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Raymundo Silveira Perdido Na Noite "... nada é mais fantástico e extraordinário do que a vida real...” (E.T.A. Hoffmann: O Homem de Areia) Meu lugar é o sonho. Quando descobri, detestei tudo o quanto é. Hábitos noturnos. O dia é homem: agressivo, bárbaro, violento... A noite é mulher: meiga, carinhosa, doce. Mal se desfazia a penumbra do ocaso, sentia uma alegria alvoroçada. Eu e a noite fomos mais do que amigos. E voltamos amantes. E nos demos um ao outro tudo o quanto dois amantes são capazes. Ela me dava principalmente emoções. Como todo amor, num incerto dia, quando já não era mais tão dia, ela chegou tarde. E saímos. Ela envolta no seu manto negro, bordado de estrelas. Eu, vestido com os meus sonhos. Caminhávamos lentamente pelos subúrbios, vazios de pessoas e cheios de quietude. Tão absortos um no outro que nos perdemos. Fechadas as estações de metrô. Seguíamos para frente e cada vez mais nos distanciávamos da origem. Nenhum táxi. Súbito, uma placa indicando uma delegacia. Esperássemos. Perdidos? Não viram a sinalização? Vimos. Mas não vimos aqui para dizer o que vimos ou não. Vimos pedir ajuda. Não há viaturas. Só posso fornecer orientação e uma planta. Seguimos. A orientação, não a planta. Existiam valas. Precisavam ser contornadas. Havia atalhos. Ruas sem becos e becos sem saídas. Ruelas tortuosas. Labirinto. Tontura. Labirinto e it. Ou. E continuávamos ainda mais perdidos, mas sempre caminhando. Derivando por vielas secundárias. Sentei num fio de pedra. O ânimo por um fio. Minha companheira não quis ou não pôde sentar. Uma ambulância de cruz vermelha parada numa luz vermelha. Tive de falar uma linguagem só minha, numa língua só deles: estamos perdidos e não passamos bem. Pois passem. Bem ou mal. Aguardamos que atravessem. E saíram cantando pneus. Um bistrô, um bar, o que fosse. Meia garrafa de vinho, quase de uma vez. Mais tonturas. Mais labirintos. Mais it. Suores. Soaram duas da madrugadamante. Ó noite, dá-me um pouco do teu sossego, uma gota do teu calmante, um raio do teu luar. Faz-te o que sempre me foste. Deita-me no teu regaço, me envolve com o teu manto, consola-me com o teu silêncio. Ou então, abrevia este calvário: amanhece nós dois. Três. Ainda faltavam quatro para a manhã Ser. A resposta foi um assobio. Não da noite, mas de outro dos seus amantes: um vento frio. Tive de me deitar no chão. Quanto o dia, cujos bramidos de vida eu agora via. E não ouvia. Dois táxis. Me encho de ar e de esperança. Sinalizo. Vêem, mas não vêm. Um ônibus pára. Não para me apanhar: vai para onde não vou. Continuamos caminhando: eu e a noite. Quase não há mais luz. Nuvens sombrias e sombras me assombram. É cada vez mais vã a minha vontade de que tarde seja cedo. Um jardim. Já sinto aromas de jacintos florescendo. Não sinto a mesma emoção que já senti um dia... quando era dia. Minha alma, aos poucos, se acalma. Outro coletivo vem, me vê e pára. Subo sem pensar. Sem falar nada. Prossegue. Numa língua desconhecida pergunta, numa linguagem conhecida, para onde vou. Respondo: para onde você for. Pára para eu descer. Não desço. Desse-me um milhão não desceria. Desce um casal e me pede para acompanhá-lo. Desço. Deixam-me em uma estação. São cinco. Da manhã de “amanhã”. Eu não deixei a noite. Ela me deixou... 22-03-2006www.raymundosilveira.net
"A literatura é uma das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz
quando escrevo e penso que posso dar um pouco de felicidade aos
leitores. E quando digo felicidade, não estou me referindo a uma
felicidade beata: felicidade pode ser exaltação, amor, cólera..." |