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Narciso “Eu
te amo loucamente. Não posso sequer conceber a idéia de te perder.
Prefiro morrer. És meu tudo. A única razão da minha vida”. Palavras
como essas às vezes são comuns e talvez, antigas, pudessem estar
entre as primeiras, que foram articuladas, quando as relações amorosas
ultrapassaram a necessidade animal de perpetuação da espécie. É provável,
também, que tenham sido ditas por um homem. Ou até quem
sabe, o contrário, uma ousadia feminina, uma Anna Karenina, uma
Emma Bovary. Mas sempre dirigidas a outra pessoa. Não parecia
assim, desta vez. Foram pronunciadas por um homem sozinho. Diante de
um espelho. Era apaixonado por si mesmo. Ninguém o atraía mais.
Fosse mulher ou outro homem. Não se tratava do narcisismo vulgar
descrito pelo Dr. Freud. Era uma paixão infinita. Arrebatadora. Intensa
como a de Romeu e Julieta. Ele beijava ardentemente toda a
superfície do próprio corpo, até onde os lábios pudessem alcançar.
Acariciava os seios e as partes íntimas, porém não se contentava
com masturbações. Queria sentir o amor em toda a plenitude. Ardia de
desejo. Ansiava por se possuir até as últimas conseqüências. Inclusive
a autopenetração, que parecia inatingível. E de tanto amor se
consumia... E misturava felicidade com sofrimento. As
sensações táteis da epiderme não se limitavam às zonas erógenas.
Afagava com a mesma sensualidade cada milímetro de pele. Passava horas a
alisar os cabelos, a nuca, os lobos das orelhas, como se fossem pétalas
de rosa. Sentia arrepios voluptuosos ao tocar com as pontas dos dedos de
uma mão, os braços e a palma e o dorso da outra. Palpava com um frêmito
de luxúria a raiz e a face internas das próprias coxas. Passava
horas a ler poemas e romances eróticos. Recitava, baixinho, os mais
lascivos versos, onde o sujeito e o objeto da identificação poética
eram uma só pessoa: ele mesmo. Dividia,
consigo, como se fosse dois, delícias de se provar juntos. Iguarias raríssimas.
E enfeitava-se de flores horas e horas dispondo as pétalas com
ternura extasiada. A
suíte onde dormia, era decorada como se estivesse sempre preparada para a
noite de núpcias de um rei. Cama redonda confeccionada em veludo. O teto
era todo espelhos de cristal. Os lençóis e as fronhas, de cetim. E
na parede, uma reprodução quase exata do “Narciso” de Caravaggio.
E os gemidos enchiam as madrugadas e risadinhas doces desse auto amor, se
faziam ouvir. No
entanto, essa estranha conduta não era antiga. Já tivera amante. A
mulher a quem dedicara todos os seus sentimentos. Todo o seu amor. Sua
vida. E era amado com igual devoção. Mas, de repente, a moça
sumiu. Evaporou-se. Encantou-se, como se diz nos contos de fadas. É
que a identificação deles, tão rara, a adoração mútua, a infinita
perfeição amorosa ultrapassaram os limites da razão. E aquele
sentimento santo acabou por não ser saudável. Tornou-se estranho.
Doentio. Afinal, eles tinham jurado se pertencer. Tinham se aprendido
tanto, tamanhas foram as afinidades, os pensamentos tão iguais, tão
absurdamente unidos, que não era de se estranhar sentir as carícias em
si mesmo e enxergar no espelho apenas a sua imagem. Ela tinha se misturado a
ele. Fundiram-se no cadinho da paixão. Como um amálgama de
metais preciosos http://www.raymundosilveira.net/ http://www.raymundosilveira.net/ "A literatura é uma
das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz quando escrevo e penso
que posso dar um pouco de felicidade aos leitores". |