Raymundo Silveira

 Estendido numa rede de tucum, junto a um canto de parede salitrada, deixando cair o reboco, pensava num passado tão presente. Comprara aquela casa para os pais. Quando estes morreram mudou-se pra lá. Sentia um misto de remorso e de saudade. Enquanto esteve casado pouco os visitava. Preocupava-se apenas em manter os hábitos pequeno-burgueses, indiferente à sua sorte. Hoje morava sozinho. Ninguém o visitava. Não visitava ninguém. O único contacto com o mundo exterior era a televisão. Ultimamente, pouco a assistia. Preferia passar as noites bebendo goles de aguardente que o mantinham, por algum tempo, sob uma falsa e efêmera auto-estima. Que na manhã seguinte pagaria com os juros de uma agônica ressaca.

Supérflua qualquer Esplendidez. Inúteis Bem-aventuranças. Desnecessária Esperança, essa prima-irmã da Espera. Nada esperava nem desesperava. O próprio agora-já pouco o interessava.  Um gato miou nessa fantasia chamando-o de volta à realidade. Alguém veio entregar as marmitas do almoço. Nenhum apetite. Não comeu nem bebeu. Só sentia fome de silêncio e sede de serenidade.

 Um relógio de pêndulo tiquetaqueava. Aquele som era, ao mesmo tempo, bem-vindo e funesto. Marcava os minutos que ainda faltavam para o anoitecer da solidão. Logo, para a hora da ilusão alcoólica. Mas também soava como a voz de um duende contando, regressivamente, os segundos de vida que ainda lhe restavam: “um segundo a menos, um segundo a menos, um segundo a menos”.

 Essas horas que antecediam as libações eram as piores do dia. O tempo preguiçava. A necessidade de se comunicar era obsessiva. E o tédio, intolerável. Ligou a tv. Àquela hora, só futilidade. E ainda que exibissem “A Noviça Rebelde”, ou mesmo um clássico de Hitchcock ou de Billy Wilder, o roteiro e as imagens teriam o mesmo efeito visual de uma página de calendário nos últimos dias do mês.

Então por que não começava logo a beber? Simplesmente porque dormiria cedo da noite e despertaria na alta madrugada. E sabia que a insônia que se segue a uma bebedeira é muito cruel. A princípio não tinha a mínima noção de tempo. Não sabia se era manhã, tarde, noite ou madrugada. Por causa disto, nada importava: compromissos, trabalho, pagamento ou recebimento de dívidas, estado de saúde, ou até mesmo a morte de algum parente próximo. Sentia esgotadas as reservas de energia física e mental.  Mas quando acontecia de acordar na alta madrugada, a ansiedade e a depressão se multiplicavam por mil. Parecia que tudo deixara de existir e só restara aquela alma sozinha e cheia de desespero. Então, somente o pavor da insônia o continha.

 Levantou-se e foi ao banheiro. Depois deu várias voltas em torno das áreas laterais da casa. Havia árvores e outras plantas dispersas. Folhas de bananeiras, agitadas pelo vento, incrementavam-lhe os conflitos ao se agitarem perpendicularmente. Pareciam cabeças afirmativas: “que sim, que sim, que sim”. Outras meneavam em sentido diagonal: “que não, que não, que não”. Colheu tomates maduros. Jogou-os fora. Nada o entretinha. Tudo entediava. Voltou para a rede. Agora olhava o teto contando as telhas em cada fileira. Olhou o relógio pela milésima vez. Três e meia da tarde. Teve a sensação de que o tempo retrocedia. Apanhou uma folha de jornal e ensaiou resolver um problema de palavras cruzadas. “Abóbada celeste” (três letras). Achou-se tão ridículo que rasgou o papel em pequenos fragmentos.

 Voltou ao banheiro. Fitou-se num espelho. E se odiou. Por existir, por ter fracassado, por ter nascido. E por não ter coragem de se matar. Sentou numa cadeira de balanço. O ruído das molas de aço eram como risinhos sardônicos de antigos competidores que tinham “vencido na vida”. Olhou mais uma vez o relógio: seis da tarde. Ainda faltavam duas horas. Isto é, dois séculos. De trinta em trinta minutos voltava a consultar o mostrador. E, a altíssimo custo, resistia. Deitou-se mais uma vez e fechou os olhos prometendo-se que só os abriria duas horas mais tarde. Suportou apenas cinco minutos.

 Enfim, as abençoadas oito badaladas. Lavou um copo como se banhasse um bebê. Abriu a garrafa de aguardente, cheirou-a e despejou uma porção dupla. Engoliu de um só trago. E entrou no Paraíso.

 23/02/2005

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