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Raymundo Silveira Dependência Até me divorciar, aos trinta e cinco anos, não conhecia mulheres de inteligência e cultura iguais ou superiores às minhas. Não porque achasse que não existissem: longe disso. A minha timidez - para não dizer pavor - é que impedia de me aproximar de qualquer uma delas. Minhas fortuitas conquistas se limitavam a moças de baixo nível de instrução. Minha ex-mulher, por exemplo, era incapaz de se orientar quanto aos quatro pontos cardeais. Ignorava a forma de governo sob a qual vivíamos. E achava que as ilhas Malvinas ficavam na Argentina e as Falklands, na Inglaterra. Isto, decerto, estimulava o meu preconceito de superioridade machista. Deve-se acrescentar que estava também implícito na educação que me deram: “mulher que é mulher tem de ser burra”. Depois que me separei, conheci uma médica. Além de bem sucedida na profissão, falava quatro idiomas, conhecia, razoavelmente, filosofia e a sua história. E, com profundidade, os principais escritores da literatura universal. Desde o século dezenove aos nossos dias. Sua simplicidade e desenvoltura, e o carinho que me dispensava, incentivaram o meu lado extrovertido. Vivemos uma espécie de amor platônico durante quase dois anos. Enquanto isso, meu preconceito sofreu uma rotação de cento e oitenta graus. Considerava-a um gênio. E passei a enxergar nela uma espécie de mito. Embora não desse a menor importância. Tudo isso, em vez de nos aproximar teve, em médio prazo, efeito contrário. Certamente, a velha timidez e o preconceito ainda vigoravam. Então, encontrei Tatiana. Advogada, cinco anos mais jovem do que eu e bonita. Daquele tipo de beleza que se pode presumir no que se transformará quando chegar o climatério... Mas, bonita. Além disso, era, aparentemente, bem relacionada nos meios intelectuais. E, mesmo com a velha timidez me vergastando, deduzi que, afinal, havia encontrado a minha alma gêmea. Quando ouvíamos música, preferia Grieg, Offenbach, Vivaldi e Debussy. E alguns outros ilustres desconhecidos meus. Deitava sobre essa tétrade e companhia, uma falação complicada. Meus prediletos se resumiam a quatro compositores eruditos que, para mim, estavam para a música, como as quatro operações para a Aritmética: Mozart, Beethoven, Haydn e Chopin. Compunha versos que eu acreditava excelentes, não obstante a minha opinião técnica sobre poesia, valesse tanto quanto a de um cego surdo-mudo. Naquela época ainda não conhecia Rimbaud. Mas lembro que o seu conhecimento sobre o poeta se limitava a citar, no original, versos esparsos de “Une Saison En Enfer” e do “Le Bateau Ivre”. Que depois traduzia. Somente ela falava. Jamais me irritei, pois sempre tive uma curiosidade de vestibulando. E entre o aprender e o ensinar, nunca vacilei em optar pelo primeiro. Eventualmente, tentava expor minhas idéias quando se tratava de assunto sobre o qual me julgava capaz de opinar. Ela cortava, de repente. Então, calava e escutava. Mas o que me grudou na Tatiana pouco tem a ver com filosofadas, poesias, música clássica, ou literatices. O que quase me levou à loucura foi puro instinto carnal. Éramos máquinas de fazer sexo. Cada relação era uma espécie de luta selvagem onde o que menos interessava era um plácido final. Havia noites em que trepávamos não duas nem quatro, mas meia dúzia de vezes. Ou mais. Atribuía, a si própria, enorme resistência física e emocional. E tinha a idéia fixa de dominar as pessoas. O mito de Pandora a fascinava. Parecia querer imitá-la. Era adepta ferrenha do psicólogo americano William Moulton Marston, um dos precursores do feminismo, que defendeu, ainda no princípio do século vinte, a supremacia do sexo feminino. Aos poucos, fui compreendendo tudo. Era tarde demais. Estava tão dependente que via, porém me recusava a enxergar, o seu real comportamento neurótico. Conquanto, tenha de reconhecer que muitas das minhas idéias atuais, acerca da natureza física e psicológica das mulheres, me foram inculcadas por Marston, através de Tatiana. Se a palavra fidelidade significar exclusividade, não me foi fiel. A princípio, discutíamos bastante sobre isso. Tentava me incutir a noção de que monogamia, longe de significar fidelidade, não passava, de fato, de hipocrisia. Todos os casais praticavam, e fingiam que não. Comportava-se, portanto, mesmo na minha presença, como uma devassa. E me incentivava a fazer igual. Certa noite, fomos a uma festa de aniversário. Sem mais nem menos seduziu um rapaz dez anos mais jovem. Antes de saírem juntos, se despediu com beijinhos. Detinha convicções tão heterodoxas quanto firmes sobre isto, que quase me convenceu. Para ela, infidelidade era sinônimo de mentira, falsidade, traição. Nunca uma relação livre e aberta. Onde os parceiros nada ocultavam um do outro. No dia seguinte, ainda muito cedo, chegou ao meu apartamento com as roupas em frangalhos. Um olho roxo e inchado. Além de outros sinais de violência física. Chorava muito. E insistia que eu era o único homem da sua vida. A despeito do ocorrido, fizemos sexo, durante todo o dia, com uma violência incrível. “Vem depressa, amor. Estou muito molhadinha”. Praticamos todas as variantes do coito: convencional, anal, oral mútuo e simultâneo. Não havia limites para a fantasia. Durante a cópula falava coisas que assustariam os mais devassos dos casais. “Estou gozando muito. E não é com você. É com aquele cara que me bateu. O nome dele é Jean. Mais Jean, meu amor. Me bate mais. Você fica só assistindo seu corno. Não pode ter ciúmes. Não deve ter ciúmes. Sei que estás delirando de excitação”. “Sim, amor, prefiro assim. Adoro assim. Só gozo se for assim”. “Vou te dar uma oportunidade: me penetra por trás, quero os dois ao mesmo tempo! Ai, Deus! Vou morrer de tanto gozar”. Naquela noite, disfarçou como pôde as equimoses, à custa de maquiagem. E fomos ao teatro. Antes, jamais tínhamos ido juntos. “Hamlet”. Sempre me considerei um shakespeareano fanático. Conquanto não tenha escrito tese alguma sobre o poeta, sou razoavelmente capaz de traduzi-lo e interpretá-lo. Naquela ocasião, descobri a farsa cultural da minha amante. Algumas das suas impressões sobre a peça: “Não é das melhores. Prefiro ‘Romeu e Julieta’. Aquele monólogo no cemitério, com a caveira na mão, é doentio. Macabro. De péssimo gosto. E afinal, ser ou não ser o quê? Falsos intelectuais propendem a concordar com os críticos antes de uma análise independente. Criteriosa. Uma avaliação própria. Para mim, trata-se de preguiça mental”. Permaneci calado. Mas, longe de me afastar de Tatiana, aquela bufonaria teve efeito paradoxal. Ressuscitou o meu antigo preconceito. Abjurei as idéias de Marston que ela mesma tinha-me levado a assumir. Mas, longe de romper a minha dependência, tornou-a mais grave. Continuei seu escravo. Porém, agora sabia que era também o seu senhor. O nosso relacionamento virou pura perversão sadomasoquista. O que era um sofrimento unilateral virou violência física mútua de alto risco. Durante o coito, palavras carinhosas nunca mais foram pronunciadas. Predominava o baixo calão. Quando estávamos num motel, as mais “ternas” eram brados assustadores. E levavam garçons e gerentes a bater na porta pedindo silêncio. “Sua puta”. “Rasga esta boceta”. “Toma cadela”. “Me mata seu sacana”. “Toma mais sua porra”. “Aiii, mais, mais, me bate com força. Me fode. Me faz sofrer...” A sensação de bem-estar, que normalmente se segue ao ato sexual, era substituída pela ansiedade, pela insaciabilidade, pela vontade irreprimível de trepar cada vez mais. Em casa, não havia limites para a violência. Certa vez deixei-a tão machucada que tive de levá-la ao Pronto Socorro. Por sorte, o médico residente que nos atendeu, de nada desconfiou ou fingiu não desconfiar. Estava se tornando um relacionamento perigoso. Que poderia resultar em lesões corporais cada vez mais graves. Ou mesmo no pior. Ambos sabíamos disso. E quanto mais sabíamos mais queríamos praticar. Numa alta madrugada me telefonou. Chorava muito e estava desesperada. Fui ao seu encontro. Tinha estado com um marinheiro. Desta vez foi longe demais. O rosto estava tão inchado que não pude reconhecê-la. Havia um braço e várias costelas quebrados. Levei-a num hospital onde teve de permanecer internada. Havia também suspeita de ruptura do baço. Decidi que estava passando da hora de cair fora. Desde então não a vejo nem tenho notícias. Mas sinto uma vontade louca de saber como está. Reconheço que é uma grande imprudência. Isto aconteceu há quatro dias. Será que conseguirei resistir?
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