Raimundo Silveira

Love Story

Noite sadia de um enfermo dia. Um dia daqueles sem manhã, porque não amanheceu. Assim como a infância de certas pessoas cujas vidas jamais tiveram juventude, pois transitaram sem intervalo algum, da infância infeliz para a vida adulta e daí para a velhice. Então, a madrugada daquele dia de chumbo não conheceu aurora. Começou com o sol a pino. E até o declínio da tarde foi brutal: nem existiu o lusco-fusco do ocaso. De repente, fizeram-se as trevas. Noite paradoxal de um dia paroxítono como todos, mas paroxístico como nenhum.

 

Olá, há quanto tempo! quando te vi pela última vez eras uma  menininha,  ficaste bonita, pois é, o tempo passa, vais ao baile? talvez... não estava pretendendo, agora estou em dúvida... vou falar com meus pais... supunha que não viesses mais, estava tão ansiosa! como poderia deixar de vir? desde quando te vi meu coração está em disparada, dizem que amor de carnaval dura tão pouco... ainda assim quero aproveitar esses instantes, muitas vezes uma doce lembrança faz a diferença, este não é um amor de carnaval, será para sempre... sim, para sempre...Eu te amo muito, muito... muito mesmo? eu te amo muito mais do que o meu pai ou a minha mãe, quero te beijar, posso ir tirar a calcinha? como é macia! posso pôr na boca? estás tão vermelha, queres que eu sugue? sim, ai, delícia!  mais, maisssssss, por favor, põe um pouquinho, não pára, passam pessoas, não importa, mais, mais, aiiiiiiiiiii, estou no céu, no céééééuuuuu.

 

Então, o tempo correu. Descalço  como uma criança pelos campos.  Acreditou felicidades que se emendavam. Escorrendo até inundarem as duas vidas, tão profusas eram. E depois se quedou ameno, entardecido, outonal, sem pressa. Remanso seria, ou marasmo, restinga, toco de pequenas rusgas, sobra de dissabores, miasma de emoções...

 

Monotonogamia do dia-a-dia. Não tolero quando pedes algo à empregada, e a quem vou pedir pra pregar este botão? aqui não há mais ninguém para me fazer este favor, então fica com ela, se duvidar, fico mesmo, vai para o inferno, vai tu, maldita. Tu me traíste, nunca mais serei a mesma, não traí... não estou passando bem, me leva pro hospital, nem morta, tudo bem, antes só do que mal acompanhado, alô, ele está aqui, não te preocupes, teve só um enfartezinho, agora está tudo sob controle, me preocupar? quero mais é que morra logo... E um demônio assobiou aquela velha canção florentina: ó vós que aqui entrais! deixai do lado de fora desta porta todas as vossas esperanças!

 

Dia de partida e de corações partidos. O pêndulo do relógio da parede fazia tique-taque, tique-taque, tique-taque, mas os ruídos soavam como a voz de um duende malvado: um segundo a menos, um segundo a menos, um segundo a menos. Fugiu dali para não enlouquecer e desejou que o veículo funerário onde ia embarcar seu corpo vegetal, chegasse logo. Assim como um condenado que suplicasse um súbito suplício.

 

30/08/2005

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