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Raymundo Silveira O Porão Escuta. As crianças e eu ponderamos e concluímos: melhor que saias de casa. Sem arrodeios, menos sofrimento. Cuidou ser brincadeira. Leviandade não era. Conhecia a personalidade da esposa. Mil anos comprimidos em dezenove. Grandes surpresas tolhem reações. Às vezes imbecilizam. Não reagiu... Turbilhões de idéias. Buscou no passado, e arrastou a rede até o momento da tempestade. Nenhum por quê.
Introvertido, não tomava iniciativas. As poucas namoradas o abordavam. Casamento como outro qualquer: Ternos Natais, divertidos carnavais, quartas-feiras de cinzas de permeio. Raras divergências sufocadas em nome da paz. Pequenas rusgas iam para o porão. Estranho compartimento. Tão subestimado... Raramente ia lá. A primeira vez, mal entreabriu a porta. Apenas emaranhados de teias de aranha, amontoados de cacaréus, ratos, baratas... Retrocedeu assustado.
Depois, uma curiosidade compulsiva o impeliu. Jamais imaginou naquela casa esconderijo tão estranho. Potes, caixotes e sacas repletos de coisas desconhecidas. Por trás do vão de uma escada, uma espécie de elevador. Daqueles utilizados antigamente em lojas, para transportar mercadorias. Um tablado suspenso por cordas acionadas através de roldanas. Não tinha idéia de onde vinha a força. Percebeu que ia dar na sala principal da casa, alguns metros acima. Vira o bastante... Saiu e nunca mais voltou. A não ser em sonhos.
Agora pensava: teria tal lugar a ver com a decisão da mulher e dos filhos? Para que servem perguntas? Houve muitas perguntas desde quando o mundo é mundo. Respostas para todas, seria idiota a resposta, ou a pergunta. Decidiu não perguntar nada. Só uma coisa o intrigava e provocava um certo remorso. Por que não explorou melhor aquele porão? Que forças invisíveis teriam impedido? Mais perguntas irrespondíveis. Então, resolveu evitar.
Associava a ruptura a cenas artificiais. Comparou com as das novelas e se riu. Pareciam caricaturas. Tudo arquitetado, sob encomenda para comover. Tudo tão artificialmente trabalhado para parecer o que não era. Atrair pessoas simplórias através de identificações subliminares. A realidade é única. Nem a literatura é capaz de imitá-la. A cena de separação que mais o impressionou foi descrita em “Suave É A Noite”. A resignação estóica do personagem era compatível com os fatos. Quem escreveu, além de artista, devia ter experimentado. Pura fantasia.
Cada ator tem um discurso. A sua própria filosofia. Única, intransferível, irreproduzível. A natureza humana é complexa. Está além da capacidade de imaginação de qualquer Shakespeare. Assim como há laivos de hipocrisia entre pessoas sinceras, há bondade entre as “más” e rasgos de grandeza entre as pobres de espírito. O bem e o mal absolutos não existem: são imposturas maniqueístas.
A esposa contará a seu favor os motivos da separação. Ele terá a própria versão. Diferentes uma da outra. Ambas simultaneamente falsas e verdadeiras. Ainda que revirassem o conteúdo daquele porão, jamais chegariam a um consenso. Que a ninguém interessaria. Nem aos dois. A indiferença dos amigos e parentes talvez só pudesse ser comparada com o prazer dos comentários; dos disse-me-disses. Então, para que porquês? Foi para o quarto, fez as malas levou para o automóvel e sumiu numa estrada que não havia...
23/11/2005
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"A diferença entre
ficção e realidade? Ficção tem que fazer sentido." |