Raymundo Silveira

A Prótese Peniana

Tinha, lá nele, coitado, uma tal de disfunção erétil. Diabéisso? Diziam que era uma mazela que só lhe permitia molhar o biscoito aqui acolá. Mais acolá do que aqui. A mulher não se conformava com isso, mas suportava calada. Até que chegou um dia que não agüentou mais. “Ou você procura um tratamento, ou se acaba o casamento”. Ainda experimentou tomar vinagra: foi mesmo que água.

Como era muito rico, foi parar em Bruxelas. Buscar remédio pra sua broxura. Lá, recomendaram meter... Ele disse logo: “já tentei mais de mil vezes...” O intérprete falou: “Calma homem, o doutor tá dizendo que você tem de mandar meter, em você mesmo...” “Arre égua!” “Bom, se não me deixar falar, paro por aqui.” “Pois diga”. “Mandar meter no seu biscoito, duas varetas de silicone. É um material parecido com arame grosso. Você pode esticar e encolher toda vez que quiser”. “Sei não... Vou pensar. Depois eu resolvo”.

E jamais voltou. Meter arame no meu pinto? Que coisa esquisita, pensou. E quando for mijar sei lá se os diabos destes arames não vão me furar... E quando for meter? Aí é que é perigoso mesmo. Arriscado nunca mais urinar pelo buraco certo. Ficar espalhando mijo pra tudo quanto é lado. Quiném chuveiro de jardim. E preferiu continuar com a tal mazela.

Passou-se, passou-se, até que um dia a mulher foi clara: “Bom, não quer fazer o que o doutor mandou, né? Então, quero o divórcio. Vou à luta, meu bem. Sou uma mulher ainda nova. Vou procurar um homem de verdade que me satisfaça”. Isso mexeu com os brios dele. Teria sido melhor se ela lhe pusesse chifre. Sem ele saber, claro. Desde aquele dia, não dormia mais, não comia e deu pra beber. Foi pior. Quando o oficial de justiça lhe entregou a intimação, atingiu as raias do desespero.

Muito mais grave foi o desfecho. A esposa tinha um ótimo advogado. Na situação depressiva em que se encontrava, nem ligou. A mulher ficou com tudo. Deixou-o quase sem nada. E ele foi chorar nos ombros dos amigos. Um deles, mais metido a entendido, achou aquilo um absurdo. Como a ignorância pode chegar a tal ponto? É o que acontece com quem deixa o seu país pra ir procurar tratamento em terras estranhas. Com certeza erro de comunicação. Línguas e linguagens deturpadas. “Que arame, cara! Não se trata de nada disso. É uma operação comum. Aqui no Brasil os médicos fazem melhor do que na Bélgica. E igual às melhores clínicas do mundo”.

“Conheço isso muito bem. Tenho um irmão que se operou (o irmão era ele mesmo). E hoje traça tudo o que vier. Existem dois modelos. Um em que o pinto fica duro todo tempo e outro que dobra e estira na hora em que você quiser. Num tem nada a ver com arame. É um material macio, leve, parecido com borracha”.

Ele se operou e pôs o tipo de encolher e esticar. Depois disto, se tornou um Don Juan. Aliás, muito mais que isso. Don Juan precisava ir à luta... Se esforçar pra conquistar mulheres. Ele não. Elas eram que davam em cima dele. Tornou-se até “garoto de programa”. Um prostituto. E se mudou pra capital onde a demanda era maior. Fez também cirurgia plástica. Desfez rugas. Tirou banha da barriga. Ficou irreconhecível. Um gato. Um profissional do sexo. Caro e escolhido por nove entre dez estrelas... Digo, nove entre dez mulheres de meia idade. Todas carentes.

Certa noite de domingo, quando costumava se dar um feriado, recebeu um chamado urgente do hotel mais luxuoso do lugar. Não ficou surpreso. Serviço extra àquela hora não era raro. Geralmente dispensava. Mas como se tratava de um cinco estrelas presumiu que correria muita grana. Decidiu atender a emergência. Afinal, não estava tão cansado. Nem tinha mesmo o que fazer. E lá se foi.

 “Licença, madam...” Levou o maior susto da sua vida. Era a ex-mulher. Não o reconheceu. Sequer desconfiou. “Olá, querido. Entre e fique à vontade. Pode se despir e deitar, se quiser. Vou tomar uma ducha e volto logo”.

Tirou a roupa e se estirou na cama. Quando se refez do sobressalto, a mente era um caos. Um turbilhão de lembranças desfilava na memória e provocava avalanches de ódio. De desejo de desforra. Tem de ser agora. Tenho de me vingar. E pensava. E espremia os miolos na ânsia de encontrar uma saída. Uma situação semelhante à humilhação que ela lhe impusera no tribunal diante de juiz e advogados.

Ela voltou. “Queridinho, pago bem. Mas sou muito exigente. Camisinha não precisa. Sempre trago comigo. Quero apenas que me mostre o atestado de saúde, os resultados dos exames anti-HIV e... O pinto. OK. Exames todos normais. Agora, o pinto. Ah, amor. Quero não! Vou lhe pagar apenas a metade, pois se deu o trabalho de vir aqui. É a ‘cara’ de outro que conheci. E me fez infeliz durante muito tempo. Desculpe”.

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  "A literatura é uma das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz quando escrevo e penso que posso dar um pouco de felicidade aos leitores".
(Julio Cortázar)

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