Raymundo Silveira

Charada

Quando eu era viva tinha muito medo de baratas. Por fora e por dentro. Ao vê-las, sempre me comportei como louca. Sentia mais medo de baratas do que de germes causadores de doenças graves. Ninguém enxerga micróbios. E não se vendo, não preocupa tanto. No primeiro caso (baratas externas), não sei dizer o motivo: sentia medo delas assim como todas as outras mulheres também sentem. Talvez porque não percebem, como nós, o mistério cego da vida nem a certeza cancerosa da morte. Pois as baratas nunca morrem. Não acabarão com elas, jamais. Ouço, portanto, uma espécie de grito ancestral me incomodando, pois às vezes sinto-me menos criatura do que elas. O meu medo vira terror quando as imagino andando por dentro de mim. Trata-se de uma idéia absurda, bem sei. Entretanto, por mais que me esforce não consigo afastar. Sinto os asquerosos insetos penetrando-me a vagina. Caminhando, pululando, esvoaçando dentro de mim. Há muito já estava marcada para morrer. Eu era um arquivo ainda ativo, mas sabia que dentro de pouco tempo seria um arquivo morto. Me sentia mais morta do que estou agora, pois jamais acreditei em vida depois da morte. E poucos fatos me parecem tão lógicos quanto estar mais morta do que estou neste momento se, de fato, nada tivesse sobrevivido em mim quando morri. Sabia que, de um modo ou de outro me matariam. Dentro de duas semanas sofri quatro atentados. Pedia para não me olharem, mas as pessoas pareciam não entender que quando me fitavam com interesse estavam me levando a dar mais um passo a caminho do fim. Por que me olhavam daquele jeito? Não era nenhuma criminosa. Quem me matou foi a sociedade protetora das baratas. Morri inocente. Nada fiz. A não ser ter muito medo de baratas... E a angústia se tornava ainda maior pelo simples fato de ter descoberto tudo sobre o mal que elas podem causar à humanidade. Não bisbilhotei nada. Nada procurei. Não era nenhuma espiã. Minha única culpa foi ter caído na tentação de abrir aquele baú e ele estava repleto de baratas. Mal levantei a tampa, e o vi cheio, imediatamente fechei. Alguém me viu abrir e isto selou o meu destino. Portanto, morri inocente. Inocente e vítima de medo e de curiosidade. Enquanto eu era viva nunca tive medo de serpentes. Elas são raras e era mais fácil me defender. As baratas, não, pois estavam em toda parte. Tá bem, ainda não morri. Também não creio na imortalidade da alma. Não creio, porém não tenho convicção absoluta. Então, por causa destas nesgas de incertezas, decidi contar logo essa história, para me aliviar previamente de um tormento contingente. A velocidade do efêmero me incomoda... Mas a perspectiva da preguiça do eterno me apavora. Por mais veloz que seja o tempo, ele é sempre a véspera de outra véspera. E nós só suportamos a condição humana por causa da expectativa desses amanhãs. Se acaso alguma coisa sobrevivesse depois da minha morte e supondo que não me fosse dado o poder de comunicação com o mundo dos vivos, o meu Inferno seria mais terrível com essa história guardada eternamente... sem nenhum até. Não suportaria conmorrer com a idéia infinita da impunidade dos meus assassinos. Depois, seria terrível não poder compartilhar este segredo. Por que não conto tudo agora enquanto estou viva? Porque isto não me traria benefício algum. Pelo contrário: apenas apressaria o meu fim...

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"A diferença entre ficção e realidade? Ficção tem que fazer sentido."

 (Tom Clancy)

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