janela. Existe apenas um oceano
de angústias onde me afogo, sob um céu tempestuoso de desespero. |