Depois de terem tido
muito prazer em se conhecerem, delegado e escrivão sentaram a mesas
separadas para trabalharem juntos pela primeira vez. O chefe começou a
tomar o depoimento do preso, enquanto ditava para o outro: não me lembro
muito bem do que aconteceu, estava com o Mão Seca e o Bola Sete, não
tínhamos nenhum de comer, fazia três dias que eu não comia nada, só me
davam cachaça pra beber e cola pra cheirar, quando passamos por perto do
restaurante, estava cheio de barão, não... escreva como estou dizendo...
de barão, o depoimento tem de ser compatível com as palavras do
depoente, depois ele tem de assinar ou pôr as digitais e algum advogado
pode... escreva: por perto do restaurante, estava cheio de barão, o
cheiro da comida me fez tremer de vontade, vi um garçom pondo as sobras
no lixo... no-li-xo, depois? pedi pra ele me dar ao menos um resto de
pirão de peixe e ele mandou eu me catar... catar? sim, catar. Pronto...
Só me lembro até aí, quando acordei estava num quarto gradeado com os
dois meninos e um cara mais velho, que já se encontrava lá, o Barrão.
Peraí, doutor, a fita enganchou. Esta birosca já tinha idade de ter um
computador, pelo menos um dinossauro do tipo 486, pronto? Pronto... o
Barrão. De repente, entrou um gordinho que parecia filho de bacana e
estava muito doidão, depois disseram que tinha se picado com uma tal de
heroína e andou dando uns esporros... uns esporros... daí o Barrão disse
pra gente segurar o gordinho porque ele queria comer o cu dele... cu tem
acento? só se tiver cansado... Quê? desculpe, é brincadeira, uma piada
antiga, assim o trabalho fica menos carregado e a gente agüenta melhor
esta merda... cu num tem acento, não. O-cu-dele, pronto. Se nós não
segurássemos, ele comeria o nosso e ainda dava umas porradas, então não
teve jeito, tivemos de segurar... ti-ve-mos-de-se-gu-rar, pronto...
O depoimento já se arrastava há duas horas. A sala estava abafada, cheia
de nuvens de fumaça, do tédio dos dois policiais e da indiferença do
preso. Divezenquando ambos enxugavam as testas e pareciam estar loucos
de vontade de terminar aquilo o que, de fato, aconteceu logo depois da
confissão do estupro do gordinho. Sargento, pode conduzir a vítima até o
IML, esta é a hora da troca do plantão e estes médicos vagabundos custam
a chegar, por isso só saia de lá quando assistir à perícia e vir ele
preencher o laudo. Por favor, não esqueça de me trazer uma cópia, eles
têm mania de remendar o troço que escreveram, sob pressão do advogado.
O criminoso foi transferido para uma prisão de segurança máxima, pois
foi considerado de alta periculosidade pelo psicólogo da polícia. Ele, o
Bola Sete e o Mão Seca tinham matado o garçom, e o laudo do perito
quanto ao estupro era claro: concluía que houvera lesão completa do
esfíncter anal e indicava cirurgia imediata, sob pena de lesão
permanente, o que significava que o gordinho viveria se cagando sem
querer e sem parar. A cela onde puseram o marginal fora projetada para
comportar seis prisioneiros, porém havia vinte. A chegada de outro
detento tornou explosivo o clima de revolta que já havia. De noite
decidiram tirar a sorte de quem morreria e de quem mataria. Tocou ao
novato o prêmio de ser o carrasco e ele foi imediatamente investido nas
novas funções. A vítima seria o Chico Bacuri, que estava lá por causa do
furto de um toca-fitas, mas perdeu no par ou ímpar para todos os demais,
sem nenhuma exceção. Lá pelas duas da madrugada o primeiro foi acordado
por um dos companheiros de cela. O Bacuri, que não havia dormido,
começou a chorar. Quando o primeiro perguntou ao líder como faria o
serviço, te vira, dá um jeito e depressa, senão tu vai no lugar dele...
e todos achavam graça.
Eu tinha de acabar com o Bacuri, mas não sabia como, ainda fiz uma
promessa pra São Francisco do Canindé me dar uma luz para eu encontrar
ao menos um estilete, mas não tinha nada, foi então que o santo me
ajudou: eu me lembrei que tinham tirado o meu cinturão na delegacia, só
andava segurando o cós das calças e o Barrão me perguntou se eu queria
um pedaço de barbante, claro que aceitei e aquilo, abaixo de São
Francisco, salvou a minha vida, pois com ele eu enforquei o Bacuri, quem
segurou ele foi o Pé de Pato, o Manga Rosa e o Doido, disseram que
depois eu tinha de pagar a eles este favor, pagar com que eu ainda num
sei, só se for com mais reza pra São Francisco do Canindé, me lembro
também que o Porco acendeu uma vela que eu pensei que era pra botar na
mão do Bacuri quando ele tivesse morrendo, mas era só pra clarear e nós
enxergar melhor, o porco só queria ver, o Bacuri estrebuchou muito, mas
quanto mais estrebuchava, mais raiva eu tinha, tirei o barbante da
cintura e enrolei no pescoço e ele me pediu pela luz dos olhos da minha
mãe para eu não matar ele, aí minha raiva acabou, agora eu sentia
vontade de matar o Bacuri do mesmo jeito que tinha desejo de comer
aquelas comidas boas dos restaurantes de bacana, minha boca se encheu
d´água quando comecei a apertar o barbante no pescoço do Bacuri, ele
estrebuchou mais e botou meio palmo de língua pra fora antes de ficar
roxo e parar de suspirar...
14/08/2005