Raymundo Silveira

Horário De Verão

- Psiu! Ei, é aqui.

Não quis acreditar. Embora muito cansado, acabou entrando. Aquilo era um pesadelo virando sonho. Ou um sonho se tornando realidade. Faltou energia. Escuridão absoluta. Subia as escadas contando um por um, os pavimentos. Não confiava na memória. Acendia um fósforo e conferia o número, pintado a tinta fosforescente, na parede de cada andar. Não havia dúvida, estava no oitavo. O vulto era inconfundível: a vizinha do apartamento de baixo por quem se doía de tesão. Oi, por que demoraste tanto? Bem, eu... Não precisa se justificar. O importante é teres vindo. Há sempre o dia. O nosso tinha de ser hoje. Continuava perplexo. Nunca imaginou lhe despertar tanta atração... Não demonstrava. Cuidou que se continha para evitar escândalo no condomínio. Ou, quem sabe, sentia medo da esposa. As trevas, o estar sozinha, a consciência de que talvez nunca mais houvesse outra ocasião, quem sabe, um pouco de álcool, devem tê-la encorajado. Sabia muito pouco a seu respeito. Era jovem, bonita, gostosa e separada. No canto da sala, somente uma vela bruxuleante. Mal conseguia dar uma passada. Ainda assim, entrou, caminhou segurando-lhe o braço e se sentou no sofá. Ela fez o mesmo.

Como foi bom você ter vindo. Quando chamei, ainda não estava acreditando... Por que a dúvida? Não sabia do meu tesão maluco? Sabia, sim. Eu também sinto. Mas às vezes não é possível demonstrar. Sou muito vigiada. Meus filhos foram passar o Reveillon com o pai. Hoje, excepcionalmente, estou sozinha... Sei lá, duvidava muito da sua vinda... Sua mulher... Sua família. Não sei como tive coragem... Jamais me envolvi com homens casados. Por favor, não vamos mais perder tempo: me dá um beijo. Calma: temos bastante tempo. Só que ele não tinha. Se saísse dali sem dar uma, jamais se perdoaria. Foram momentos incríveis. Não imaginava existir mulher tão ardente, tão desinibida... Tão tarada! Houve momentos de dúvida: estaria mesmo acordado? O escuro quase absoluto concorria para incentivar a ousadia de ambos. Já partiam para a terceira, quando escutaram fortes pancadas na porta. Virgem Maria, quem será? Meus filhos! E agora, meu Deus... Minha mulher! Tô fodido... Nem uma coisa, nem outra. Era o amante virtual. Haviam combinado de se encontrar naquela noite pontualmente às onze. Só que onze em São Paulo, são dez em Fortaleza... 

27/12/2005

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