Raimundo Silveira

O Pintor

Sua busca da beleza era obsessiva. Em nome dela sujeitava-se a qualquer circunstância. Inventava um outro eu, alucinado, até, para poder agir livremente, sem precisar explicar suas razões. Ninguém iria entender, mesmo,   a nobreza de seu intuito. O quanto sofrera e pesquisara pra chegar ao caminho que agora adotava.

  Lembrou-se da vida. De tudo. Lembrou-se da mãe,  extremamente cuidadosa quanto a limpeza. Coitada, seu amor cheirava a desinfetante. A severidade  do pai. Apanhava tanto. Pelos motivos mais banais. Ele próprio ia buscar a palmatória. Enquanto era surrado nas nádegas, com as calças arriadas, já nem gritava. Olhava o tempo todo para uma reprodução de Monet, pendurada na parede. Tão linda, tão iluminada que o fazia esquecer os açoites. Nem ele mesmo sabia por quê: parece que mergulhava na figura e ia viver sem problemas lá dentro, naquele mundo de fantasia.

  Recordou seus gritos aterrorizados, quando os meninos mais velhos o molestaram no banheiro da escola. Ele não queria. Ele não era assim. Só fazia pelo pavor de apanhar. Eram tantos e mais fortes. Se contasse em casa apanhava ainda mais. E na certa iria, mais uma vez, se contorcer em cólicas e despejar aquele piriri nervoso, que o acometia em qualquer situação de stress. Vergonhosa ocorrência, que acompanhou sua timidez e sua esquisitice a vida inteira.

 

Lembrou-se também  de  como aos catorze anos descobriu a pintura e mergulhou de cabeça nesta arte. Tinha o incentivo da mãe. O pai, esse reprimia, alegando que ele não tinha o menor talento. Além disso, vencer na vida através deste ofício não era pra qualquer um. Talvez fosse medo de que fracassasse, ou de que fosse vitorioso e o sobrepujasse. Nunca entendeu aquele pai. 

 Mesmo assim, não desistiu. Como os Impressionistas, fazia tentativas acuradas e objetivas,  para transformar a realidade visual, em efeitos transitórios de luzes e de cores. E, tinha certeza de que com o tempo reproduziria as imagens projetadas sobre a água e a reflexão colorida das suas ondulações. Captaria o contraste, entre a sombra e os raios solares, de uma forma especial, como ninguém fizera. Abandonaria o uso do cinza e do negro. Assim, para reproduzir as sombras, substituiria as cores tradicionais por aquelas, que melhor traduzissem as suas sensações. Mais importante do que isto, aprenderia a construir objetos, através de técnicas específicas, harmonizando, ou contrastando as cores, de acordo com a incidência da luz solar sobre eles. Seria um novo Van Gogh. Como o mestre holandês, tinha uma preferência pelo amarelo. Todavia, ao contrário dele, teria a genialidade reconhecida ainda em vida.

 Aos que tentavam dissuadi-lo, nada respondia. Pensava consigo próprio: Serei um novo Monet. Um Pizarro brasileiro. Um Cézanne tropical.  Vou tapar a boca desta gentalha. Ainda os verei, nos meus vernissages, a me beijarem as mãos. A implorarem que venda uma das minhas telas. E ele venderia sim. Mas cobraria caro. Pagariam o preço da sua arte e  do desaforo de ter depreciado o seu talento. Seus quadros seriam disputados e arrematados a peso de ouro na Sothebys de Londres e na Christies de Nova York. Estava certo de que seria um formidável inovador.

 Nada o desviaria de seus propósitos. Se os estúpidos não entendiam sua obra, se os medíocres não apreciavam a originalidade dos materiais que utilizava, iria persistir na busca até descobrir o seu espaço. Em algum lugar, a sua obstinada luta seria viável. E vagava , como um Diógenes, a procura de respostas. Solitário, visionário. No entanto, não era louco.  Sua lucidez avançava  além do ponto, aonde o resto das pessoas podia enxergar. Ele via através. Via longe.

  Havia chegado à conclusão de que apenas um lugar aceitaria suas idéias inovadoras.  Então, inventou-se o que não era, para conseguir ser. E, nessa busca da perfeição,   ele mesmo se encarregava de recolher diariamente o material para as tintas, com a paciência e o desprendimento dos iluminados. Tinha chegado a essa fórmula depois de quase uma vida de pesquisas árduas. Queria uma originalidade de cores jamais conseguida, sequer pelos grandes mestres, que estudara tão exaustivamente. Pretendia, além de tudo,  levar às ultimas conseqüências a sua fixação ecológica no reaproveitamento orgânico.  Pesquisou, também todos os tipos de pincéis, experimentando as novidades  e, mesmo, retornando aos recursos da antiguidade . E, o resultado, surpreendente, foi o purismo de usar as próprias mãos, pois desenvolvera uma tal sensibilidade nos dedos, que nenhum outro instrumento lhe daria os recursos, de que se aproveitava.

  Quanto às telas, depois de passar por incontáveis experiências, buscando o seu ideal de textura e de absorção, chegou à conclusão que apenas os afrescos poderiam se aproximar da perfeição que  almejava.  Seus temas eram abstratos, mas tinham uma  crueza e uma veracidade  que chocavam todos os sentidos. E as cores agressivas, remetiam a radiações policromáticas, típicas de terra fina contendo argila e óxido de ferro hidratado. Aludiam ao pardacento de fezes reservadas por diferentes períodos de tempo, no relento. Outras ainda lembravam o ocre de copiosas diarréias misturadas com sangue e muco, dos intestinos de alguns internos mais obstipados, que dividiam com ele as acomodações. Não fora à toa, que escolhera tão acertadamente  se isolar naquele  inusitado atelier, onde mesmo os ruídos, os sofrimentos e as fisionomias alucinadas das pessoas lhe davam inspiração. Ali tinha encontrado as respostas, a perfeição, o amor e  uma relativa paz.

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