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Raymundo Silveira Neurose Digital Ligo o computador: não funciona... Quer dizer, funciona. Só não abre a página da Internet. Pronto. Também faltou água. Quando o dia começa assim, não adianta querer fazer mais nada... Devia nem ter me levantado. Não posso sequer escovar os dentes. Tento tomar café: acabou o adoçante e o açúcar. Não disse? É só o começo. Busco o Word. Digito um P e sai um til. Agora é o telefone. Linha ocupada a cada chamada. Ó meu Deus! Porra... Não tem ninguém dentro desta casa? Todos dormindo e já são sete e meia. Me ajudem! Volto ao computador. A página da Internet ainda não abriu. Ninguém pra ajudar. A falta de conexão... Pode ser defeito do provedor. Depois de uma hora e meia de tentativa me comunico com alguém que manda aguardar na linha. Espero durante dez minutos. Num pé e noutro. Sapateando ao lado do telefone. Coça o nariz. Espirro. “Não, senhor. Tudo normal com o modem. O defeito é na sua máquina”. Procuro o endereço de um técnico, nas páginas amarelas da lista. Informática. Ligo para três empresas. São apenas revendedores. Depois de muita luta encontro Assistência Técnica. Todos os telefones ocupados. Ó meu Deus... Puta merda. Pra que me levantei? Vou me deitar de novo... Não. Não posso. Tenho de checar os e-mails. Pode haver algum importante. Não. Não espero nenhum, mas pode haver... Enfim, consigo falar com um técnico. Não faz visita em domicílio. Manda-me desligar todas as tomadas e levar a CPU. Para o outro lado da cidade, onde trabalha. “Não. Não podemos fazer previsão... O orçamento levará três dias. A fila é enorme”. Me coço todo. Espirro. Tento outra Oficina. “Atendemos em domicílio, sim... Mas terá de esperar quarenta e oito horas. Nosso pessoal é muito ocupado”. Procuro, mais uma vez, escrever. Configuro o Word. Não sai mais til em vez de P. Só que não há letras. Apenas símbolos estranhos. Telefono pra minha filha: “Acima da tela tem uma barra. Clique em formatar. Depois em ferramentas. A seguir, em opções. Depois há uma aba. Clique em compatibilidade. Abre um menu com quadrinhos à esquerda. Assinale o quadrinho ‘auto-espaçamento semelhante ao do Word 95...’.” Desligo sem me despedir. Não me lembro mais nem da primeira instrução... Não agüento mais... Me esforço para esquecer computadores. Começo a escrever a mão. É diferente... As idéias não fluem. Se, acaso, fluem, não têm nexo... Não há coerência. Mesmo as frases que parecem razoáveis, se tornam uma merda apenas porque as letras não têm formato... Insisto. Mais adiante quero inserir uma frase “genial” entre duas sentenças já escritas. Não consigo. Não há espaço. Escrevo nas margens do papel. E sai outra merda. Não posso continuar a escrever assim. Pura perda de tempo. Vai ficar uma porcaria. Volto ao computador. Já desisti da Internet e do Word. Insisto no Outlook, “Conectando...” Espero ansioso como se fosse o nascimento do primeiro filho. “Conectando...” Me encho de esperanças. “O servidor interrompeu subitamente a conexão... Veja a lista...” Vejo: “Erro de soquete...”. E mais um amontoado de caracteres que lembra a Pedra da Roseta. Só algumas palavras em inglês. Que não existem no dicionário. Volto a telefonar para o provedor. “Não senhor. Não somos provedores; somos servidores. Seu provedor é a Saconet”. Tento, mais uma vez, o Word. Procuro recordar as instruções da minha filha. Só me ocorrem as palavras ferramentas e opções. Daí pra frente, a tela é como se fosse um jornal editado em mandarim. Meus nervos estão a ponto de explodir. Não sei como nervos explodem, mas tenho essa sensação. Ó meu Deus...Cacete! São quatro e meia da tarde. Não agüento mais esse tormento. Vou esquecer. Juro que vou... Tenho de voltar ao tempo em que um livro velho, se desmanchando, me entretinha... O diabo é os e-mails. Pode haver algum importante.. 21/04/2005
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