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Raymundo Silveira Cheiro de Mulher "No seio da
mulher há tanto aroma... Naquele instante, porém, não existia o menor estímulo erótico. Não havia, nem remotamente, vestígio antecipado algum daquele acontecimento; o menor sinal de que uma coisa prodigiosa estaria preste a suceder. Subitamente, senti a suavidade de uns lábios fartos, mornos, úmidos e delicados tocarem levemente os meus. Tive um sobressalto seguido de um espasmo e de um estremecimento. Uma sensação deliciosa como nunca tinha provado. Entreabri os meus e as nossas bocas se fundiram. Sentia todo o meu corpo como se fosse uma tocha só a emanar labaredas por todos os poros. E o que era suavidade se transformou na mais louca sofreguidão. Tudo aconteceu como se um rastilho de pólvora de um pavio fantasma de dinamite tivesse, repentinamente, atingido o seu alvo, produzindo uma súbita explosão. Uma basta cabeleira negra e sedosa encobriu a minha face. O seu cheiro junto com o cheiro natural exalado daquela fêmea em pleno cio, ainda estão presentes na minha memória olfativa no exato instante em que gravo estas letras na tela fria deste computador e isto me faz sentir um pouco como se estivesse profanando um santuário. Aquele odor de mulher linda, jovem e sensual instigava o meu olfato, estimulava todos os outros órgãos a ele vulneráveis e um estremecimento de prazer percorria cada centímetro da minha pele e me fazia esquecer de tudo o que se passava ao meu redor. Não há palavras para descrever o que resultava daquele atrito sôfrego e prolongado entre aquela boca e a minha boca; do enlace espiralado das línguas a se enrodilharem uma na outra como duas serpentes em pleno ato de amor; do bafejar mútuo e simultâneo dos nossos hálitos; do sabor das lágrimas que escorriam dos olhos, se misturando nos contornos dos lábios e sendo sorvidas juntamente com as nossas salivas deliciosamente promíscuas. É possível que se trate de exagerada fantasia, mas a sensação que ainda experimento agora é a de que a delícia daquele beijo jamais será superada, ainda que se reunissem em apenas um, todos os orgasmos que já tive e que eventualmente ainda virei a ter nesta vida. É estranho como aquela comoção ainda se faz tão presente! É maravilhosamente esquisito como o cheiro daquela mulher ainda impregna tanto a minha olfação. É deliciosamente assustador como tudo é tão atual. Contudo, na noite de um determinado dia que se passou quarenta anos depois daquele beijo, seguindo o conselho do ator Humphrey Bogart, a minha saudade me levou a querer estar três doses de uísque acima do que costuma ficar a humanidade, a fim de tentar reprisar aquele prodígio. Sob o efeito ilusório do monarca dos líquidos que é o álcool, telefonei para ela e fiz tudo o que pude a fim de ressuscitarmos juntos aquela emoção tão distante no tempo e tão presente na minha memória. Não se lembrava de nada. Ou fingiu não lembrar. |