Raimundo Silveira 

Jogos

Levei cartão amarelo por causa de uma cortada um pouco violenta. Em cinco campeonatos, era o terceiro. O próximo seria vermelho. Injustiça. Quis reclamar. Risco de expulsão por desacato. Me segurei. Melhor dizendo, os companheiros me seguraram. Fui centro-avante e, quase sempre, artilheiro. As competições aconteciam no próprio hospital. Foram transferidas para um estádio devido à alta demanda de público. Eu tinha apenas quatro anos de formado. Já competia desde o internato. Minha equipe era constituída por um anestesista, dois auxiliares e um instrumentador. Além de mim, claro. Esprit de corps e competência eram o nosso forte. Tínhamos ganhado dois campeonatos e duas segundas colocações, em apenas cinco anos. Era um feito extraordinário. Jamais jogávamos sem a presença de todos, a menos que se tratasse de emergência. Ocorreram apenas dois acidentes. Um deles, na sala de operações. Parada! Aumente o fluxo de oxigênio, rápido. Duas ampolas de bicarbonato. Ventimask... Não! Cânula traqueal... Correndo! Calma, doutor, aqui num tem ninguém movida a eletricidade, não. Vá-se à porra... Faça depressa o que estou mandando e cale a boca! A sala de operações era um teatro de operações. De guerra. Mudou subitamente da descontração para a descontrolação: a paciente parou de respirar. Não havia ninguém naquele recinto com os batimentos cardíacos a menos de cento e quarenta. Os auxiliares na iminência do pânico. Lá fora, os três maridos, o pai, a mãe e dois primos-irmão aguardavam ansiosos. Também eram médicos. Queriam entrar pra dar pitacos. Foram impedidos pela segurança. Três minutos de parada respiratória. Lábios e unhas roxos. Lá nela, coitada. As injeções de bicarbonato de sódio não surtiram efeito. O anestesista tentava introduzir a cânula na traquéia. E nada. "Outra cânula, rápido. Esta não presta!" O primeiro auxiliar estava preste a descalçar as luvas e a interferir. Embora não soubesse o que e como fazer. Então, decidiu logo que seria inútil. Neste momento sentiu fortes dores no peito esquerdo. Lá nele, coitado. O anestesista estressado. Mas não perdia o controle da situação. O segundo auxiliar, um recém-formado de vinte e cinco anos, um pouco mais tranqüilo, embora estivesse também com o coração a 140 por minuto. O eletrocardiograma mostrando grave arritmia. O chefe da equipe não tava nem aí. Não era nele... Eu não devia estar contando isso. Pode parecer cinismo. O chefe da equipe era eu mesmo... O outro acidente aconteceu em pleno gramado do estádio. Por pura precipitação. Estávamos ansiosos para vencer a partida, porque se empatássemos já estaríamos fora do campeonato. Dispostos a tudo. Tudo ou nada. E ninguém quer nada quando pode ter tudo. Nada não serve pra nada. Embora tudo nem sempre sirva pra tudo. Numa manobra cheia de ginga, o primeiro auxiliar se descuidou e machucou uma veia. Coisa feia de se ver. Quiseram retirá-lo de campo. O técnico não admitiu. Precisávamos apenas de um empate para sermos campeões. Então, uma cerinha não ia fazer mal a ninguém. Quer dizer, a ninguém da nossa equipe. A coisa foi pior do que imaginávamos. Formou-se um enorme hematoma que só foi contido graças à nossa experiência cirúrgica. Em menos de dez minutos a hemorragia estava contida. A partida prosseguia em ritmo acelerado. Não era um jogo comum. Como futebol ou basquete, por exemplo, que têm hora marcada para terminar. Nem como vôlei que acaba quando se completa o número de determinados pontos. Tratava-se de uma competição tipo atletismo: cem metros rasos, duzentos metros... Maratona. Havia vários árbitros. Torcidas organizadas. Charangas. O estádio nunca deixou de ficar lotado. Transmissões radiofônicas e televisivas. Jamais houve dificuldades financeiras. A renda custeava todas as despesas e ainda sobrava um dinheirão para repartirmos entre nós à guisa de bicho.  Também não existiam apenas duas equipes competindo, mas várias. Jogando simultaneamente. Havia regras. Por exemplo, todas as operações tinham de ser da mesma espécie. Quem estivesse operando cesariana só se defrontava com alguém que estivesse praticando o mesmo tipo de operação. Como já dá para perceber, era um torneio entre cirurgiões para avaliar a rapidez de cada um. Vencia quem terminasse primeiro. Tudo tem um fim. A “Confederação de Cirurgiões-Relâmpagos” da nossa cidade foi dissolvida por causa de outro acidente. Mas o esporte continua a ser praticado no mundo inteiro. Nunca entendi o porquê de tantos acidentes em mãos tão habilidosas. Foi num domingo à tarde. Havia uma equipe do hospital São Judas operando ao lado da nossa. Estávamos perto da grande área. As operações eram para retirada de úteros. Mais de vinte times operando. Todos ao mesmo tempo. Era uma semifinal. Corríamos. O tempo também. Alguns já estavam costurando as barrigas. De repente, a doente ao lado da nossa teve uma parada respiratória. Esteve durante cinco minutos neste estado. O monitor exibia agora um traçado típico de fibrilação ventricular — o último estágio antes de uma parada cardíaca. O cirurgião, este, sim, era um babaca. Suava frio, estava lívido e com falta de ar. “Passei a cânula, dê-me a conexão com o oxigênio e mantenha a pressão", falou o anestesista. E nós, que já tínhamos terminado a nossa, ficamos só assistindo de camarote. Loucos de vontade de que eles não saíssem daquela, pois estavam na primeira colocação na tabela. O eletrocardiograma exibiu uma única linha: ausência de batimentos. Nos contivemos a muito custo para não gritarmos “Gol”. "Parada cardíaca", gritou o anestesista. Deles. Também na iminência de entrar em pânico. O auxiliar pediu calma, se dirigindo mais ao pessoal da enfermagem do que aos colegas. Sabia da inutilidade das palavras. "Tragam-me um costótomo. Rápido!". Costótomo é uma tesoura muito fornida destinada a cortar ossos. "Tá maluco? Para que queres um costótomo?" A essas alturas eles já estavam perdidos e nós ficamos olhando só por pura gozação. "Doutor, me desculpe: saia daqui, por favor. O senhor não passa bem. Deixe tudo comigo". Apanhou o bisturi e fez um longo corte sobre o lado esquerdo do tórax. Depois apanhou o costótomo. Cortou quatro costelas, afastou músculos e outras estruturas moles e introduziu a mão direita diretamente na cavidade. Lá nela, coitada. Apanhou o coração e passou a executar massagens ritmadas. O anestesista continuava a tomar medidas extremas para tentar corrigir a parada respiratória. Foram mais três minutos, isto é, três séculos. Cada instante, uma instância. Cada segundo, uma segunda. A única pessoa a manter a calma era o doutor que se encontrava literalmente com o coração na mão. Coração da paciente, sim. Mas na mão dele. Depois, o monitor passou a exibir pequenos sinais de atividade cardíaca. E nós torcendo para que tudo continuasse na “santa paz de Deus”. Mais dois minutos e voltou a bater no ritmo normal. Porra... deixou escapar o nosso anestesista. A respiração também se restabeleceu. Restava apenas aguardar para ver se teriam havido ou não danos irreversíveis no cérebro devido ao longo período sem oxigênio. Somente o tempo diria se voltaria a ser a mesma. Ou se virara uma planta... Não sei que fim levou. Na primeira vez em que fomos campeões, executamos uma cesariana em cinco minutos trinta segundos e vinte e oito centésimos. No ano seguinte, batemos o nosso próprio recorde: quatro minutos cinqüenta e nove segundos e dois centésimos. Isto naquele tempo. Hoje em dia o recorde mundial é bem maior. Ou melhor, menor. “O tempora. O mores”.

07/03/2006

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