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Raymundo Silveira Rendeiros de Pedras Transcorria o ano de 1385. A soberania portuguesa era uma chama de vela bruxuleante ao sopro de vendavais vindos de leste; as intromissões castelhanas eram constantes. Dom João, filho de Pedro I (não o nosso, mas o amante de Inês de Castro), inicia a Dinastia Avis em terras lusitanas. Portugal vivia, portanto, nesta época , uma das inúmeras etapas de seus intermitentes conflitos históricos com o vizinho dominador. Dom João foi então sagrado Rei, com o nome de João I. Seu rival espanhol tinha também, por acaso o mesmo nome. E travaram, neste justo ano, uma feroz batalha. Só que o primeiro João I contava com apenas 7 000 soldados, enquanto o outro, com 20 000! A luta sucedeu-se em Aljubarrota e daria à Lusitânia nada menos que dois séculos de estabilidade política e sólida soberania. A vitória do primeiro João I foi absoluta. O campo de batalha teve como cenário o território que hoje compreende a região situada entre Timor e Leiria. O João português contava com um general de exímia habilidade estratégica, ou seja, seu condestável Nuno Álvares Pereira. Mas uma dúvida se impõe. Como pode um exército muito menos numeroso, na proporção de quase um para três, vencer o mais forte? A maioria dos historiadores concorda que um dos principais fatores - se não o único - que explicaria este aparente paradoxo, estaria encarnado na figura de uma fidalga mulher: a inglesa Filipa d’Alencastre. Por acaso, rainha, mulher de Dom João. Vulto carismático de excepcional valor e genitora de uma prole ilustre. Sua personalidade invulgar teria influenciado o arrojo real, demais de conquistar a simpatia e lealdade dos súditos, incluindo-se aí muitos dos seus próprios patrícios, homens sabidamente valorosos e tradicionais guerreiros. Não foi à toa que ela mereceu do maior poeta Português, depois de Camões - Fernando Pessoa -, o gracioso e merecido epíteto de "Madrinha de Portugal!" Todos os filhos do casal desempenharam papéis vultosos na História de sua pátria, mas foi o infante Dom Henrique quem se destacou mais excepcionalmente e há mesmo quem atribua a ele o mérito de tudo o quanto Portugal realizou em feitos náuticos e suas naturais conseqüências, durante os séculos XV e XVI. A cerca de catorze quilômetros de Aljubarrota ergue-se um dos mais grandiosos e apoteóticos monumentos da arquitetura ocidental, o "Mosteiro da Batalha" ou de "Santa Maria da Vitória", construído precisamente a fim de comemorar o invulgar feito lusitano. Ao visitar o lugar, a primeira impressão que me ocorreu foi a de que eu teria me tornado subitamente um habitante liliputiano d’além mar e tivesse sido arrastado a um sítio estranho onde um invisível Gulliver-Rendeiro houvesse entretecido, em pedras, uma gigantesca e belíssima malha tridimensional. Palavras para descrever este primor de arte e engenho humanos? Só se eu as tomar emprestadas de outro gênio, também artista, também português, o "Prêmio Nobel de Literatura" José Saramago; "Com a ajuda do prestígio da luz, o lavradio manuelino torna quase imaterial a pedra. Este tímpano do claustro real da Batalha vai libertar-se da lei da gravidade..." Confesso que jamais havia deparado com obra arquitetônica tão bela e grandiosa. E nem poderia deixar de ser assim, uma vez que em terras deste Novo Mundo - de onde nunca havia saído antes -, nada existe que se lhe possa comparar. O estilo, pelo menos em minha pobre ótica amadora, era quase indefinível. Um misto de romântico, gótico, manuelino e algo mourisco, se é que isto é possível. Posteriormente, vim a saber ser o projeto de autoria do artista português Afonso Domingues. E pensar que cá no Brasil cultiva-se o hábito de considerar embotado o intelecto daquela gente! O pórtico da fachada principal deslumbra a todos, sobretudo a quem vem deste lado do mundo. Faço questão de insistir que, aqui na América Latina pelo menos, nada parecido com aquilo jamais foi cogitado sequer em sonhos. A elegância das ogivas internas, sobretudo as da nave central, fica realçada num interessante contraste quando comparada ao perfil relativamente baixo do conjunto da edificação. Todo o mosteiro é composto da Igreja, do Claustro de Dom João I, do de Dom Afonso, da Sala do Capítulo e das famosas capelas inacabadas, também ditas Imperfeitas, as quais dão o toque manuelino, como é costume suceder em quase todos os monumentos de estilo gótico em Portugal. No Claustro Real, repousam ao centro os restos mortais de João I e sua Filipa, rodeados pelos de todos os seus ilustres filhos, entre os quais os do genial Infante, fundador da Escola de Sagres. "MEDICUS QUANDOQUE SANAT, SAEPE LENIT ET SEMPER SOLATIUM EST"
"A
literatura é uma das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz
quando escrevo e penso que posso dar um pouco de felicidade aos
leitores. E quando digo felicidade, não estou me referindo a uma
felicidade beata: felicidade pode ser exaltação, amor, cólera..." |