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Raymundo Silveira
Posso Ajudar?
- Pois não,
senhor! Posso ajudá-lo?
- Pois não, não, Pois sim! Pois não só se você não tem intenção de me
atender.
- Pois sim, senhor. O que deseja?
- Desejo ganhar o prêmio maior da Sena, mas o que quero, por enquanto, é
apenas a mesma coisa que eu comi naquele dia.
- Desculpe, amigo, como posso saber o que o senhor “comeu naquele dia?”
- Não pode saber porque isto aqui é um país de incompetentes. Aqui
ninguém é capaz de nada. Esta nação já nasceu falida e desde o tempo das
Capitanias Hereditárias...
- O que está havendo, Elisa?
- Este senhor deseja...Digo, quer pedir algo para comer e eu não posso
saber o que é!
- Pois não, senhor, o que deseja?
- Já disse, desejo ganhar a Sena acumulada, mas por enquanto só quero
aquilo que eu comi naquele dia.
- Senhor, será que se lhe mostrarmos o cardápio...
- Se eu quisesse porra de cardápio já teria pedido. Mas eu não quero
cardápio; só quero comer aquilo que eu comi naquele dia.
- Amigo, infelizmente eu não o conheço, não sei em que dia esteve aqui,
nem muito menos o que comeu e...
- Não sabe porque desde Pedro Álvares Cabral aqui nesta terra ninguém
sabe de nada. Na própria carta que Coimbra escreveu ao Rei Dom Manuel...
- Hei, garçom. Eu acho que posso ajudar. Lembro perfeitamente do dia em
que ele esteve aqui e sei o que foi que ele comeu e bebeu.
- Por favor, amigo...
- Ele comeu miúdos de crocodilo do Nilo ensopado em molho pardo feito
com sangue de girafa, ra ra ra...
- Vejam só, este rapaz, um simples cliente igual a mim, sabe
perfeitamente o que comi naquele dia, só os incompetentes que trabalham
aqui...
- Mas, senhor, aqui nunca se serviu este prato.
- E ainda é insolente. Eu digo que comi, há uma testemunha disto, e só
quem não sabe é a garçonete e o gerente da casa. Exijo que me peçam
desculpas antes que eu vá ao DECON, que é outra porcaria, mas pelo menos
deixarei lá registrado o meu protesto.
- Então, desculpe, senhor!
- “Desculpe”, uma ova. Tudo aqui neste país se resolve com pedidos de
desculpas. Escolhem sempre a maneira mais cômoda. Quando Napoleão
invadiu Portugal ninguém reagiu; não precisava. Simplesmente mudaram a
capital para esta terra de imbecis. Agora, como não sabem ou não têm
aquilo que comi naquele dia, acham que resolvem tudo com um simples
pedido de desculpas. Mas isto não vai ficar assim. Vou entrar na justiça
– que é outra merda – com um pedido de indenização por danos morais e...
- O que está havendo aqui, Luís?
- Este cliente está criando a maior confusão, senhor...
- Confusão o quê, seu incompetente! Estou apenas querendo almoçar.
- O que o senhor deseja para almoçar, senhor?
- Não desejo nada, mesmo porque não estou grávido. EU QUERO comer aquilo
que eu comi naquele dia.
- Tudo bem, amigo. Aguarde um instante.
- Oh, Mariano. Pega aquelas sobras de feijoada do sábado, esquenta e me
traz.
- Pronto, caro cliente. Aqui está o seu prato.
- Hum, é isto mesmo. Nesta terra sempre foi assim. As coisas só se
resolvem quando se parte para a ignorância. Na Guerra do Paraguai....
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"A literatura é uma
das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz quando escrevo e penso
que posso dar um pouco de felicidade aos leitores".
(Julio Cortázar)
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