|
|
|
À noite, não
faltou a Ceia. Era uma tradição. Bolos, assados, doces e castanhas de
caju. Ele era louco por pernil de porco. E as tias e primas
insistindo que comesse muito mais. Era um hábito antigo
daquela gente: seu jeito de agradar. Não se fez de
rogado. Comeu como nunca. Comportou-se quiném
o animal que acabara de devorar. Passava da meia
noite quando todos se recolheram. Lá pelas tantas
a coisa começou. Veio aos poucos, uma dorzinha de nada. Aqui, acolá.
Mas foi se acentuando. E logo as cólicas pareciam
punhaladas. E junto com elas, uma vontade incontrolável. Tentou se
conter. Naquele tempo, banheiro dentro de casa era raridade,
artigo de luxo. Estava escuro e não
foi fácil encontrar o interruptor. Luzinha fraca. Lâmpada de vinte
velas. Economia de energia. Procurou um urinol do mesmo modo que um
asmático grave busca o ar. Não encontrou. As cólicas aumentavam. Os
puxos eram cada vez mais fortes. E ele tinha absoluta certeza de que
se tentasse atravessar o corredor e enveredar para o quintal na busca da
casinha, não ia dar tempo. Ia ser um rastro de vergonha pela casa toda. Foi quando avistou
o jarro. Pensou, já desesperado: “Se há um jarro certamente haverá,
pelo menos, uma bacia”. Não havia. As primas esqueceram. A essas
alturas, não pensava em outra coisa: agachar-se. Aonde quer
que fosse. Nestas ocasiões desaparece a vergonha. E junto com ela vão valentia,
raiva, medo, remorso, tristeza, alegria, ambição, orgulho, amor, tesão...
Nada supera a urgência biológica. Não tem fé, esperança e
caridade que resistam .. É onde o pobre e o rico se igualam. E ele,
rei sem trono, choramingava: “Meu reino por um penico!” Mas não
havia penico. Nem onde e como procurar. Só restava aquele jarro de
porcelana... Herança passada de pais para filhos durante umas quatro ou
cinco gerações. Ainda procurou reservar um pouco da água em outro
recipiente, pensando no depois. Tudo inútil. Teve que esvaziar o
líquido mesmo no chão. Acocorou-se. E com humildade, encheu a
preciosa peça de museu. Até transbordar. A porta da frente,
ele conhecia. Aos primeiros raios da aurora, abriu, saiu e deixou
encostada. Nunca mais pôs os pés naquela casa. Nem naquela cidade. http://www.raymundosilveira.net/ "I
think that God, in creating man, somewhat overestimated his ability". |