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Raymundo Silveira Elogio da Loucura Chegou
em cima da hora para dar o primeiro plantão no hospício. Ainda não era
doutor. Faltavam seis meses para se formar. Era baixinho, aloirado,
brancoso, sardento, nariz arrebitado, narinas de bovino. Feinho. E muito
agitado também. Falava demais. Misturava palavras e engolia sílabas,
como se quisesse dar vazão ao caos de idéias que passava por sua cabeça.
Por isso, o porteiro pensou que se tratava de um paciente. Nunca de um
curador destes. -
Por onde você passou? -
Ainda não passei. Estou chegando agora! -
Veio sozinho? Não tem acompanhante? Avermelhou-se
o baixinho: -
O que é isso amigo? Sou médico e... -
Sei. Aqui tem de tudo: médicos, generais, deputados, senadores. Até
Imperadores. -
Isso é um absurdo! Um desacato! Posso provar que... -
Aqui todos podem provar tudo... E já deu um jeito de ligar para os
seguranças: Venham rápido para a portaria. Parece que temos uma emergência... O
jovem já ia se enfurecendo, pedindo para ligarem para as autoridades,
quando uma idéia inusitada e irresistível o dominou. -
Tudo bem. Fugi. Então me leve de volta. Foi
precisamente o que fez o porteiro. E o doutor foi internado. E se confundiu com os pacientes.
Parecia louco, como eles, o que longe de prejudicar o seu trabalho,
teve efeito contrário. Todos os doentes confiavam nele. Viam-no como a um
igual. Mas um igual que os tratava melhor do que qualquer outra pessoa:
internos, enfermeiros, médicos, familiares... O
quase psiquiatra se sentia realizado. Agora tinha a oportunidade com que
sempre sonhou: dedicar-se totalmente a ajudar os alienados. Aos poucos, o
ambiente foi-se tornando um lugar que parecia tudo, menos um hospício.
Acabaram os eletrochoques. As camisas de força. Os gritos das madrugadas.
Qualquer vestígio de violência. Os funcionários extasiados.
Jamais tiveram tão pouco trabalho. Passaram a simpatizar e até
a apoiar aquele louco diferente. O
tempo, este implacável devastador de bonanças e semeador de tempestades,
foi passando. Alguém sentiu falta do doutor. Sempre alguém sente falta
de alguém. Se não forem os familiares, com certeza serão o senhorio, o
açougueiro, a companhia de luz e força ou o imposto de renda. Não
importa como, mas num determinado (ou indeterminado) dia, vieram procurá-lo. - Não!
A esta hora não há médicos, nem acadêmicos. Apenas os funcionários e
os doentes, disse o porteiro. -Não
é possível. Este é o único local onde falta procurá-lo. Todas as
delegacias, necrotérios, hospitais, presídios já foram vasculhados.
Ninguém desaparece no ar. Da
janela de sua enfermaria o doutorando percebeu que o procuravam. A esposa,
os cunhados e junto com eles, três policiais. Procurou, desesperadamente,
uma saída. Simulou um surto de fúria. Chutou os leitos. Bateu a cabeça
nas paredes. Agrediu funcionários. Imediatamente, acorreram os guardas e
o puseram numa camisa de forças. Enquanto isso, as pessoas que o
procuravam decidiram revistar o manicômio. Encontraram-no,
enfim. Olhos esbugalhados. Espuma sanguinolenta escorria pelos cantos da
boca. Emitia um som surdo que mais parecia o rosnar de uma fera preste a
atacar. E arreganhava os dentes. Debatia-se como um suíno que está para
ser abatido. Gritava palavras sem nexo. Parecia um endemoninhado. Não
suportaram vê-lo por muito tempo. Retiraram-se e nunca mais procuraram
saber notícias. Dizem
que seguiu dando suas consultas. Que era maluco, também ninguém
duvidava.. Do contrário, os governos e a sociedade jamais deixariam de
exigir dele a tão decantada cidadania. Ou seja, um
cidadão “casado, fútil, cotidiano e tributável”. Compunha
também suas poesias. Tratava-se de Poemas malucos, como ele, mas Poemas.
Ninguém tinha como negar que era médico, poeta e louco. Exatamente como
todos nós. http://www.raymundosilveira.net/ "A literatura é uma
das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz quando escrevo e penso
que posso dar um pouco de felicidade aos leitores". |