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O Pintor Sua
busca da beleza era obsessiva. Em nome dela sujeitava-se a qualquer
circunstância. Inventava um outro eu, alucinado, até, para poder agir
livremente, sem precisar explicar suas razões. Ninguém iria entender,
mesmo, a nobreza de seu intuito. O quanto sofrera e pesquisara
pra chegar ao caminho que agora adotava. Lembrou-se
da vida. De tudo. Lembrou-se da mãe, extremamente cuidadosa quanto
a limpeza. Coitada, seu amor cheirava a desinfetante. A severidade
do pai. Apanhava tanto. Pelos motivos mais banais. Ele próprio ia
buscar a palmatória. Enquanto era surrado nas nádegas, com as calças
arriadas, já nem gritava. Olhava o tempo todo para uma reprodução
de Monet, pendurada na parede. Tão linda, tão iluminada que o fazia
esquecer os açoites. Nem ele mesmo sabia por quê: parece que mergulhava
na figura e ia viver sem problemas lá dentro, naquele mundo de fantasia. Recordou
seus gritos aterrorizados, quando os meninos mais velhos o molestaram no
banheiro da escola. Ele não queria. Ele não era assim. Só fazia pelo
pavor de apanhar. Eram tantos e mais fortes. Se contasse em casa apanhava
ainda mais. E na certa iria, mais uma vez, se contorcer em cólicas e
despejar aquele piriri nervoso, que o acometia em qualquer situação de
stress. Vergonhosa ocorrência, que acompanhou sua timidez e sua
esquisitice a vida inteira. Lembrou-se
também de como aos catorze anos descobriu a pintura e
mergulhou de cabeça nesta arte. Tinha o incentivo da mãe. O pai,
esse reprimia, alegando que ele não tinha o menor talento. Além
disso, vencer na vida através deste ofício não era pra qualquer um.
Talvez fosse medo de que fracassasse, ou de que fosse vitorioso e o
sobrepujasse. Nunca entendeu aquele pai. Mesmo
assim, não desistiu. Como os
Impressionistas, fazia tentativas acuradas e objetivas, para
transformar a realidade visual, em efeitos
transitórios de luzes e de cores. E, tinha certeza de que com o tempo
reproduziria as imagens projetadas sobre a água e a reflexão
colorida das suas ondulações. Captaria o contraste, entre a sombra e os
raios solares, de uma forma especial, como ninguém fizera. Abandonaria o
uso do cinza e do negro. Assim, para reproduzir as sombras, substituiria
as cores tradicionais por aquelas, que melhor traduzissem as suas sensações.
Mais importante do que isto, aprenderia a construir objetos, através de técnicas
específicas, harmonizando, ou contrastando as cores, de acordo com a
incidência da luz solar sobre eles. Seria um novo Van Gogh. Como o mestre
holandês, tinha uma preferência pelo amarelo. Todavia, ao contrário
dele, teria a genialidade reconhecida ainda em vida. Aos
que tentavam dissuadi-lo, nada respondia. Pensava consigo próprio: Serei
um novo Monet. Um Pizarro brasileiro. Um Cézanne tropical. Vou
tapar a boca desta gentalha. Ainda os verei, nos meus vernissages, a me
beijarem as mãos. A implorarem que venda uma das minhas telas. E ele
venderia sim. Mas cobraria caro. Pagariam o preço da sua arte e do
desaforo de ter depreciado o seu talento. Seus quadros seriam
disputados e arrematados a peso de ouro na Sothebys de Londres e na Christies de Nova York. Estava certo de que seria um formidável
inovador. Nada
o desviaria de seus propósitos. Se os estúpidos não entendiam sua obra,
se os medíocres não apreciavam a originalidade dos materiais que
utilizava, iria persistir na busca até descobrir o seu espaço. Em
algum lugar, a sua obstinada luta seria viável. E vagava ,
como um Diógenes, a procura de respostas. Solitário, visionário. No
entanto, não era louco. Sua lucidez avançava além do ponto,
aonde o resto das pessoas podia enxergar. Ele via através. Via
longe. Havia
chegado à conclusão de que apenas um lugar aceitaria suas idéias
inovadoras. Então, inventou-se o que não era, para conseguir
ser. E, nessa busca da perfeição, ele mesmo se
encarregava de recolher diariamente o material
para as tintas, com a paciência e o desprendimento dos iluminados. Tinha
chegado a essa fórmula depois de quase uma vida de pesquisas árduas.
Queria uma originalidade de cores jamais conseguida, sequer pelos
grandes mestres, que estudara tão exaustivamente. Pretendia, além
de tudo, levar às ultimas conseqüências a sua fixação ecológica
no reaproveitamento orgânico.
Pesquisou, também todos os tipos de pincéis, experimentando as
novidades e, mesmo, retornando aos recursos da antiguidade . E,
o resultado, surpreendente, foi o purismo de usar as próprias mãos, pois
desenvolvera uma tal sensibilidade nos dedos, que nenhum outro instrumento
lhe daria os recursos, de que se aproveitava.
Quanto às telas, depois de passar por incontáveis experiências,
buscando o seu ideal de textura e de absorção, chegou à conclusão
que apenas os afrescos poderiam se aproximar da perfeição que
almejava. Seus temas eram abstratos, mas tinham uma crueza
e uma veracidade que chocavam todos os sentidos. E as cores agressivas,
remetiam a radiações policromáticas, típicas de terra fina contendo
argila e óxido de ferro hidratado. Aludiam ao pardacento de fezes reservadas por
diferentes períodos de tempo, no relento. Outras ainda lembravam
o ocre de copiosas diarréias misturadas com sangue e muco, dos
intestinos de alguns internos mais obstipados, que dividiam com ele
as acomodações. Não fora à toa, que escolhera tão acertadamente
se isolar naquele inusitado atelier, onde mesmo os ruídos, os
sofrimentos e as fisionomias alucinadas das pessoas lhe davam inspiração.
Ali tinha encontrado as respostas, a perfeição, o amor e uma
relativa paz. |