Raymundo Silveira

Quanto Você  Pensa Que Vale?

- Chefe, vê se pára de mexer esta mão, por favor, porra!

 

Noite ou dia? Ignorava. Não interessava mais. Nenhuma importância. Não fazia diferença. As horas há muito já tinham morrido. Restos de vida são feitos das sobras de momentos imponderáveis. Para quem vive, só conta o futuro, por isso é mensurado. Para quem está preste a deixar de existir, o tempo é uma abstração tão absurda quanto o infinito. Cirurgia de grande porte. Deitado na mesa de operações, o velho médico escutou o jovem colega anestesista e olhou para cima. Projetou um filme. Avistou uma locomotiva viajando em alta velocidade. Refletores potentes. Mas focavam para trás.

 

Uma semana antes ouvira do outro colega, o cirurgião: Seu João, estou muito cheio de clientes. Se o senhor tiver a bondade de esperar terei prazer em atendê-lo depois. Há uma fila de espera e tem de ser respeitada. Pagava em moeda sonante através de um convênio. A fila que “tinha de ser respeitada”, também pagava. Em moeda altissonante. Dinheiro vivíssimo. Cash. Formara-se aos vinte e seis. Um profissional competente. Que também competia... Até começarem os primeiros sinais de decrepitude, foi príncipe na vida. Era incapaz de contar quantas vezes recebera devolução de dinheiro por consultas pagas. Sem se identificar. Depois, de um modo ou de outro, o colega terminava descobrindo.

 

Se não tivesse se identificado... Estaria no renque que tinha de ser respeitado. Embora as moedas não ressoassem tanto, o colega concluiria o contrário. Quando jovem, não eram suas. Pertenciam aos clientes que encaminhava. Dava no mesmo. Trata-se de uma lei implacável. Não existe almoço de graça. Nem jantar. Nem nada. Inclusive, ou principalmente, atendimento médico a um ex-médico.

 

Então, entra um colega, no meu consultório, e sem mais nem menos se põe a comprar consultas? Para mim é um privilégio atendê-lo. Nem pensar. Pegue o seu dinheiro. Doutor aqui na minha clínica é tão importante quanto um parente próximo. Jamais enfrentara filas. Os Laboratórios atendiam com cortesia pra lá de razoável e os gerentes acrescentavam ser uma honra prestar serviços de graça. Graças à vasta clínica do doutor.

 

Quanto você pensa que vale? Errou. Puta merda, ô velho trabalhoso. Pára de mexer esta mão, velho escroto! O anestesista se descuidou. Falou sem perceber que o colega / paciente ainda aguardava, paciente, a sua injeção de paciência. Mas este continuava olhando para cima. Viu-se num espelho de passado. Lembrou os dias em que olhava para baixo! Quando ele próprio operava. Onipotente como um deus. Senhor absoluto da vida e da morte. Narcisismo e auto-estima levados às últimas conseqüências. Afinal, preparava-se para ferir alguém. Cortar alguém. Despedaçar alguém. E mais: com o seu pleno consentimento. Sem qualquer reação. E ainda por cima receberia dinheiro, reconhecimento, gratidão. Uma vitória mil vezes mais espetacular do que a de um gladiador que subjugava outro na arena. Estranho contraste. Pareciam ações simultâneas. Ou como se uma e outra já tivessem acontecido antes mesmo de acontecer. Sentia-se, a um só tempo, Rei e vassalo. Amo e escravo. Algoz e vítima. Conjecturou: se todas as pessoas experimentassem aquela mesma sensação, muitos atos arbitrários seriam evitados. Enquanto doente, a placidez era o seu único trunfo. Respondia à arrogância com serenidade. Devolvia petulância com autodomínio. Reagia ao despotismo com um solene desprezo. Feito um pé de mandacaru exibindo a beleza e a exuberância da sua flor contra a sequidão da terra causticante.

 

Quando recuperou os sentidos, viu-se imobilizado. Atado a uma cama de enfermaria. Ninguém por perto. Muita dor e muita sede. Vontade terrível de urinar. Não conseguia. Porções dos braços e das mãos em carne viva. Impossível mover um músculo. Esforço inaudito para falar, mas o que saía da boca era algo como glog glog, glog glog. Um cacarejo. Detrás da cama, um bip, bip, bip intermitente. Contagem regressiva para a partida de uma aventura espacial sem retorno.

 

Houve uma época em que foi o centro do universo. Em torno de si giravam planetas, estrelas e galáxias. Do contador ao prefeito. Do oficial de justiça ao juiz. Do sacristão ao Senhor Bispo. Do zé ninguém ao milionário. Só não se considerava imortal porque uma das tarefas era assistir, com indiferença, à morte alheia. O consultório era lotado. Sobretudo mulheres. Falava-se, inclusive, em transas. E a reputação não sofria o mais leve arranhão. Pelo contrário, era considerado fino, delicado, dedicado, atencioso... Um gentleman. Quem, o Doutor João de Sousa? Aquilo é o melhor médico que esta terra já teve em todos os tempos. Presidente do Rotary, Secretário do Centro Médico, Membro do Conselho de Ética de todos os hospitais, Chefe da Saúde Pública, Diretor Clínico da Santa Casa. Cargo de estrita confiança do Senhor Bispo.

 

Depois de esforços sobre-humanos, libertou-se da amarra do punho direito. Mais uma hora e soltou o outro e ambos os membros inferiores. Tentou sentar. Tonteiras e a vista turva impediram. A tortura da sede mais cruel do que a vontade de urinar e a dor da operação. Mais tarde se levantou e deu dois passos cambaleantes em direção a um criado-mudo. Deslizou no assoalho ensebado da enfermaria e caiu sentado junto com uma poça de sangue escorrendo das entranhas. Quatro enfermeiras socorreram e com a ajuda de um zelador puseram-no de volta no leito e limparam o sangue coagulado acumulado no baixo ventre. Vovô, como o senhor faz isto? Parece menino! Se repetir, ninguém mais virá socorrê-lo e o senhor sangrará até a morte. Um pouco de água, pelo amor de Deus. Negativo, nem um dedal. No prontuário está prescrito com todas as letras: nada via oral. Se lhe dermos qualquer coisa o Dr. Josué amanhã dará o maior cagaço. E quem vai pagar somos nós.

 

Não era gente, mas ingente indigente. Rebotalho humano de um descaso desumano. Anônimo deputado da puta de uma vida desvalida, participando da assembléia da escória social. Último etcetera inconclusivo de uma listagem desimportante e casual. Um enfermo estafermo.

 

Doze horas de martírio. Josué, por favor, me dá um pouco de água. E por que não pediu às enfermeiras? Prescrevi dieta zero, mas não proibi água. Aqui está, beba um pouco. Quando sairá resultado da biópsia? Já falei com o Damasceno. Me prometeu para sexta à tarde. Até lá siga as recomendações. Não resista ao que for preciso ser feito, principalmente quanto à permanência da sonda e às lavagens. Passe bem, seu João de Sousa. Até amanhã. Três dias depois já podia caminhar e se alimentar. Sexta-feira ao meio dia deslocou-se com dificuldade até um corredor comunicante com a ala de mulheres. Na parede, um orelhão. Trazia uma ficha.

 

Clínica de Anatomia Patológica Doutor Damasceno, boa tarde. Queria falar com o Damasceno, por favor. Quem deseja? Doutor Josué Menezes. Diz, Josa. Oi Damasceno, tu pode me adiantar o resultado do exame do João de Sousa? Tô de saco cheio daquele velho. Não pára de me aporrinhar pelo resultado da porra desta biópsia. Tá aqui comigo, velho Josa. É caranguejo dos brabos. Adenocarcinoma invasivo da próstata. O velho tá fodido e mal pago. Talvez não escute os trovões de Janeiro. Tu tá com a voz diferente, Josa. Foi o porre de ontem à noite?

 

04/01/2006

 

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(Julio Cortázar)

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