Raymundo Silveira

Ira


Eu não nasci. Jamais tive mãe. Muito menos, um pai! Desde que me entendo por gente ouço dizerem que sou fruto de um ovo podre que estourou num terreno baldio. Palavras como esperança, fé, carinho, solidariedade, compaixão, justiça e caridade não fazem, para mim, o menor sentido. Cresci num orfanato onde a Madre Ritinha me disse que se eu me comportasse direito seria gente; caso contrário, um bicho. Como hoje dizem que sou um bicho, devo ter-me comportado esquerdo. Não me sinto um bicho. Sou muito diferente deles. Embora instintivamente, esboçam algum sinal de afetividade. Eu não! Para mim, a palavra amor tem o mesmo significado de coisa nenhuma.

Vejo o valor que os outros dão à vida humana com absoluta indiferença. Não. Estou mentindo. Não vejo com indiferença, não. Na verdade, odeio gente. Comecei a trabalhar aos oito anos porque fugi do internato e não dispunha da menor chance de subsistência. Era moleque de recados de um bordel. Um cliente me disse certa vez: “Meu filho, seja tudo na vida, menos pobre. Neste país o homem pobre é burro, preguiçoso ou azarado”. Jamais esqueci a lição. Prometi a mim mesmo ficar rico ou então me tornar uma pessoa muito importante. Pouco me interessa os meios.

Nunca freqüentei uma escola, mas aprendi a ler. Sozinho. Pois ouvia a Madre Ritinha falar que sem saber ler a gente não pode ser nem ladrão. E eu queria ser ladrão! Hoje vivo de pequenos furtos, mas pretendo me tornar um profissional. Para isto tenho de planejar um grande golpe. Do contrário, nunca vou dispor de recursos para investir em bens de capital. Então, até pra se começar a roubar é preciso ter dinheiro. Desde que aprendi a ler nunca mais parei. A leitura é a única coisa que me faz tolerar a ira que sinto da humanidade.

Não leio qualquer coisa, não. Sou bastante seletivo quanto a leituras. O melhor livro que li até hoje foi “Crime e Castigo”, de Dostoievski. Não entendo por quê, mas me identifico demais com o personagem principal, Raskolnikoff. Esta identificação costuma suceder mais freqüentemente quando estou sozinho e, paradoxalmente, me assusta. Porque junto com ela acontece uma coisa muito estranha. A primeira vez aconteceu quando eu tinha de sete para oito anos. Daí em diante foi-se tornando cada vez mais freqüente. O inusitado do fenômeno me apavorava tanto a ponto de evitar comentá-lo.

Tenho muita dificuldade de explicar através de palavras. É uma espécie de cisão virtual da personalidade. Não, não é bem isto. É uma divisão real. Sinto-me duas pessoas. E a alucinação parece tão verdadeira que chego a me enxergar e, inclusive, me comunicar comigo próprio. Como se fosse dois diferentes indivíduos. Quando acontece num ambiente solitário, no banheiro, por exemplo, a angústia é tão intolerável que tenho de sair dali imediatamente. Pois tenho medo de perder a razão para sempre. Evito ficar sozinho por este motivo. A simples idéia de ter de me isolar já provoca ansiedade.

Não se trata, entretanto, de nenhuma claustrofobia, senão de um terror insuportável de mim. Outro autor que leio muito é o Rubem Fonseca. Na minha opinião, seu melhor conto é “O Cobrador.” Já li e reli mais de dez vezes. Chego a me excitar sexualmente durante os trechos onde o personagem principal mata gente sem qualquer motivo. Não gosto de ler poesias. O único poeta que me atrai um pouco é Augusto dos Anjos. Ainda assim detesto a musicalidade e a rima dos seus sonetos. Certa vez me deram para ler uma tradução de um poeta idiota dizendo que “nenhum homem é uma ilha”. Ele até pode ter razão quanto ao fato em si, porém fala uma aberração quanto à idéia. Para mim, vale exatamente o oposto: cada ser humano deveria ser uma ilha.

Tenho lido um filósofo alemão que pensa quase assim também. Seu nome é Arthur Schopenhauer. Sinto um certo orgulho por pensar igual a ele muito antes de o conhecer. Há outro que também gosto. Chama-se Nietzsche. Seu único defeito foi querer substituir a ridícula filosofia cristã pela arte. Gosto da arte, mas acho que ela só tem valor para quem a produz, ou seja, para o artista.

O que é a arte? Para mim, é toda realização humana que emociona. Assim, um assassinato bem perpetrado pode vir a ser uma obra artística. Acordei hoje de manhã com uma vontade incontrolável de produzir tal obra. Venho acalentando há muito tempo essa idéia. Será uma ação digna de um super-homem se eu conseguir aniquilar, sozinho, uma quantidade de pessoas como ninguém ainda foi capaz de fazer até agora. Experimento uma espécie de frenesi só em pensar como meu nome será, primeiro divulgado nos jornais. Depois, lembrado para sempre.

Tenho assistido, nos noticiários da televisão, a vários episódios onde um único indivíduo consegue matar muita gente reunida. Andei fazendo umas pesquisas para saber qual foi o recorde. Só encontrei números inexpressivos. Para mim só seria uma obra de arte se eu conseguisse matar, no mínimo, uma centena. Detive-me vários dias a planejar. Primeiro teria de descobrir onde encontrar essas pessoas agrupadas na maior densidade possível. Cheguei à conclusão de que só é possível numa grande escola infantil. Já escolhi qual será. E estou preparado.

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"Um conto é significativo quando quebra seus próprios limites com essa explosão de energia espiritual que ilumina bruscamente algo que vai muito além da pequena e às vezes miserável história que conta."
(Julio Cortázar)

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