|
|
|
Raymundo Silveira Minha única companheira é singular: me acompanha na maior parte do tempo e parece solidária. O problema é o seu elevado grau de instabilidade. Durante o dia, cresce e decresce constantemente, atinge o tamanho mínimo com o Sol a pino e some durante a noite. É uma espécie de vampiro às avessas. Propendo a acreditar que só é às avessas em relação ao modo de aparição e desaparecimento... Quanto a outros aspectos estou em dúvida: cuido que ela crava os dentes na jugular do meu senso de realidade, bebe o sangue da minha vontade e engole o meu anseio de paz... Pois é, estou irritado. Não só irritado, vivo também assombrado com a minha sombra.
Já imaginaram andar, quase sempre, colado a alguém ou a alguma coisa? Nunca sou tratado nas pessoas do singular. Às vezes, nem na primeira. Quase só me tratam por vocês, eles dois, vós ambos. Nós, quer dizer, eu mesmo, dificilmente digo eu. Nos condicionamos forçosamente a esse nós que não tem nada a ver com plural majestático. Falo nós, no lugar de eu, de tanto ouvir vós, em vez de você. Não é só. Até aí seria tolerável. Nada como um clichê para justificar o injustificável. Ou, segundo os psicanalistas, para racionalizar uma idéia absurda: “sempre cabe mais um”. O mais grave é que perdi a privacidade, a individualidade, enfim, a liberdade.
Eis algumas situações aparentemente prosaicas, porém incômodas, ridículas, absurdas quando se tornam constantes. Pago tudo em dobro: desde a entrada do cinema até o imposto de renda. Do restaurante, ao alfaiate. Do cabeleireiro ao açougueiro. Se ainda não tivesse nascido, teria de pagar a dois parteiros. Se já tivesse morrido, tinha pagado dois papa-defuntos. E se decidisse me casar? Nem vou cogitar sobre isso, para não ofender a moral e os bons costumes. Ou então, para não transformar em rã, a ram deste computador, de tantos saltos que ia dar.
Um dia desses, quando a tarde já era tarde, e portanto minha sombra estava bem definida, perguntei para que me queria. “Te quero muito”, seguido de "te cuida, amigo", como não canso de ouvir repetirem na minha terra e eu de reverberar junto a ti, é óbvio, não precisa de explicação, não te quero "pra quê", te quero bem e pronto. E onde é a tua terra? Permaneceu em silêncio. Desconfio que sua terra não é só a sua terra e, sim, suas terras. Parece haver muitas outras além da minha. Às vezes tendo a me iludir; a sombra, porém, já deixou isto bem evidente. Suponho que ao deixar a minha, à noite, ela parte para outras em busca de algo sem a qual não poderia sequer existir: luz. Com efeito, onde já se viu sombra sem luz?
Muito difícil conviver com uma sombra tão desconcertante quanto a minha. Quem sabe, precisa me atormentar porque necessita disso para viver. Se acaso for o caso, está conseguindo. Durante as noites, quando sua presença deveria não existir, presente está. Senão fisicamente, digo melhor, umbraticamente, se deixa fixar no meu pensamento e não posso dormir. Todos os dias, mal o dia se torna dia... Bom dia, espero que tenhas acordado melhor... Hoje vais ter de me ouvir um pouco. Mas... Não tem mas, já falaste demais de mas... agora é minha a vez, estás te tornando mais do que a minha sombra, estás pretendendo ser o eu do meu outro eu.
Como pretender tanto: ser o eu do teu outro eu? sequer estamos juntos o tempo inteiro, diz isto porque, apesar do longo relacionamento, não me conheces, apenas me reconhece, mas não reconheces o que tenho feito por ti. Como poderia te conhecer se o teu comportamento era outro? é bem verdade: me acompanhaste para onde eu ia, todavia, seguir os passos de alguém não significa necessariamente amor... E quem falou em amor? tu é quem vive falando essa palavra, em vão, por sinal, já me disseste não acreditar em amor. Ah, então agora me acusas de ambigüidade? já te esqueceste do que me falaste sobre ela, ainda não há três dias? então, escuta: “se estás te referindo a ambigüidade, no meu caso tem a ver com minha postura enquanto sombra... Chama-se ‘em extensão’ remeter o sujeito a um outro significado, equivocá-lo, fazer ‘o advogado do diabo’ para retirá-lo de sua fixidez, não corresponder às expectativas, deixá-lo em falta, escorregar da imagem que ele projeta”, te lembras disso? pois bem, aprendi, que é a sombra quem se projeta da imagem, não o contrário... Me projeto apenas enquanto sombra, não como companheira.
Esqueces que nós... Aliás, eu, não quero nem posso ser retirado da minha fixidez, deixar de corresponder a expectativas, ficar em falta com qualquer coisa, nem escorregar da imagem por mim projetada, pois só “prevejo” o presente, prefiro prover assim a minha pretensa previdência, pois não disponho de tempo nem de perspectivas para usufruir os eventuais benefícios propostos por ti. Afinal, estás ligada ao porvir e eu, amarrado ao agora. Meu futuro foi o ontem. E não sinto saudades do amanhã...
06/09/2005
|