Raimundo Silveira

Narciso

“Eu te amo loucamente. Não posso sequer conceber a idéia de te perder. Prefiro morrer. És meu tudo. A única razão da minha vida”. Palavras como essas  às vezes são comuns e talvez, antigas, pudessem estar entre as primeiras, que foram articuladas, quando as relações amorosas ultrapassaram a necessidade animal de perpetuação da espécie. É provável,   também, que tenham sido ditas por um homem. Ou até quem sabe,  o contrário, uma ousadia feminina, uma Anna Karenina, uma Emma Bovary. Mas sempre dirigidas a outra pessoa.

 Não parecia assim,  desta vez. Foram pronunciadas por um homem sozinho. Diante de um espelho. Era apaixonado por si mesmo. Ninguém o atraía mais. Fosse mulher ou outro homem. Não se tratava do  narcisismo vulgar descrito pelo Dr. Freud. Era uma paixão infinita. Arrebatadora. Intensa como a de Romeu e Julieta.  Ele beijava ardentemente toda a superfície do próprio corpo, até onde os lábios pudessem alcançar. Acariciava os seios e as partes íntimas, porém não se contentava  com masturbações. Queria sentir o amor em toda a plenitude. Ardia de desejo. Ansiava por se possuir até as últimas conseqüências. Inclusive a autopenetração,  que parecia inatingível. E de tanto amor se consumia... E misturava felicidade com sofrimento.

As sensações táteis da epiderme não se limitavam às zonas erógenas. Afagava com a mesma sensualidade cada milímetro de pele. Passava horas a alisar os cabelos, a nuca, os lobos das orelhas, como se fossem pétalas de rosa. Sentia arrepios voluptuosos ao tocar com as pontas dos dedos de uma mão, os braços e a palma e o dorso da outra. Palpava com um frêmito de luxúria a raiz e a face internas das próprias coxas.

Passava horas a ler poemas e romances eróticos. Recitava, baixinho, os mais lascivos versos, onde o sujeito e o objeto da identificação poética eram uma só pessoa: ele mesmo. Dividia, consigo, como se fosse dois, delícias de se provar juntos. Iguarias raríssimas.  E enfeitava-se de flores horas e horas dispondo as pétalas com ternura extasiada.

 A suíte onde dormia, era decorada como se estivesse sempre preparada para a noite de núpcias de um rei. Cama redonda confeccionada em veludo. O teto era todo  espelhos de cristal. Os lençóis e as fronhas, de cetim. E na parede, uma reprodução quase exata do “Narciso” de Caravaggio.  E os gemidos enchiam as madrugadas e risadinhas doces desse auto amor, se faziam ouvir.

 No entanto, essa estranha conduta não era antiga. Já tivera amante. A mulher a quem dedicara todos os seus sentimentos. Todo o seu amor. Sua vida.  E era amado com igual devoção. Mas, de repente,  a moça sumiu. Evaporou-se. Encantou-se, como se diz nos contos de fadas.

 É que a identificação deles, tão  rara, a adoração mútua, a  infinita perfeição amorosa ultrapassaram os limites da razão.  E aquele sentimento santo  acabou por não ser saudável. Tornou-se estranho. Doentio. Afinal, eles tinham jurado se pertencer. Tinham se aprendido tanto, tamanhas foram as afinidades, os pensamentos tão iguais, tão absurdamente unidos, que não era de se estranhar sentir as carícias em si mesmo e enxergar no espelho apenas a sua imagem. Ela tinha se misturado a ele. Fundiram-se no cadinho da paixão. Como um amálgama de  metais preciosos 

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"A literatura é uma das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz quando escrevo e penso que posso dar um pouco de felicidade aos leitores".
(Julio Cortázar)

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