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Raymundo Silveira Tinha
cinqüenta e oito anos, uma família pra sustentar e um câncer de próstata.
Foi operado e depois tomava “banhos de luz”. Submetia-se a tudo com
resignação. Mas os médicos indicaram também castração. “Isso não,
doutor. Prefiro morrer”. “Amigo, a vida acima de tudo. Castrado ou não
você ficará diferente. Além disso, seus testículos serão substituídos
por outros e...” “Outros iguais a esses?” “Não! Isso é impossível.
Serão de acrílico”. “Quero não, doutor. Obrigado. Prefiro a
morte”. E
o tratamento ficou incompleto. Deram-lhe dois anos de vida. No máximo. E
o tempo passou. Fazia cinco anos que tinha sido operado quando,
casualmente, encontrou o seu médico. “Você?” E abraçou-o. “Eu
mesmo, doutor.” “Então, fez o resto do tratamento?” “Sim e não,
doutor”. “Como assim?” “É uma história comprida e...”
“Homem, vá à clínica hoje à tarde. Preciso ouvir”. Foi
pra Serra Pelada.Com uma mão na frente e outra atrás. Tornou-se
garimpeiro. A família ficou só e sobrevivia de um salário mínimo da
aposentadoria dele. Passou fome. Sentia dores. A doença estava
progredindo. Mas ele tinha fé em São Francisco do Canindé que ficaria
bom. E batia bateia desde antes do Sol nascer até se pôr. Parece que São
Francisco foi um ótimo urologista. Pelo menos no caso dele. Parou de
sentir dores. Não urinava mais sangue. Sentia-se curado. “Sem
mais, nem menos?” Perguntou o médico. “Bem, doutor, não foi também
assim. Claro que fiz uma promessa pro santo. Que se eu ficasse bom e
encontrasse ouro, levaria dois ex-votos pra Canindé. Dois ovos de
galinha”. “Conta essa história direito, rapaz. Então pagaste ao
santo com dois ovos de galinha?” Não
eram precisamente ovos de galinha. Eram ovos de ouro maciço. Só que do
tamanho de ovos comuns. Conforme prometera. Depois de seis meses de
trabalho encontrou algumas pepitas. Mais tarde, achou o grande prêmio.
Extraiu ouro suficiente para mandar fabricar não apenas dois, mas quatro
ovos de ouro maciço. “Levei
dois e entreguei no Convento do Canindé. O frade não queria receber. Eu
disse que era uma promessa. Que teria de pagar. Ele aceitou. Com a condição
de vender e distribuir o dinheiro com os pobres. Fizesse o que achasse
melhor, contanto que considerasse cumprida a minha promessa e me abençoasse.
Em nome de São Francisco”. “E
com o resto do ouro, o que você fez?” “Mais dois ovos, doutor. Só
assim tive coragem de me operar. De acrílico, nunca. Mas de ouro, a história
é outra...” http://www.raymundosilveira.net/ "A literatura é uma
das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz quando escrevo e penso
que posso dar um pouco de felicidade aos leitores". |