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Raymundo Silveira O Parto Estava me afogando. Não sei quem me retirou da água. Quando percebi que eu era eu novamente, havia uma mulher debruçada sobre mim. Sua boca na minha boca. Foi bom estar vivo. Mas a alegria transcendeu a isso. A emoção suplantava qualquer espécie de prazer que sequer imaginara existir. Era como sentir o privilégio da criação. Como se estivesse recebendo o sopro de vida que originou o primeiro Homem. Com os lábios colados aos meus, soprava um ar que se misturava ao que havia dentro de mim e me transportava para um lugar que nunca imaginei existir. Jamais fui o mesmo. Desde aquele, instante passei a segui-la cegamente. Não me rejeitou, a princípio. Pelo contrário, incentivava aquela relação como se fora eu o beneficente. Não o favorecido. A princípio, cheguei a imaginar que fôssemos dois ébrios que nos escorávamos um no outro e considerávamos suficientes o calor recíproco, a falsa euforia, o mútuo desabafar das mágoas. E que teríamos embarcado numa canoa de solidariedade, deixando para trás o cais da realidade, em busca da ilha da ilusão. Estava enganado. Tinha passado a depender dela. Na verdade, não sabia se estava solto ou encarcerado. Objetivamente, não estava preso. Mas não me sentia assim. Alguma coisa fora do alcance dos meus sentidos, uma espécie de percepção extra-sensorial, me dizia que não me encontrava livre. E não estava mesmo. As amarras da dependência me prendiam. E apenas por esse motivo não sentia medo. Tampouco, tinha qualquer sensação opressiva de privação da liberdade. Desconfiava, no entanto, de que não seria assim para sempre, embora não tivesse idéia do quanto duraria aquela “prisão”. Nem como seria o desfecho. Não sei o que é amor. Mas estou convencido de que aquilo não era. Sentia-me ligado a ela por uma corda. Mais. Muito mais: por um cordão. Invisível cordão umbilical que nos unia. Iludia-me, acreditando que vivíamos uma espécie de simbiose. Tarde demais, percebi que não passava de um parasita. Para si. Eu recebia tudo o que precisava para viver e devolvia o rejeito. De fato, não havia parasitismo algum. A realidade é que estava sendo gestado e não percebia. Ainda assim, cada etapa da relação podia ser comparada com isso mesmo. A fecundação, a formação dos anexos e o desenvolvimento do meu próprio cérebro-embrião duraram um período equivalente ao de um ciclo gestatório. Como um bebê, não percebia que incomodava. Que fazia sofrer. Só mais tarde pude perceber o desconforto que causei. As náuseas, as noites insones, as dores, o cansaço físico, a estafa emocional, o medo do que viria pela frente. E as tarefas incômodas a que era obrigada a assumir, os cuidados extraordinários a que tinha de se submeter. Por causa das modificações importantes que lhe ocorriam na mente e no espírito. O parto foi subitâneo, inesperado, rápido demais. E, além de tudo, não houve aleitamento algum. A separação foi brusca e irreversível. Alguma coisa, que ainda não sei o que foi, interferiu para que todos os laços fossem desfeitos sem nenhuma complacência. Nada restou. Até a placenta ela comeu. 22/03/2005 "A literatura é uma
das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz quando escrevo e
penso que posso dar um pouco de felicidade aos leitores. E quando digo
felicidade, não estou me referindo a uma felicidade beata: felicidade
pode ser exaltação, amor, cólera..."
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