|
|
|
Raymundo Silveira “Quando Era Viva E Podia Ler...” Como lamento quando pessoas vivas e idosas, embora não gozando de boa saúde, passam o tempo a lamentar o tempo... Que passou! Não sabem o que estão perdendo. Quando criança acreditava no Inferno. A imagem que fazia era a mesma que me incutiam as catequistas. Um lugar de muito fogo e satanases a cozinhar as almas... Quando me tornei adulta, passei a desprezar essa idéia ridícula. Pois podem acreditar: existe, sim. Desde o instante em que morri encontro-me dentro dele. Estar no Inferno é muito pior do que ser consumida pelas chamas: é não poder ler.
Sinto falta da leitura tanto quanto sentiria do ar. Se ainda existisse. Como era feliz quando vivia, e podia ler... As cartas que recebi ao longo da minha existência. Dos meus pais e dos irmãos, quando estudava interna no colégio. Abria todas com o coração aos pulos. Cada uma era como se um pedaço deles fosse enxertado em mim. Às vezes não compreendia muito bem o que queriam dizer. Não importava. Eram como obras de arte. Bastava ver as palavras escritas para me comover. E chorar de alegria. Mais, muito mais, do que me comovi, quando viajei e me vi diante das telas dos grandes mestres. Nenhum painel de Botticelli pode ser comparado a uma linha sequer daquelas mensagens.
As cartas do namorado, depois meu marido... Nem precisava abrir, pois já sabia o que continham. Bastava ler o subscrito. Bastava aquela caligrafia tão familiar e tão querida para me encher de felicidade. Os textos eram todos iguais. Nunca, porém, monótonos. Como também iguais e deleitosas são as roseiras. Quanto mais rosas brotam, mais lindo o jardim e maior o prazer de quem o contempla.
Mais tarde, as cartinhas mal escritas dos meus filhos. Aparentemente, sem qualquer graça. As letras pareciam borrões esparramados sobre toscos pedaços de papel. Eram palavras tão ingênuas que levariam aborrecimento a qualquer outra pessoa. Guardei todas até a minha morte. Porque jamais concebi algo que tivesse o seu valor. Mesmo que me tivessem oferecido o maior diamante da Terra, não trocaria por nenhuma delas.
Minha concepção sobre o universo não mudou nada depois que morri. Só não acreditava que pudesse chegar até aqui. Sempre considerei a vontade, a força fundamental da natureza. Sem ela, a própria sobrevivência seria impossível. Como a minha vontade era apenas viver pelo prazer da leitura, desde que esta esteve sempre ao meu alcance, posso dizer que fui venturosa. E estava convencida de que tudo acabaria depois do último suspiro. Por isso, forcejei por viver além do que podia. Queria existir mais do que fui, apenas para ser dona do meu prazer, um pouco mais.
Sinto como se estivesse me esvaindo aos poucos. Como não estou viva, sei também que essa sensação não cessará. Pois se esvair completamente só pode acontecer para quem tem corpo. Quando era viva, às vezes sentia excessos de mim, jamais essa percepção de aniquilamento. Mesmo durante a minha morte. Como sou imaterial e, portanto, inelástica, não posso voltar a me expandir. Portanto, não sei como será o desfecho. Minha condição atual pode ser comparada com o inverso da do Universo. Estarei me contraindo até o infinito?
Não é somente a falta das cartas que me causa esse tormento. A carência de toda palavra escrita me faz sofrer. Daria tudo por um livro, uma frase, um verso de qualquer poeta. Por mais elementar e primitivo que fosse. Um folheto de cordel, que nunca li em vida, agora seria um tesouro.
Ao morrer, perdi a identidade com o mundo, mas conservei a identificação. Talvez seja este o grande mistério. No meu caso, ansiar pela leitura e não poder fazê-lo, é mais do que uma frustração: é a privação do tudo. Já disse que creio no Inferno porque estou dentro dele. Mas não o considero um castigo. Não creio que isto me tenha sido imposto pelo Deus. Do mesmo modo que Ele não impõe pena alguma às crianças que nascem monstruosas, ou aos jovens que contraem leucemia... Ou a velhice aos velhos. Por outras palavras, para mim, a morte resulta do mesmo acaso que gerou a vida. E a única diferença entre elas é que a liberdade está do lado da vida.
Do mesmo modo que não acredito em castigo, também não creio em proteção. Muito menos em anjos da guarda. Se o meu existe (ou existiu), era um anjo do mal. E deve se encontrar num lugar parecido com este. Não tinha medo da pobreza, do fracasso, da morte... Enquanto viva, só duas coisas me enchiam de pavor: me tornar inválida e não poder ler. Então, ninguém me protegeu de nada. Já que vim parar aqui.
07/04/2005 http://www.raymundosilveira.net/ http://raymundosilveira.zip.net/ |