Raimundo Silveira

Sarita

Se tivesse catorze anos no princípio do século vinte e um, seria chamada, no máximo, de atirada. Nos anos 1980 e 1990, maluquinha. No final da década de 1960 ou na de 1970, prafrentex. Mas ela tinha catorze anos em 1958. Sarita. No lugar onde nasceu e morou este era também um nome de mulher. Mas nenhuma família “tradicional” registrava ou batizava assim uma recém-nascida. Por sua causa. Para aqueles que ainda não viviam naquela época, o que vai ser aqui relatado poderia ser a história da adolescência de uma mulher moderna, mas conservadora. Só que em 1958, Sarita era considerada, por algumas pessoas, que com ela conviveram, uma moça bonitinha. Mas ordinária.

Parecia uma ciganinha. Trigueira, cabelos negros e sedosos, narizinho arrebitado, lábios carnudos, da cor de carmim. Seios rijos, lindos e ainda crescentes. Nem grandes nem pequenos. Na medida exata do seu corpo de menina-moça andaluza. Tinha um temperamento impetuoso que contrastava com a candura do semblante. Em 1958, pelo menos onde ela morava, nenhuma mulher usava calça comprimida. Short era palavra desconhecida. A barra da saia das mulheres se situava, quando muito, cinco ou dez centímetros abaixo dos joelhos. Calcinhas de renda não passavam de títulos de filmes eróticos. Mas tal não impedia que as coxas de Sarita e outras partes mais próximas de onde elas se encontravam, fossem conhecidas por quase todos os rapazes, seus colegas. Por uma razão muito simples: ela só usava calcinhas quando sabia que eles não poderiam vê-la sem. Adorava mostrar tudo o que sabia que era lindo no seu corpo. E que atraía os homens.

Todos deliravam. As coxas de Sarita, para os jovens daquele tempo, eram muito mais famosas do que as de Marylin Monroe em “O Pecado Mora Ao Lado”. Os detalhes íntimos da Sharon Stone em “Instinto Selvagem”, com cruzamento de pernas, pelinhos e tudo mais, são centenas de vezes menos excitantes. Por vários motivos. Dois deles: eram mais lindos e não se encontravam tão inacessíveis quanto.

Ó tempora! Ó motéis! Com quanto conforto nos atraís! Com que luxúria nos chamais! Camas redondas, onde nos sentimos como sultões de teatro. Cinemas eróticos que, às vezes, fazem a diferença. Tetos e paredes espelhados onde nos vemos em pleno coito e mais parecemos crustáceos. Engalfinhados numa luta de vida ou morte. Não vos condenamos. Cobrais caro, mas proporcionais exatamente o que ofereceis. Vai quem quer. “Cê Qui Sabe...” Não é mesmo? Há, precisamente, quarenta e sete anos, o vosso rico nome não era pronunciado. Nem em vão, nem vantajosamente. Porque sequer constava nos dicionários. Mas duvido que disponibilizeis hoje, tanto prazer quanto os vossos precursores. Além disso, vos falta o mistério que, naqueles, gerava a fantasia. E a expectativa, que produzia o êxtase e transporta para o Céu. A custo zero. Minto: a custo- susto...

Ó tempora! Ó Motéis!  Naquele tempo ninguém broxava. Absolutamente ninguém. Em nenhuma circunstância. Mesmo durante o custo-susto-custo... Quereis saber por quê?  Muito simples: Todos tinham entre treze e dezessete anos. Nenhum fazia parte da “Confraria dos Espadas”. Nem dos Sabres. Mas do exército dos “Baionetas Caladas”.

Sarita era uma espécie de musa de um certo compositor popular da época. Parecia ter o destino da Lua: a todos encantava e não era de ninguém. Melhor dizendo, era de todos. Mas não era... Explico. Nenhum mancebo daquela aldeia poderia ter a audácia de dizer que comeu Sarita. E (quase) todos, comeram... Tá parecido história da carochinha? Mas, para todos os efeitos, trata-se da mais pura verdade. 

O colégio onde estudávamos era uma casa antiga, mas vasta e faustosa para a época. Dizem que foi construída na segunda ou terceira década do século vinte. Com lucro de borracha da Amazônia. Pouco interessa. Isso só é aqui referido para justificar a existência de uma espécie de esconderijo subterrâneo, chamado porão. Talvez um resquício arquitetônico dos castelos europeus. A própria Sarita teria engendrado tudo. “Vocês abrem uma fenda bastante ampla no assoalho, bem em frente da mesa dos professores. É lá que tomam as lições. Quando estiverem a fim, é só me avisar. Virei pra aula sem calcinha. Quer seja tomada ou não a minha lição, ficarei ali. Pelo tempo que quiserem. Exatamente sobre a fenda.” Isto, em 1958. Quando namorados eram proibidos de se dar as mãos. Porque se isso acontecesse, a braguilha do rapaz anunciava imediatamente. Para quem quisesse espiar.

 Ó tempora! Ó motéis! Ainda precisa dizer mais? Havia um pacto de cavalheiros. Havia filas. Ninguém se atrevia a entrar na “câmara nupcial” enquanto o outro colega estivesse em ação. Sim, em ação. Sarita sabia de tudo. Inclusive qual era a “bola da vez”. E aproveitava para mostrar as suas habilidades de dançarina do ventre e de atleta de ginástica rítmica. Ora se ajoelhava, como se fosse fazer uma prece. Ora afastava os joelhos ou as pernas. Ora suspendia uma delas enquanto entreabria e fechava a outra. Não se sabe quanto a um eventual desempenho.  Mas as posições olímpicas eram impecáveis.

Enquanto isso, mucosas cor-de-rosa se entreabriam e fechavam como pétalas de flores de roseiras. Tão próximas do expectador-amante que este quase lhe sentia o odor de fêmea. Ávida de dar, mais do que sentir prazer. Pelinhos, da cor do azeviche se agitavam como trigais ao vento. Lábios inchados de desejo pareciam latejar. Um líquido cristalino gotejava-lhe suavemente das entranhas e umedecia tudo. Suavemente. Como as gotas de orvalho no sereno da noite. Um par de coxas roliças, morenas e macias guarnecia aquele sacrário de Vênus. Enfim, era o Céu na Terra. O que os olhos viam o coração sentia. E o que o coração sente, pelo menos naquela idade, é tão ou mais gostoso quanto as sensações táteis de outros órgãos menos tenros e mais rígidos do que ele. Depois do gozo, entrava o seguinte. Quando todos estavam saciados, Sarita era comunicada, através de gestos, por emissários que se alternavam a cada dia.

Aquela deusa teve um fim triste e precoce. Morreu aos trinta e poucos anos. Porém, até hoje, muitos cinqüentões e sessentões ainda sentem saudades.

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"A diferença entre ficção e realidade? Ficção tem que fazer sentido."

(Tom Clancy)

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