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Raymundo Silveira João Galdino já estava com sessenta e oito anos quando menstruou pela primeira vez. Achou muito esquisito, mas logo esqueceu. Limitou-se a comprar uma caixa de absorventes. Sequer procurou um ginecologista. No mês subseqüente, de novo. Aliás, de velho. Afinal, estava quase no final da vida e nunca se tinha ouvido falar que alguém pudesse menstruar com essa idade. Na realidade, uma raridade.
Por sorte, não sentia cólicas. Fenômeno também muito raro, em se tratando da primeira, não tratada. Ou maltratada. Tratava-se, porém, de “sangria inútil” de acordo com eminentes pesquisadores. Ainda assim, cuidou que não carecia de tratamento e se descuidou. Primeiro, por não haver doença alguma, segundo porque, segundo os médicos, não se medica, pelo menos com medicamentos, algo que não incomoda... Não causa mal-estar. Além disso, mal estava começando.
Galdino já estava acostumado quando, depois de um ano, suas regras passaram a vir duas vezes ao mês. Então não passaram, cogitou, chegaram mais. Acessou a Internet, e procurou se tratar por imprópria conta própria. Informações desencontradas. Leu e releu um artigo de famoso ginecologista dentuço (tinha enormes incisivos), incisivamente a favor da não menstruação. Uma “sangria inútil” terceiro ele, pois já usara duas vezes a palavra segundo. E um dos tratamentos recomendados eram as pílulas anticoncepcionais. Dizia-se sentir falsamente acusado de garoto de programa, digo melhor de propaganda dos laboratórios: “eles só fabricam o que a demanda manda”, escreveu. De acordo com ele, não havia acordo algum com a indústria farmacêutica. Tanto isso era verdade, que insistia haver duas contra-indicações absolutas: fumantes e idosas vaidosas. Por causa do perigo de trombose.
Ele não era vaidoso, mas idoso e fumante, sim. Pior: era homem, outro fator de risco muito importante. Procurou duas coisas: não se impressionar e uma segunda opinião. Não achou a primeira. Não a primeira opinião, claro, mas não se impressionar. Contudo, encontrou não somente segundas, como terceiras, quartas, quintas e sextas-feiras. Ou seja, havia uma opinião para cada dia da semana. Uma delas tinha por base aérea, todavia, numa via muito convincente, o argumento da sabedoria da natureza. Ora, opinavam, se não fosse hora de acontecer, a natureza se encarregaria de suspender. Embora suspensão não fosse exatamente uma palavra politicamente correta quando se tratava de regras.
Havia outro cientista que declarava: não menstruar significa acumular ferro no organismo. E ferro pode causar doenças do coração. Por outro lado, ferro também serve para fazer facas de dois gumes, isto é, pode proteger e pode matar. Tanto que existe uma máxima mínima da sabedoria popular: quem será ferido com ferro, fere com ferro... Ou seria o contrário? Não lembrava muito bem. Era péssimo para citar jaculatórias sem jacular.
Mas havia uma razão definitiva para João Galdino querer continuar com suas regras desregradas: era falso dizer se tratar de “sangrias inúteis”. Pois havia Bancos de Sangue pagando dois mil por meio litro. E ele não era nenhum milionário para desdenhar desta grana...
24/09/2005 |