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Raymundo Silveira Ás De Ouro Encheu o peito de fumaça travando a respiração. Depois, foi liberando lentamente. Há muito tempo não tragava oxigênio. Mesmo que não fumasse, o resultado seria o mesmo. A atmosfera do recinto estava sempre saturada de gases liberados pela combustão dos cigarros. A espertice dos jogadores era atribuída aos seus efeitos. Dizia-se que, ali, o mais ingênuo dava laçadas em gota d’água. Jogava-se vinte e quatro horas por dia. Sem intervalo nos finais de semana. Quem estava dentro do cassino não tinha conhecimento de nada que se passava fora. A concentração nos lances era absoluta. Não visava somente ao lucro. Ansiava por passar a perna num dos parceiros, pelo simples prazer do ato em si. Queria vê-lo humilhado, desesperado, arrependido. No fundo do poço. As apostas eram altíssimas. Sabia que o outro havia perdido quase tudo e investira a última reserva de dinheiro naquela mão. A partida já ia longa. Tinha condições de bater, mas não o fez ainda. Fazer um jogo paralelo: o do gato e o rato. Alimentar a ilusão do parceiro. Insinuar que ainda havia chance de ele vencer. Assim, o triunfo seria mais saboroso. Tripudiar por antecipação. O perdedor teve de vender a casa onde morava e o automóvel para quitar as dívidas. Com o que sobrou partiu para a revanche. As apostas começaram baratas. O rival o encarava como uma ave de rapina preste a atacar a presa. Fingiu indiferença. Perdeu três partidas consecutivas. O valor foi dobrado e, depois triplicado. Perdia todas. Agora, o semblante estourava de tensão. Na testa não havia sulcos. Mas três profundos ferimentos. Suava ódio e exalava desejo de vingança. — Dobro o que já perdi e acrescento duzentos mil. Os outros jogadores declinaram. Somente o vencedor e um terceiro toparam a parada. Mas exigiram dinheiro vivo. Não fichas. Pediu que aguardassem enquanto ia ao Banco. Voltou com duas sacolas grandes transbordando de notas de cem. Era o que restava da venda do carro e do imóvel. Os demais jogos foram desativados. Os freqüentadores tinham se concentrado em torno da mesa de baralho. Paralisados. Torcia-se e tossia-se. Apenas. As cartas foram distribuídas. Apesar da aparente calma, todos sabiam que dentro de cada um havia um vulcão em vias de entrar em erupção. A partida já durava duas horas. A cautela de cada jogador era maior do que numa final de campeonato mundial de xadrez. Com a diferença de que ali não existia a mais leve sombra do espírito desportivo daquele certame. Era uma competição mortal. Quem perdesse estaria na miséria. O terceiro jogador descartou um ás de ouro. O ganhador se considerou perdido. Tinha certeza absoluta que o outro tinha uma trinca de ases. Mas este recusou e soltou um sete de copas. O ganhador exultou. Havia errado. Raramente errava. Poucas vezes fora tão feliz por causa de um erro. E descartou o segundo ás de ouro. Que trazia consigo, preso debaixo de sete chaves. "Passo, disse o terceiro". "Bati. Deixei de vencer na rodada anterior porque só queria bater se fosse com o teu ás de ouro, seu filho da puta".
"A literatura é uma das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz
quando escrevo e penso que posso dar um pouco de felicidade aos
leitores. E quando digo felicidade, não estou me referindo a uma
felicidade beata: felicidade pode ser exaltação, amor, cólera..." |