Raymundo Silveira

Pedra da Gávea

“Bordo com as mãos os versos que a minha buceta escreve, / orgia de desejos”. Escreveu esses versos na tela de proteção do monitor e os deixou correndo enquanto terminava um relatório. Esqueceu de apagar. Desceu para a garagem, apanhou o automóvel e saiu.

Verão. Calor de fornalha. O efeito estufa! A Terra fez uma opção preferencial por esta cidade, para alvo da sua ira. Só pode ser isso! Pensou enquanto dirigia. Ar condicionado no ponto máximo. Mesmo assim, transpirava. Tirou os sapatos, a calcinha e suspendeu a saia até a metade das coxas. Pelo rádio, entre uma música e outra, escutava as gotas de tempo se escoando antes de o locutor anunciar a hora certa.

Morava em São Conrado. Estacionou na garagem e tomou o elevador direto pra a cobertura. Escancarou as janelas. Uma forte brisa marítima começou a soprar. A paisagem era de tirar o fôlego. Os últimos raios do crepúsculo se refletiam nas águas do Atlântico. O contraste dos matizes provocava arrepios. A combinação do vermelho, do laranja e do amarelo da luz solar com o azul marinho do oceano, compunha um cenário colorido mais deslumbrante do que qualquer arco-íris. Sentia-se testemunha simultânea do berçário e do velório das cores. A silhueta da Pedra da Gávea sugeria, de fato, o mausoléu de um rei fenício.

 

Nua sob o chuveiro. Esguicho vigoroso da ducha. Jatos mornos escorrendo pela face e depois pelos seios e pelo baixo ventre. Não pôde evitar a livre associação. Acariciou os mamilos eretos. Tocou e massageou longamente os genitais. Penetrou-se com o indicador e o médio, agitando-os ritmicamente. Ondas de excitação perpassavam-lhe o corpo da cabeça aos pés.  Orgasmo iminente e frustrado. Soou o interfone. Atendeu no próprio banheiro.

“Seu” Alexandre era um pernambucano diferente. Alto, dolicocéfalo, aloirado, olhos esverdeados. Bonito, mesmo Quem sabe, um raro remanescente batavo, pouco ou quase nada miscigenado, dos tempos da invasão. Era o contínuo do escritório. Encontrava-se na portaria e pedia permissão para subir. Mensagem urgente do sócio. Trazia ordem para entregar em mãos.

Mal teve tempo de se enxugar. Vestiu um roupão e veio abrir a porta. O homem entrou e trancou-a a chave. Tinha as narinas dilatadas e resfolegava. Esboçou um grito que ele abortou com uma das mãos. Com a outra abriu a braguilha e sacou enorme peça duríssima, longa, roliça e macrocefálica. Amordaçou, algemou e a levou para a cama. Estuprou-a através de todos os orifícios. Nunca deu queixa na polícia. Nem sequer mandou despedir o empregado.

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"The only thing to do with good advice is to pass it on. It is never of any use to oneself."
(Oscar Wilde)

 

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