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Raymundo Silveira O Troféu Te falei pra me esperar na esquina da... Mas eu fiz questão de vir pra cá. Por que não podemos sair juntos? Bem, sabe como é. Essa gente é louca por uma fofoca. Vê. Tá todo mundo olhando. Quando sairmos vai ser o maior tititi. E daí? Tá com vergonha de mim? Não, querida. Pelo contrário. Acho ótimo que desconfiem... Sinto-me vaidoso e mais seguro de mim, até. Mas quero apenas que desconfiem... O divórcio ainda não foi homologado. Isso pode me prejudicar... Aliás, nos prejudicar. Quer que eu desça? Não. Agora não adianta mais. Deixa pra lá... Às vezes penso que não gostas de mim... Como pode pensar isto? Não só gosto, como dependo de ti. Se me deixasses, não suportaria esse trauma que estou passando... Para onde vamos? Para o motel, claro. Não quero ir pra motel. Hoje quero curtir a natureza. Tens uma casa de praia. Adoraria transar à beira-mar. Olhando o céu e as estrelas. Mas tem o caseiro... A mulher... Os filhos. É o mesmo que trepar no meio da rua. Telefona. Diz que queres ficar só. Ele não deve fazer perguntas. A menos que tenhas empregado um caseiro tagarela e indiscreto. Diferença de trinta anos. Ela, apenas dezoito. Ele médico e empresário. Rico. Dono de hospital grande. Só pode ser isto. Diziam. Não é possível uma menina nova e linda se apaixonar por um quase velho, casado... Está se divorciando. Mesmo assim. Não está na miséria. Tem emprego. Funcionária pública? Já era. Hoje em dia, declarar essa função num cadastro de butique é o mesmo que ter pendência no SPC. Há vinte e poucos anos era dos mais promíscuos. Traçava o que viesse. Especialmente o que viesse. Abominava ter de ir à luta. Lamentava a ironia do destino. O século vinte e um começou completando a guinada de cento e oitenta graus iniciada nos anos sessenta. Liberdade ampla, geral e irrestrita. Ou “liberou geral”, uma gíria da época. Mulheres ainda eram problema. Mas, agora, pela dificuldade de se livrar de algumas menos interessantes. O segundo obstáculo do sexo livre era, portanto, o assédio feminino. O primeiro, obviamente, o fantasma do HIV. Comparava a situação com uma certa lenda judaica. Um rabino visitou o Inferno e numa das salas deparou com uma multidão de condenados mortos de fome. Havia um panelão cheio de sopa. Cada infeliz portava uma enorme colher. O cabo era várias vezes mais longo do que os braços. Não havia qualquer dificuldade em retirar a sopa do caldeirão. Mas era impossível levá-la à boca. Como estás vestida por baixo? Só de collant e meia calça. Como tu gostas. Ótimo! A época do fetichismo vulgar... Das ligas e das meias pretas de renda... Coisa pra levantar pau de velho... Acabou há muito tempo... Com a tal espiã nua que abalou Paris. Nada mais gostoso do que uma meia-calça suadinha sendo arriada. Faz tremer de tesão. E fica tudo mais suculento para uma chupadinha aperitiva... Você não tem jeito... Eu também não... Fomos feitos da mesma argila. Acho que é por isso que jamais desgrudaremos. Enquanto uma fenda se abria entre as pernas e engolia o enorme pênis, a areia movediça da praia era outra boca maior se abrindo para engolir os dois. A ventania compactuava: soprava nas reentrâncias e nos relevos mais recônditos. O teto, um céu estrelado. As ondas vinham e voltavam imitando os movimentos de ambos. As mais vigorosas separavam-nos com alguma violência e atiravam-nos para distante um do outro. Algumas vezes na iminência dos orgasmos... E tudo tinha de recomeçar. Uma experiência inédita. Fantástica. Em casa, uma piscina olímpica de água aquecida. A convite dela, planejaram uma competição de atletismo sexual. Nado sincronizado. Nada de fora, porém. Imersão completa em plena transa. A idéia era que tudo acontecesse, até o fim, durante o mergulho. Quem não suportasse e saísse primeiro pagaria um prêmio surpresa. O perdedor só saberia o que ia pagar, depois da prova. Campeã de nado livre e mergulhadora exímia, já cantava vitória. Uma das poucas coisas que ele ignorava a seu respeito. Ela sabia que um homem de quarenta e oito anos, fumante inveterado e hipertenso não tinha condições de disputar com ela uma longa permanência debaixo d’água. Já havia, portanto, escolhido o troféu. Profundidade de dois metros e meio. Ela segurava, com ambas as mãos, as extremidades da escada. Escancarou as pernas e o envolveu. Mal conseguiu penetrá-la. Só suportou noventa segundos. Tentou se esquivar para subir à tona. Ela impediu com um abraço de urso. Desesperado para se livrar da “tesoura”, batia e se debatia em vão. O tronco se encontrava fortemente preso entre as pernas dela. Bolhas de ar saíam pela boca e pelo nariz. Aos borbotões. Aos poucos, perdia a capacidade de reagir. Até que se imobilizou. Somente as bolhas ainda subiam à superfície. Numa quantidade cada vez menor. Depois de algum tempo, também cessaram. Quando deixou a piscina, amanhecia. Enxugou-se, se vestiu e saiu de casa caminhando. No próximo orelhão ligou para a esposa. “A mercadoria foi despachada”. “OK. Pode deixar comigo os procedimentos de rotina. Apenas um ataque cardíaco de um menino brincalhão. Tenho tudo na ponta da língua. Se a chamarem pra depor, já sabe o que dizer. A sacola está no local combinado. Escaninho 21. Setor B. Segundo pavimento do aeroporto”. Estava! Então, tomou posse do troféu.
"A literatura é uma
das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz quando escrevo e
penso que posso dar um pouco de felicidade aos leitores. E quando digo
felicidade, não estou me referindo a uma felicidade beata: felicidade
pode ser exaltação, amor, cólera..." |