|
|
|
Raymundo Silveira O Brasileiro que não falava Português João José
Nascimento da Silva tinha tudo para ser um brasileiro como outro qualquer.
Nasceu no Nordeste. Aos cinco anos seus pais se mudaram, primeiro para
Brasília e, depois, para o Rio de Janeiro. Aos doze, começou a trabalhar
e a estudar. Mais tarde se tornou torcedor do Flamengo. Adorava carnavais.
E assistia a todas as novelas de TV. Havia, porém, um único detalhe que
o tornava diferente dos seus compatriotas: não falava português. Não. Não era
mudo. Simplesmente nunca aprendeu este idioma. Tanto que falava
fluentemente o inglês, o francês, o castelhano, o italiano, o alemão.
Dizem que até o russo e o javanês. Por um lado, sua vida era um
tormento. Só conseguia se comunicar com os monoglotas de seu país, através
de mímica. Para almoçar num restaurante simples, por exemplo, se a intenção
fosse comer bife, tinha de pôr
as mãos ao redor de uma porção imaginária de carne e mugir. Se a
escolha fosse aves, agitava
os braços dobrados sobre o tronco e cacarejava. Dificilmente comia peixe.
Para poupar esforço e imaginação. Sua sorte foi ter
ido morar no Rio e conseguir empregos em hotéis de luxo. Obtinha uma boa
renda. Obviamente, não como tradutor. Sua função era, sobretudo,
divertir os hóspedes estrangeiros. Era uma espécie de bobo da corte da
hotelaria. O simples conhecimento de que jamais saíra do Brasil e, mesmo
assim, não aprendera o idioma pátrio, era, por si só, motivo de
curiosidade. Contudo, o grosso de sua renda eram mesmo as piadas. Graças
a estas, choviam gorjeias que, no final do mês, valiam dez vezes mais do
que o salário fixo. Alguém haveria de indagar: “Como ele aprendia as
piadas, se não falava português?” Muito simples: bastava observar o
comportamento dos conterrâneos. Principalmente, o dos políticos. Quase
todo o repertório foi acumulado durante a sua fase brasiliense. Mas nem só de
piadas vive o homem (nem a mulher). Nascimento da Silva também faturava
fazendo hora extra. Orientando clientes pouco acostumados aos usos da
terra e servindo, aí sim, de intérprete entre eles os próprios. Ora,
ocorreu que numa determinada ocasião, uma senhora norte-americana grávida
de quatro meses, abortou. E as condições deste abortamento foram tragicômicas.
A gringa expeliu tudo dentro de um bidê. Nascimento foi chamado para
socorrer a senhora enquanto chegava uma ambulância e viu tudo. Poucos
dias depois foi convocado para orientar outro casal. Agora, ingleses que não
conheciam o dito bidê. Então, o hóspede perguntou: “What is this? Is
it to put baby in?” Nascimento da Silva nem pesou: “Not at all.
It is to put baby out”. A vida do
Nascimento só se complicou quando ele, teimoso, se meteu a querer
aprender português. Bem feito. Onde já se viu uma coisa dessas, sô. Então,
em vez de se divertirem com as suas piadas, que não entendiam mesmo, foi
a vez dos seus patrícios rirem por último. Ou seja, dele mesmo. Certo
dia, passando pelo calçadão
da avenida Atlântica, sobressaltou-se ao ver uma senhora tropeçar e cair
de “mau jeito”. O filhinho ao lado dela pôs-se a chorar e a implorar:
“Moço, por favor, acuda a mamãe”. Nascimento acudiu. Mas antes quis
mostrar seu progresso no aprendizado daquele estranhíssimo idioma:
“Menino precisar aprender português. Non se dizer a cu da mamãe. E
sim, o cu da mamãe”. http://www.raymundosilveira.net/ "I
think that God, in creating man, somewhat overestimated his ability". http://www.raymundosilveira.net/ "A literatura é uma
das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz quando escrevo e penso
que posso dar um pouco de felicidade aos leitores". |