Raymundo Silveira

"PEGUEI-OS, SEUS SACANAS!"

Parecia um rebotalho de gente tangido pela brisa. Ainda assim caminhava. As passadas lentas davam a impressão de que jamais o levariam a algum objetivo remoto, senão a poucos metros adiante. Face emaciada, ombros caídos, pele lívida e turgescente. Traje roto, unhas maltratadas e quebradiças, sandálias de terceiros pés. Um espectro. E sorria. Não com alegria, amabilidade,  aprovação. Nem  irônico ou com desdém. Não expressava malícia, nem remetia a alguma emoção mais terna. Era um sorriso contrafeito, forçado, como se existisse somente para disfarçar uma decepção. Uma alegria de velório. Um infortúnio travestido de ventura. E não parava de dizer em intervalos cadenciados: “Peguei-os, seus sacanas. Enfim, peguei-os”.

Quem o visse hoje não ia acreditar que se tratava da mesma pessoa dos ontens. Muito rico e... Sonegador de impostos. Preferia sofrer enormes prejuízos a viver em paz com o erário.  Ser tributável era mais penoso do que ser miserável. Vivia revoltado. Tramando, a todo instante, métodos lícitos, ilícitos, explícitos e implícitos para burlar o fisco.

Quase  tudo o que tinha estava investido em imóveis. Uma pequena parte, que ele mantinha para as despesas do dia a dia (e o pagamento de multas) se distribuía em ouro e moeda estrangeira. Nunca aplicou um centavo no mercado financeiro. Não possuía automóvel. Só pra não pagar o licenciamento. As raríssimas siglas ir, iof, cpmf, iptu, inss, pis, pasep, fgts, confins e outras similares de que era tão carente o país onde morava, lhe causavam tamanha azia que uma caixa de bicarbonato não curava. Escutava, todas as noites, uma emissora de rádio, que fazia uma campanha sistemática contra tais abreviaturas.

Mas era uma luta inglória. O inimigo sempre dava um jeito de pegá-lo pelos flancos. Se não era um imposto era outro. Mesmo com todos os métodos heterodoxos de investimento, não lograva se esquivar. Pelo contrário. Esta idiossincrasia o tornava vítima freqüente de multas, juros e correções, a ponto de ter que pagar muito mais do que se cumprisse a lei. Quitava suas dívidas com o ouro que vendia e com o ódio que o consumia. Até que um dia não suportou mais. Decidiu vender tudo. Alienou todos os imóveis, menos o lugar onde morava, a preço de banana. E entesourou o dinheiro debaixo do colchão. Parte deste capital volátil, a inflação se encarregou de devorar. O resto estava liquidado, com as despesas correntes, em pouco mais de cinco anos.

Restava a  casa. Vendeu. Em  tempo  que escapou correndo, estava tudo acabado. A guerra terminara. Fora sua escolha. A prosseguir contribuinte, optou por virar  pedinte. Mas o fato é que não fora talhado pra mendigo, que mendigos alguns até se saem bem. Então virou  aquele farrapo humano que perambulava pelas ruas. Não mais remoendo a indignação contra as cobranças absurdas.   Agora saboreava o prato frio da vingança. Era um vencedor. Então, “ao vencedor as batatas”. E sequer batatas havia para  saciar a fome. Mesmo assim  uma  felicidade postiça, colada com a  saliva da sua raiva, o protegia da lucidez do arrependimento. E caminhava, sem direção, como que tangido pela brisa. E se repetia: “Peguei-os, seus sacanas. Enfim, peguei-os”.

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