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Raymundo Silveira Avareza & Cobiça "Foi, ao mesmo tempo, o homem mais rico e mais pobre de sua terra. Mais rico, porque tinha mais dinheiro; mais pobre, porque era o que menos gastava. Ao sentir dor de cabeça, atava um comprimido de aspirina à ponta de um barbante e deglutia. Quando a dor passava, retirava e guardava o resto do remédio. À noite, ao papear com amigos, fazia dupla economia: apagava as luzes e descia as calças. Chegou a comprar um automóvel... E o emparedou. Preferia saltar a grade de ferro do jardim, a ter de abri-la. Para não corroer a dobradiça. Certamente, há algum exagero nessas histórias. Mas são caricaturas aproximadas do seu perfil de consumo. Não há dúvida de que privava a si e a família do mínimo necessário para sobreviver com certa dignidade. Morava com a mulher e um casal de filhos num pardieiro situado no subúrbio duma cidade litorânea. A alimentação consistia de um cardápio tão invariável quanto escasso e intragável. Entretanto, o patrimônio era avultado. Avaliava-se em cerca de quatro milhões de dólares americanos. E era a única razão do seu existir. Jamais o confiou a Bancos. Era quase todo constituído de lingotes de ouro pesando, cada um, mais ou menos, quinhentos gramas. Conservado num silo sepultado a vários metros de profundidade, ao qual, somente ele tinha acesso. Apesar das doenças e dos sessenta e seis anos, só temia a morte por um único motivo: ter de se separar do tesouro. Bastava pensar que herdeiros pudessem um dia vir a usufruí-lo, para sentir calafrios, insônia, falta de ar e palpitações. A esposa tinha 57 anos. A filha, 19. E o rapaz, 24. Tinham todos os sentimentos possíveis e imagináveis em relação àquele homem, exceto afeição. Sequer se comunicavam. Quando conversavam entre si, a palavra mais utilizada era o advérbio "Depois". "Depois, nós vamos viver melhor. Depois viajaremos pelo mundo inteiro. Depois, vamos nos mudar para uma mansão. Depois, vestiremos roupas da moda. Depois, vamos jantar fora todos os finais de semana. Depois, compraremos um automóvel. Depois, nossa vida será um mar de rosas". Por "Depois" entenda-se, "quando o velho morresse”. Num incerto dia ele viu o "depois" se aproximar. As palpitações aumentaram e sentia fortes dores no peito. Os tornozelos começaram a inchar. E a falta de ar se tornou quase insuportável. Entrou em pânico ao pressentir, para breve, a cruel separação de sua amada fortuna. Doía, porém, muito mais, a perspectiva de sua fruição por parte de terceiros. Mas disfarçou o quanto pôde. Contratou uma microempresa, especializada em escavações. E mandou cavar um túnel partindo de cerca de quatrocentos metros do seu "santuário" e desembocando lá. Eram três as cláusulas mais rigorosas do contrato: as horas de trabalho só aconteceriam na alta madrugada e com um mínimo de ruído. A obra teria, também, de ser camuflada. Estaria, para todos os efeitos, perfurando um poço profundo a serviço da Prefeitura. Logicamente, para isto, teve de subornar o funcionário público responsável. Ao cabo de noventa dias o túnel estava pronto e somente cinco pessoas sabiam da sua existência: ele próprio, o funcionário corrupto, o proprietário da escavadeira e os dois operários responsáveis pela execução dos serviços. Deste dia em diante, um véu de mistério desceu sobre o velho. Durante as madrugadas se levantava pé ante pé, descia para o subterrâneo e envolvia lotes de peças de ouro em lonas de enfardar algodão. A seguir, com esforço sobre-humano, e utilizando um carrinho-de-mão, transportava até a entrada do túnel, onde já estacionara, previamente, uma picape. Punha tudo na carroçaria, assumia o volante e partia. Repetiu a operação, em noites alternadas, até esvaziar o depósito. Contratou novamente os serviços da microempresa para desfazer o túnel, recheando-o com o material escavado. E deixando o cofre como se não tivesse sido tocado. Evidentemente, teve de se desfazer de boa parte dos quatro milhões. Para comprar, os serviços, e, sobretudo o sigilo dos quatro cúmplices. Oito meses e nove dias após o término da operação, aconteceu o "Depois". Não agonizou. Pelo menos, assim interpretaram os familiares. Deitou-se às dez da noite, dormiu, e, ao amanhecer, a esposa o encontrou morto. Foi o dia mais feliz na vida dela e na dos rebentos. No dia seguinte às exéquias, mãe e filhos se reuniram e concordaram em viajar pelo mundo para inaugurar os "Depois". Sequer ocorreu-lhes visitar o cofre, pois davam como favas contadas o montante do conteúdo. Certa vez, num gesto de raríssima bonomia, o marido tinha mostrado tudo à companheira. Tal qual um adolescente a exibir o primeiro automóvel à namorada. Para os círculos financeiros do lugar, também não era segredo a fortuna do morto. Embora ignorassem onde ele a depositava. Foi, portanto, com extrema presteza, que gerentes de bancos e agentes de turismo acolheram os pedidos de financiamento da trinca. "Como não, por aqui. Aceitam um cafezinho? Um chá gelado? Um refrigerante? Um uisquinho?" Um tratamento principesco que jamais ousaram pensar em receber. Cartões de crédito, das empresas mais famosas do planeta, foram visados e masterizados, expressamente, para cada um. Diante de créditos tão fáceis quanto fartos, os três viajaram durante quatro meses. Conheceram o extremo e o médio oriente. A Europa e os Estados Unidos. No dia seguinte ao da chegada, fizeram as contas e tinham gastado duzentos mil dólares. Para ter acesso ao silo tiveram de dinamitá-lo e, evidentemente, encontraram-no vazio. Choro, desmaios, gritos, imprecações, fúria, ranger de dentes, desespero... Um detetive particular foi contratado. Ao cabo de duas semanas, ficou-se sabendo da "operação túnel", graças à língua solta de um dos operários escavadores, quando este se encontrava sob o efeito da pinga de cada dia. "Ah velho escroto!" Repetia continuamente o filho. "Maldita esteja a tua alma no inferno, seu sacana", secundava a mãe. Só a moça permanecia calada. Olhos fitos no horizonte vazio, completamente imóvel e indiferente a tudo. Mas permanecia uma dúvida. E junto com ela, uma esperança: Para onde ele teria levado o tesouro? Mediante acordo prévio - uma divisão meio a meio, caso fosse encontrado -, o detetive prosseguiu a busca. Seguindo pistas vagas e dispersas; ouvindo comentários de vizinhos madrugadores, investigando, interrogando... Conseguiu reunir algumas peças e montou um quebra-cabeça que o levou a uma praia afastada e inóspita. Quase desabitada. E encontrou um barqueiro. Ficou tudo esclarecido. "Sim, conhecera muito bem o homem". "Sim fora ele quem o contratara durante alguns meses para jogar sacas de entulho em alto mar". "Não, nunca suspeitou de nada, pois chamava de ladrões os removedores de escombros, porque teriam lhe cobrado os 'olhos da cara' para retirá-los de uma construção". "Não! Como poderia desconfiar, se a sua avareza era conhecida em toda a região?” 22-03-2006www.raymundosilveira.net
"A literatura é uma das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz
quando escrevo e penso que posso dar um pouco de felicidade aos
leitores. E quando digo felicidade, não estou me referindo a uma
felicidade beata: felicidade pode ser exaltação, amor, cólera..." |