Raimundo Silveira 

 Preguiça

 Era uma manhã de Domingo como poucas. Um sol de Almirante brilhava num céu de Brigadeiro. A cor da água do mar, ao longe, era de um azul marinho tão marinho que só em se fitar a paisagem sentia-se como se a Terra inteira fora um só oceano. Isto originava, em quem a contemplasse, uma aura sensual a se disseminar através de todos os sentidos e produzia um bem-estar incomum. Uma espontânea alegria de viver como raramente costuma suceder aos habitantes das grandes metrópoles. Enrodilhado em seu leito de cetim, ignorava por completo aquele cenário paradisíaco acessível apenas a pouquíssimos privilegiados.

Morava numa cobertura duplex e se vangloriava de que o vizinho dianteiro habitava o litoral africano. Apesar disto, raramente assomava à panorâmica janela. Nunca descia para a praia, pois dizia detestar areia, sol e água salgada. Ignorava, portanto, aquela tal sensualidade a que as outras pessoas se referiam ao fitarem aquele deslumbrante panorama tão ao alcance do desdenhoso interesse. Aliás, o único interesse era quase uma monomania. Apesar dos quarenta e sete carnavais, de uma vida faustosa onde nunca conhecera a escassez material, uma saúde férrea e o exemplo e incentivo duma família ilustrada, só se interessava praticamente por sexo.

A estréia nas lides deste mister se dera bem precocemente e tivera como “preceptora” uma prima mais velha. Também devotada cultora de Vênus desde a mais tenra idade. Era uma morena linda de olhos verdes, cujo perfil lembrava o da estátua famosa representativa da divindade por ela cultuada e oriunda da ilha grega de Milo. Tais dotes eram assessorados por um caráter lúbrico tão exuberante a ponto de rivalizar com outra divindade: Ninfa – deusa dos rios, dos bosques e das montanhas. Seduziu o primo quando este mal ensaiava os primeiros passos no terreno minado da puberdade. Aos catorze anos incompletos. Mal havia colhido a décima quinta flor de primavera no jardim da existência, já tivera um número equivalente de amantes. Tratava-se, portanto, de uma especialista. E, como todo especialista, fazia questão de gerir, unilateralmente, o ofício.

Quando iniciou o primo nas delícias da fornicação, o rapaz estava quase a dormir, mas exibia uma ereção de Príapo. Ao perceber aquela monstruosa protuberância, ficou extremamente excitada. Uma onda de desejo perpassou-lhe o corpo, pondo em êxtase todos os sentidos. Não se conteve. “Sou eu. Não se mexa. Finja estar dormindo e deixe tudo por minha conta”. Jogou fora a calcinha e cavalgou o rapaz durante deliciosos quinze minutos. Como, para ele, estava sendo a primeira vez, não pôde reprimir um grunhido rouco e prolongado.

A partir daquela noite transaram quase todos os dias e, em alguns dias, mais de uma vez. Sempre sob o domínio, a iniciativa, a técnica e o controle absoluto da moça. Aos dezesseis anos, já conhecia o prazer físico com mais freqüência e intensidade do que qualquer homem comum na casa dos trinta. Com uma única diferença: jamais participara do ato sexual com o mais leve movimento. Portanto, literalmente, nunca trepara, pois essa tarefa era executada meticulosa e exclusivamente pela prima. Gostou tanto que cultivou esse hábito para sempre. Não que fosse a única parceira. Pelo contrário, o moço era promíscuo até a raiz dos cabelos. Nos finais de semana dava conta de duas, três ou mais mulheres.

Contudo, a técnica copulativa utilizada era sempre inversa à modalidade convencional. Isto é, executada exclusivamente pela fêmea. Todas as amantes eram previamente instruídas a esse respeito. Algumas protestavam, mas aquelas que ousavam recusar eram descartadas. Os companheiros sabiam disto e faziam assuadas: “Já vai, hem estátua!” “Tu nunca ‘comeste’ ninguém, cara, as mulheres são que te ‘comem’”. “Olá, espinhaço de hipopótamo!” “Ei ferreiro, me empresta teu torno pra eu fazer uma torneira”.

Passou-se, passou-se, mas, aquele hábito nunca passou. Pelo contrário, se estendeu a todo tipo de atividade física ou mental. Possuía empregados e, sobretudo empregadas, para tudo: dirigir, abrir a porta do automóvel, barbear-se, vestir-se, calçar os sapatos, pentear os cabelos, pressionar o botão da descarga sanitária. Diziam que até pra urinar existia uma serviçal encarregada da execução de parte da tarefa. Não obstante, o moço era um autêntico Casanova. Traçava tudo! Não precisava conquistar, pois era sempre conquistado. Muito rico, jovem, bonito como Apolo, mulheres para ele nunca foram problema. Isto é, problemas foram sim, mas pelo excesso, nunca pela escassez.

Como já foi dito, era uma manhã de Domingo como poucas. Um sol de Almirante brilhava num céu de Brigadeiro. A cor da água do mar, ao longe, era de um azul marinho tão marinho que só em se fitar a paisagem sentia-se como se a Terra inteira fora um só oceano. Pouco antes deste dia conhecera Camila. Uma linda inglesinha por quem, afinal, se apaixonara. Além de lindíssima, era inteligente, culta e alta executiva de famosa empresa multinacional. Em função disso, era também muito viajada. Conhecia, como a palma da mão, as principais cidades dos cinco continentes.

Mesmo habituado às facilidades das conquistas, imaginara o quanto seria difícil levar aquela moça para a cama. Foi, com efeito, o que sucedeu e quanto mais ela recusava, mais intenso era o desejo. Pois na noite anterior àquela manhã de Domingo, alcançara, afinal, o tão ansiado intento. Não! Jamais exigiria dela aquilo que fora a tônica de toda a vida sexual. Nesta noite pretendia ser o melhor dos amantes. Não ousaria submeter aquela mulher, a quem tanto amava, ao indolente capricho. Infelizmente, pela primeira vez broxara.

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 "Um conto é significativo quando quebra seus próprios limites com essa explosão de energia espiritual que ilumina bruscamente algo que vai muito além da pequena e às vezes miserável história que conta."
(Julio Cortázar)

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