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Raymundo Silveira Penitência Fazia vinte anos que não me confessava. De repente me deu vontade. Não sei por quê. Só sei que me deu vontade. Fazia também vinte anos que não andava de ônibus. Não me deu vontade. Só fui de ônibus porque os quatro pneus do automóvel estavam furados. Não me lembrava mais como era andar de ônibus. Agora tinha uma catraca que empurrei e não rodou. “Só passa se pagar”, me disse um moleque com cara de sagüi. Fazia também vinte anos que eu não via sagüis. Não entendo como fui achar essa parecença. O moleque da catraca começou a discutir comigo sozinho. Eu não dizia uma palavra. E ele discutia. Não lembro o que dizia. Só sei que todos os passageiros me olhavam como se eu fosse um ET. Uma senhora, que vinha logo atrás, pagou minha passagem e passou. Só assim o moleque me deixou passar. Todos continuaram a me encarar. Havia só um assento desocupado, ocupado por uma mulher. Quando fui me sentar ela deu um grito, se levantou e saiu. Só então percebi: estava só de cueca. Não sei por que tanta celeuma. Minha cueca não era ordinária. Era samba-canção, mas não era ordinária. Nem estava suja. Quando cheguei à igreja havia uma fila de dobrar quarteirão. Ninguém olhava pra mim. Peguei a fila e esperei a minha vez. Subitamente, o padre se levantou do confessionário e veio até mim. “O senhor vai se confessar? Então venha logo. Preciso lhe falar”. Mandou me ajoelhar de joelhos. E disse: “Não quero ouvir seus pecados. Depois lhe dou a absolvição. Quero só saber o que você faz”. “Ora, faço tudo que...” “Não. Quero saber o que faz pra viver”. “Sou médico”, respondi. “E ganha quanto por mês?” “Mais ou menos uns quatro mil”. “Porra! Isso é que é vida. Nesta merda de profissão de padre eu não ganho nem mil. Não sei pra que foi que eu fui... E sei. Fui ser padre obrigado pelos meus pais. Veja, estou aqui sentado aqui desde as oito da manhã, escutando putaria. Só tomei café com pão. Sem manteiga. Ainda nem almocei. E mesmo que tivesse tido tempo de almoçar não adiantava. A mulher nem acendeu fogo. Não tem nada em casa. E mesmo que tivesse, ela só dava almoço ao moço, filho dela”. “Mas o senhor não acha bom escutar os pecados dos outros, não? Eu pensei que os homens só iam ser padre pra isso”. “Ah, é? Pois venha aqui pro meu lugar. Passe aqui só meia hora e veja o que é bom pra tosse... Quer dizer, pra vomitar. Venha, fique no meu lugar”. Fui. Disse logo que só queria escutar os pecados das mulheres. E só das novas. Homens e velhas que saíssem ou ficassem esperando. O padre olhou pra todo mundo e fez um aceno com a cabeça concordando comigo e mandando que me obedecessem. Pois não agüentei nem a tal meia hora. Não tinha nada de bom. “Eu não dei esmola a um cego”. “Eu falei mal da minha vizinha”. “Eu não aceitei o meu marido”. “Eu tive maus pensamentos...” Opa! “Que maus pensamentos foram esses? Conte tudo” “Bem, eu quis que o meu marido morresse. E bem que ele merecia. Mas praga ruim num morre, não. Quanto mais ruim, mais dura...” Conversa chata. “Padre, tome o seu lugar”. “Viu? Vou largar tudo. Quero ganhar dinheiro. Quero mulher, como todo homem. E agora você é que tem que me dar absolvição.” “Eu?” “Sim, foi você que me confessou. Não me contou pecado algum. Só eu contei o meu. E não estou arrependido. Se fosse você não me absolveria. Faz se quiser...” 27/03/2005
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